Amigos novos, semi-novos e antigos
Samarone Lima
Outro dia um camarada disse que escutou de um sujeito que até conheço, assim meio de longe, a seguinte frase:
“Não sinto falta nenhuma de amigos”.
Eu fiquei perplexo com a declaração, pronunciada com um certo orgulho. Minto. A frase causou um ferimento em mim. Me deu pena do sujeito, tão dentro de si, tão aprisionado ao eu. Certas coisas é melhor a gente não escutar.
Tenho algumas poucas vocações, vários males e algumas obsessões. Ou seja, sou como a média nacional.
Os males vêm da minha própria natureza taurínica, as obsessões a vida foi agregando e progredindo. Sobre os males e obsessões, falarei outro dia, porque hoje amanheci com gosto mesmo foi para falar de uma vocação que tenho, uma das poucas, que é fazer amigos, e dificilmente largá-los ou ser largado. Essa raça que sinto falta sempre.
Falo isso porque nos últimos meses, andei conhecendo pessoas são figurar tremendas e ampliando o contato com outras que eu já gostava sem pena. À nova safra, juntaram-se outros de períodos mais antigos, gente que sempre estou espiando de vez em quando, assuntando, quarando as idéias e sonhos.
Preciso falar deles, agradecer pela existência e desejar que vivam muito mais que eu. Vamos à lista:
Arsênio Jr
Trata-se do que chamo velho novo amigo. Começamos a nos falar por causa de meus escritos, por email, fui vendo que o sujeito era mesmo de raça, depois tomamos uns cafés. Já ganhei alguns livros de presente, mas a nova e já velha amizade é o presente maior. Tem, claro, seu lado menos louvável, que é no campo futebolístico, mas é necessário exercitar a convivência com os contrários ao Santa Cruz Futebol Clube.
Além de ser um grande sujeito, é um leitor fenomenal. Comenta com rara precisão os textos que envio, especialmente poesia, acho inclusive que ele deveria abrir uma consultoria literária para poetas em fase de nascença, construção ou nos quase esplendores. Falta-nos algumas horas num bar e já reclamei que ele anda muito europeu, afastado dos botecos desta cidade. A reclamação já entrou em sua disputada agenda e breve tomaremos um bom porre.
Adelvane Néia
Conheci esta criatuar maravilhosa há menos de um mês, quando fui participar do processo de construção de um espetáculo teatral chamado “Divinas”. Silvinha, minha mulher, tinha já feito um curso com ela, a formação de um grupo de palhaças, e era toda elogios.
Bastou o primeiro ensaio, para descobrir uma mulher talentosíssima e um ser humano formidável. Num processo absolutamente inverso ao de Arsênio, logo no terceiro ensaio, fomos ao bar Mamulengo, depois fizemos um pouso técnico no Empório Sertanejo, outras farras vieram, passando pelo Tepan e a casa de nossa amiga Fabiana, também do elenco. Uma grande artista, deixo registrado. O espetáculo solo “A-ma-la”, que vi em DVD, é uma jóia. Adoro quando um grande artista é também uma grande pessoa, porque não suporto essa conversa fiada de que a gente tem que aguentar gente boçal sob a argumentação de que se trata de um gênio. Gênio é Joab, porteiro aqui do prédio, com suas reflexões filosóficas que deixariam um Kant em depressão.
“O Morro da Conceição parecia uma árvore de natal”, disse ele, após uma vitória dramática do Santa Cruz.
Toda vitória do Santa Cruz é dramática, diga-se de passagem.
Muitas conversas maravilhosas, troca de idéias e sentimentos e a certeza que ganhei uma amiga de presente, mesmo que ela não queira, que acabou de dizer “mas o Samarone parece meu amigo de infância”.
Josafá
Meu chefe no trabalho. Foi, creio, aquela afinidade clássica que vem de tempos remotos. Olhei para o sujeito e pensei: Esse é gente boa.
Não deu outra. Como trabalhamos com Ariano Suassuna, isso implica em viagens pelo interior de Pernambuco, acompanhando as aulas-espetáculo. Creio que já assisti umas 70 aulas, vou fazer minha contabilidade. Josa sempre está por perto, acompanhando tudo, com atenção e cuidado.
Pois bem. Quando viajamos, fazemos nosso trabalho, acompanhamos tudo e depois que a missão terminou, relaxamos, comemoramos e procuramos algum boteco da cidade para conversar umas águas.
O velho bom papo. Tem gente que é boa para ganhar dinheiro, para mandar, para falar mal dos outros, para reclamar da vida, para ser grosso no trânsito, no supermercado, Josafá é aquele sujeito bom de papo, a conversa mansa que não tem fim. O nome do pai dele é o mesmo do meu, Zé Vicente, só que o meu é do Ceará, o dele é da Paraíba, mas é outra afinidade.
Só chamo ele de Josa, e ele tem o mau hábito de bater à minha porta, quando vem falar comigo, não respeitando o aviso que preguei, escrito “entre sem bater”. São as contrariedades da vida.
Duas vezes por semana almoçamos aqui perto, no centro. Vez por outra esqueço a carteira, ele paga sem remorsos, mas estou anotando tudo para dar em dezembro. Vai ser um décimo terceiro a mais. Daqui a 15 dias vamos a Afrânio e Cabrobó, fazer nosso trabalho oficial e ampliar nossa Pesquisa Sentimental dos Bares de Pernambuco.
De vez em quando mando cartas com recortes mirabolantes de coisas publicadas nos jornais, ele racha o bico, mas nunca, em toda a sua vida, teve a coragem de responder.
Inácio França
Meu velho amigo desde os tempos de São Paulo, há uns 15 anos. Aquela amizade que não perde a sequência com o tempo. Ultimamente temos conversado mais, pensado mais sobre a vida, tantando não levar as coisas tão a sério. Além disso, estamos entabulando umas oficinas literárias, e ele vai dar a sua a partir de julho, na Livraria Poty. Acho que vai ser muito bom este projeto.
Inácio é aquele amigo que a pessoa liga na hora de maior aperreio, para uma consulta ao vivo, ou para comemorar as muitas vitórias ou alguma eventual e sempre injusta derrota do Santa.
Ele foi para um pequeno retiro espiritual em Belém, de três meses.
Todo mundo normal que conheço, e que vai passar três meses em outro estado, que vai ficar longe da mulher e do filho, faz uma série de pesquisas, lista algumas prioridades.
A primeira pesquisa de Inácio foi saber quando teria jogo do Remo contra o Paissandu, para comprar seu ingresso. Este sim, é um ser humano e tanto.
Padre Daniel Lima
Conheci o padre Daniel há pouco tempo. Fui à sua casa com Luzilá Gonçalve, sua amiga de muitos anos, porque eu estava fazendo uma matéria para o Suplemento, excelente publicação da CEPE, sob a batuta e Raimundo Carrero e Schneider Carpegianni.
A afinidade era anterior ao encontro, porque eu já tinha escutado muitas histórias sobre ele, e li seu livro de poesias, publicado somente aos 95 anos de idade. Um grande poeta guardou o melhor para o outono. Guardou não, escondeu, quase numa infâmia contra a beleza. Luzilá foi uma das conspiradoras, para traficar os poemas até a editora.
Semana passada voltei à casa de Célia, onde ele fica a maior parte do tempo. Conversamos muito, rimos a valer, ele é um filósofo em eterno pensar, como um gato feliz que ronrona o tempo inteiro, além de ter aquela alma de menino brincalhão e adulto travesso. Ele pode nem me considerar seu amigo, mas já o considero do peito e da casa.
Amizade também não tem essas besteiradas todas não. Há sim, as amizades não correspondidas, apesar de eu não achar que seja o caso, porque ele foi com minha cara.
Amigos da CEU
Sempre que passo defronte à Casa do Estudante Universitário, a CEU, me benzo. É uma herança da minha avó, se benzer em lugares sagrados.
No apartamento 312 vivi anos fundamentais da minha vida, de 1998 a 1992. Entrei aos 19 e saí aos 23. Nos quatro anos, eu estudei, li, escrevi, varei madrugadas, li, estudei, escrevi, frequentei as aulas da UFPE e da Católica, participei de atividades culturais, encontros, minha cabeça abriu, tive experiências memoráveis, e quando sai, estava com as bases sólidas.
Durante quatro anos, devo ter ido duas ou três vezes ao Arruda, não sabia o que era Carnaval, estava tão concentrado que era feliz no meu excesso. Hoje agradeço aquilo que fiz por mim: me dei de presente algo que ficou, e que me empurrou para a vida.
Neste período, tive amigos memoráveis, a maior parte da “ala leste”, como chamávamos, embora eu nunca saiba exatamente onde está o leste, oeste, sudoeste, noroeste, agreste, cabra da peste. Erik Nunes, André Carpina, Negão 70, Naninho, Hipólito “Canoa”, Manoel Rocha, entre outros grandes sujeitos que a vida tratou de dispersar.
No meio do turbilhão da casa, com seus eternos embates com a reitoria, da luta para manter o Restaurante Universitário gratuito e para a toda a comunidade (ah, amigos, que tempos sombrios eram aqueles, quando os estudantes que viviam na CEU eram tratados como bichos…) e dos muitos conflitos internos, tínhamos esta rede de amizade que era uma espécie de alegria comum, compartilhada, uma proteção também. Sonhávamos com uma vida melhor e nos ajudávamos de alguma forma. Novamente, a amizade.
Há pouco tempo, começamos a nos reencontrar por email. Erik está na Austrália, Negão 70 no Pará, outros estão por ai. Marcamos um encontro para o começo de junho, ficamos de levar fotos, lembranças, nossas companheiras, filhos, agregados.
É certo que até os mais durões vão liberar suas lágrimas, porque foram tempos duros e bons e fomos, sobretudo, merecedores de nossa irreversível amizade.
Postado em Crônicas |
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