Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Livros, modo de doar

29 de maio de 2011, às 11:39h por Samarone Lima

Há um mês conseguimos abrir uma aconchegante biblioteca comunitária, no Poço da Panela. Um grupo de amigos de lá mesmo, que há alguns anos vem acompanhando a criançada rumo à escola, à educação, a um futuro menos previsível. A casinha está uma jóia, já temos mais de 100 crianças inscritas, os adolescentes começam a se chagar, uma professora está dando aula de reforço à noitinha, e tudo vai se ajustando.

Por conta de matérias veiculadas na TV Globo e no Diário de Pernambuco, onde a história da biblioteca ficou conhecida, informamos o telefone de Naná, o gordinho-coordenador, que tem uma Kombi. Imediatamente, várias pessoas ligaram, oferecendo livros e outras doações. Precisamos de estantes, ventiladores, almofadas, TV etc. Mas precisamos, essencialmente, de bons livros, que dêem gosto de pegar, olhar, que dê vontade de levar pra casa, passar o dia com ele.

Então aconteceu um processo curioso. Muita gente ligou ou foi à biblioteca para doar o que não serve mais. Sacos e sacos de livros didáticos e paradidáticos que os filhos não precisam, muitos deles riscados. Coisas que chegam a ser engraçadas, para uma biblioteca numa comunidade simples, com o PIB infinitamente menor que o dos casarões históricos do Poço. Relatórios de pesquisas de 2002; Manuais de mecânica; coleções grossas de manuais de medicina e termos de psiquiatria, fora os compêndios de álgebra linear; livros escritos em alemão; cadernos usados pelos filhos no ano anterior, com exercícios. Até o “Guia 4 Rodas 2002″ recebemos. A lista, na verdade, seria imensa.

Como sou um dos responsáveis pelo acervo, todo sábado vou à biblioteca fazer a separação, organizar prateleiras, e fico cada vez mais encafifado. O que faz uma pessoa ligar para uma biblioteca comunitária para doar livros, apostilas, cartilhas, coleções,  que não vão servir, em hipótese nenhuma?

Naná, com sua generosidade cada dia maior, pega a Kombi e vai em busca das doações. É um trabalho cansativo, atravessar a cidade em busca de cidadania literária. Às vezes, chega ao Poço com caixas e caixas. Muitas vezes, dessa tuia, tiramos três ou quatro livros decentes, em bom estado. Em pouco mais de um mês, tivemos um pouco a noção do que representa o “doar” para muita gente. Algo como tirar de casa o entulho. Uma sala que iríamos usar para a cozinha já está entupida de coisas que vamos doar para os Trapeiros de Emaús, que trabalham com reciclagem.

Claro que temos o outro da moeda. Pessoas generosíssimas, que estão colaborando muito, ajudando a pagar as despesas, o aluguel, que ajudaram a conseguir estantes, que mandaram livros lindos, que estão encantando a criançada. Ontem, um sujeito foi lá, deixou os contatos. É um contador de histórias, quer fazer um trabalho voluntário. Uma pessoa ligou, vai doar duas estantes novinhas e quer ajudar no que for possível. Alguns vão lá com a família, filhos, que interagem, brincam, deixam algo que ficará de verdade, para todos.

Nesta terça-feira(31), a TV Jornal vai exibir, às 7h30 e 12h30, uma reportagem feita semana passada na biblioteca. Na hora em que estavam entrevistando Naná, Boy e Ninha, que cuidam do projeto com zelo e carinho, um menino chegou, para devolver um livro. Era André, um dos leitores mais assíduos. Foi entrevistado, contou a história toda do livro, que tinha acabado de ler, pegou outro e foi pra casa.

É filho de um camarada que trabalha coletando coisas na rua, para reciclar.

Ontem, passei pelo pai. Estava todo orgulhoso do menino.

Queria que as pessoas, antes de doarem as sobras, lembrassem desse menino, que não entende de mecânica, não lê em inglês ou alemão, não entende os mapas dos guias de viagem ou os relatórios sobre a Mata Atlântica de 2002, e que já recebe os livros didáticos na escola, no começo do ano.

Se queres doar algo, para uma biblioteca, asilo, orfanato, para vítimas de enchente, de terremotos, que seja o bom e o belo, mesmo que pouco. É o que penso.

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a moda do reaça

24 de maio de 2011, às 16:54h por Samarone Lima

Republico excelente texto do Marcelo Rubens Paiva, que uma amiga me reenviou de Paris.

O texto original está no seguinte endereço:

http://blogs.estadao.com.br/marcelo-rubens-paiva/a-moda-do-reaca/

O cara é bom pacas. A reflexão é muito feliz.

Samarone

***

“Como comentou uma leitora, Natália, no post anterior:

Cara, acho tão engraçada essa mania das pessoas de falarem com orgulho que são “politicamente incorretas” quando dizem absurdos… o sujeito vem, fala um monte de merda e diz que faz isso porque é inteligente (é um livre pensador, não segue o pensamento burro e dirigido das massas, etc) e porque não liga de ser “politicamente incorreto” porque afinal esse é o certo, a sociedade de hoje que está deturpada.

Eu tinha pensado na mesma coisa.

O governador e o secretário municipal de segurança reconheceram que tanto a PM quanto a Guarda Municipal exageraram na repressão à MARCHA DA MACONHA, que virou MARCHA PELA LIBERDADE DE EXPRESSÃO.

Alckmin chegou a dizer que não compactua com a ação da PM na Marcha.

Mas muitos leitores e alguns blogueiros continuam achando que o certo mesmo era enfiar o cacete nos manifestantes.

PMs que tiraram a identificação, para baterem numa boa.

A onda agora é ser bem REAÇA.

Se é humorista, e uma piada ultrapassa o limite do bom gosto, diz ser adepto do ideal do politicamente incorreto.

Que babaca é fazer censura contra intolerância.

Pode zoar com judeu, gay, falar palavrão, é isso, que se foda, viva a liberdade!

Se alguém defende a Marcha da Maconha, faz apologia, é vagabundo.

Se defende a descriminalização do aborto, é contra a vida.

Se aplaude a iniciativa da aprovação da união homossexual, quer enviadar o Brasil todo, país que se orgulha de ser bem macho, bem família!

Se defende a punição de torturadores, é porque pactua com terroristas que só queriam implodir o estado de direito e instituir a ditadura do proletariado.

Deu, né?

Esta DiogoMainardização da imprensa e da pequena burguesia brasileira tem um nome na minha terra: má educação.

Esta recusa ao pensamento humanista que ressurgiu após a leva de ditaduras que caiu como um dominó a partir dos anos 80 tem outro nome: neofascismo.

É legal ser de direita?

Tá bacana desprezar os movimentos sociais, aplaudir a repressão a eles?

Eu não acho.

Apesar de considerar o termo “politicamente correto”, do começo dos anos 90, a coisa mais fora de moda que existe, diante do que vejo e leio, afirmo: eu, aleijado com tendências esquerdizantes, não era, mas agora sou TOTALMENTE politicamente correto.

+++

Foi uma semana marcada pelo protesto da gente diferenciada e gafes nas redes sociais, que têm 600 milhões de vigilantes no Facebook e 120 milhões no Twitter. Postaram:

Rafinha Bastos, no dia das mães: “Ae órfãos! Dia triste hoje, hein?”

Danilo Gentili, sobre os “velhos” de Higienópolis que temem uma estação de metrô: “A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz.”

Amanda Régis, torcedora do Flamengo, time eliminado da Copa do Brasil pelo Ceará: “Esses nordestinos pardos, bugres, índios acham que têm moral, cambada de feios. Não é à toa que não gosto desse tipo de raça.”

Ed Motta, ao chegar em Curitiba: “O Sul do Brasil como é bom, tem dignidade isso aqui. Sim porque ooo povo feio o brasileiro rs. Em avião dá vontade chorar rs. Mas chega no Sul ou SP gente bonita compondo o ambiance rs.”

Quando um leitor replicou que Motta não era “um arquétipo de beleza”, ele respondeu que estava “num plano superior”. “Eu tenho pena de ignorantes como vc… Brasileiros…”, escreveu. “A cultura que eu vivo é a CULTURA superior. Melhor que a maioria ya know?”

E na MTV, a Casa dos Autistas, quadro humorístico, chocou pelo mau gosto.

Todos pediram desculpas depois. Danilo, um dos maiores humoristas de stand-up que já vi, recebeu telefonema do departamento comercial da Band, pedindo para tirar o comentário. Ed Motta se revoltou contra a imprensa. Pergunta se temos o direito de reproduzir seus escritos particulares.

A internet trouxe a incrível rapidez na troca de informações e espaço para exposição de ideias. Alguns se lambuzam. Dizem que são contra as patrulhas do politicamente correto.

Mas como ficam as domésticas ofendidas, os órfãos recentes, aqueles que perderam parentes em Auschwitz, os nordestinos e os pais de autistas?

Tomara que, depois do pensamento grego, democracia, Renascença, a revolução industrial e tecnológica nos iluminem. O preconceito não é apenas sintoma de ignorância, mas lapsos de um narcisista. Ele nunca vai acabar?

***

Enquanto no Itaú Cultural, um símbolo de excelência em apoio às artes e alta tecnologia, em plena Avenida Paulista, uma mãe foi expulsa por amamentar o filho em público na exposição do Leonilson, artista que sofreu inúmeros preconceitos, morto vítima da Aids.

Ou melhor, viadão que morreu da peste gay, porque era promíscuo, diriam os reaças”.

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Na chuva

19 de maio de 2011, às 15:37h por Samarone Lima

Saio do Sesc Santa Rita após mais encontro com a turma, na Oficina de Leitura e Escrita, que vai até segunda, creio. A manhã inteira lendo poesias, discutindo, vendo textos produzidos pelos alunos, isso é uma coisa que realmente melhora a vida.

Na calçada, vejo tudo nublado. Chove bastante, arregaço minha sombrinha, vou caminhando em busca de um ônibus para o lado de cá do Recife, uma ponte rumo ao centro.

Na parada, já com as sandálias e a barra da calça molhadas, vejo um ônibus parado, sem o motorista. Um senhor me avisa, sem que eu o pergunte:

“Córrego do Jenipapo”.

Sei que este ônibus passa na rua da Aurora, fica mais perto do trabalho e do almoço. Mas, cadê motorista?

Ele volta numa carreirinha, dá três passinhos de canguru e está novamente ao volante. Pelo que entendi, fora fazer sua fé no no Bicho. Coisas do Recife.

Subo. Só tenho moedas no bolso, seguro a mochila, pego as de R$ 0,50 e vou  entregando ao cobrador. Para cada da moeda, ele faz “plim” com a boca, como se fosse uma máquina registradora. Foram quatro, até chegar a R$ 2,00.

Rapidinho chegamos à rua da Aurora. Aquela chuva na diagonal, que rasga sombrinha, me acertou em cheio. Atravessei a rua mais encharcado, e quando pensei em reclamar de alguma coisa, passou uma mulher por mim, segurando uma criança, equilibrando o guarda-chuva e sua bolsa.

“Que peso”, disse sozinha.

Os flanelinhas da rua da União estavam com uma cara de quem já tinham tomado umas doses a mais. O Bin Laden, o daqui, que não mataram, toma todas, que eu sei e já vi, no Princesa Isabel. Só toma enraizada (custa R$ 0,50) de uma talagada só.

Cheguei. Antes de fechar a sombrinha, escutei o comentário de um sujeito, olhando para o céu.

“Estia tão cedo não, visse?”

Falava com um amigo. Essa mania do recifense de dizer não ao final da frase. 

“Vais ao cinema?”

“Vou não”.

Eu acho bonito que só. Uma coisa lírica.

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Santinha campeão

16 de maio de 2011, às 12:23h por Samarone Lima

Depois de um longo período de penúria futebolística, quando meu amado Santa Cruz chegou à Série D, começamos a renascer. Ontem, título estadual, diante do Sport.

O Arrudão estava lotado, com mais de 62 mil pessoas.  Eu lá, como sempre, juntinho do escudo.

Agora com licença, que vou comemorar.

Ps. De amanhã a sexta dou uma oficina de literatura no Sesc Santa Rita. É grátis. Maiores informações: 3224.7577.

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No Sertão

11 de maio de 2011, às 22:35h por Samarone Lima

Na estrada, desde segunda-feira. Primeiro Afrânio, uma aventura interminável, na divisa com o Piaui. Noite em Ouricuri.

Hoje, chegamos a Cabrobó, acompanhando o mestre Ariano Suassuna em suas aulas-espetáculo.

Breve, mandarei as notas de viagem, que são muitas.  A lan-house ao lado do hotel é a 20km/hora e cai a todo instante.

“Afinal, a arte de contar é apenas outra forma de comunhão”, já diz o velho Henry Miller.

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