Livros, modo de doar
Samarone Lima
Há um mês conseguimos abrir uma aconchegante biblioteca comunitária, no Poço da Panela. Um grupo de amigos de lá mesmo, que há alguns anos vem acompanhando a criançada rumo à escola, à educação, a um futuro menos previsível. A casinha está uma jóia, já temos mais de 100 crianças inscritas, os adolescentes começam a se chagar, uma professora está dando aula de reforço à noitinha, e tudo vai se ajustando.
Por conta de matérias veiculadas na TV Globo e no Diário de Pernambuco, onde a história da biblioteca ficou conhecida, informamos o telefone de Naná, o gordinho-coordenador, que tem uma Kombi. Imediatamente, várias pessoas ligaram, oferecendo livros e outras doações. Precisamos de estantes, ventiladores, almofadas, TV etc. Mas precisamos, essencialmente, de bons livros, que dêem gosto de pegar, olhar, que dê vontade de levar pra casa, passar o dia com ele.
Então aconteceu um processo curioso. Muita gente ligou ou foi à biblioteca para doar o que não serve mais. Sacos e sacos de livros didáticos e paradidáticos que os filhos não precisam, muitos deles riscados. Coisas que chegam a ser engraçadas, para uma biblioteca numa comunidade simples, com o PIB infinitamente menor que o dos casarões históricos do Poço. Relatórios de pesquisas de 2002; Manuais de mecânica; coleções grossas de manuais de medicina e termos de psiquiatria, fora os compêndios de álgebra linear; livros escritos em alemão; cadernos usados pelos filhos no ano anterior, com exercícios. Até o “Guia 4 Rodas 2002″ recebemos. A lista, na verdade, seria imensa.
Como sou um dos responsáveis pelo acervo, todo sábado vou à biblioteca fazer a separação, organizar prateleiras, e fico cada vez mais encafifado. O que faz uma pessoa ligar para uma biblioteca comunitária para doar livros, apostilas, cartilhas, coleções, que não vão servir, em hipótese nenhuma?
Naná, com sua generosidade cada dia maior, pega a Kombi e vai em busca das doações. É um trabalho cansativo, atravessar a cidade em busca de cidadania literária. Às vezes, chega ao Poço com caixas e caixas. Muitas vezes, dessa tuia, tiramos três ou quatro livros decentes, em bom estado. Em pouco mais de um mês, tivemos um pouco a noção do que representa o “doar” para muita gente. Algo como tirar de casa o entulho. Uma sala que iríamos usar para a cozinha já está entupida de coisas que vamos doar para os Trapeiros de Emaús, que trabalham com reciclagem.
Claro que temos o outro da moeda. Pessoas generosíssimas, que estão colaborando muito, ajudando a pagar as despesas, o aluguel, que ajudaram a conseguir estantes, que mandaram livros lindos, que estão encantando a criançada. Ontem, um sujeito foi lá, deixou os contatos. É um contador de histórias, quer fazer um trabalho voluntário. Uma pessoa ligou, vai doar duas estantes novinhas e quer ajudar no que for possível. Alguns vão lá com a família, filhos, que interagem, brincam, deixam algo que ficará de verdade, para todos.
Nesta terça-feira(31), a TV Jornal vai exibir, às 7h30 e 12h30, uma reportagem feita semana passada na biblioteca. Na hora em que estavam entrevistando Naná, Boy e Ninha, que cuidam do projeto com zelo e carinho, um menino chegou, para devolver um livro. Era André, um dos leitores mais assíduos. Foi entrevistado, contou a história toda do livro, que tinha acabado de ler, pegou outro e foi pra casa.
É filho de um camarada que trabalha coletando coisas na rua, para reciclar.
Ontem, passei pelo pai. Estava todo orgulhoso do menino.
Queria que as pessoas, antes de doarem as sobras, lembrassem desse menino, que não entende de mecânica, não lê em inglês ou alemão, não entende os mapas dos guias de viagem ou os relatórios sobre a Mata Atlântica de 2002, e que já recebe os livros didáticos na escola, no começo do ano.
Se queres doar algo, para uma biblioteca, asilo, orfanato, para vítimas de enchente, de terremotos, que seja o bom e o belo, mesmo que pouco. É o que penso.
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