Crônica de uma cidade atormentada, ou Tapacurá, 36 anos depois.
Samarone Lima
Como não nasci no Recife, não estava por aqui, no dia 25 de julho de 1975, quando surgiu um boato de que a barragem de Tapacurá havia se rompido, e que uma onda gigante arrasaria o Recife. Neste momento, eu morava em Imperatriz, no Maranhão, e cuidava de arrancar matos em algum terreno baldio, para fazer um campinho e jogar bola. No Recife, dizem que o boato gerou pânico, correria, ataque cardíaco, aborto, fora as coisas que a gente não sabe, como quedas, atropelamentos, angústia, falta de ar e medo guardado para o futuro.
Ontem, vivi na pele o que não vivera há 36 anos. Lá pelas 16h30, quando fui tomar um cafezinho aqui perto do trabalho, senti um clima estranho. Aquela movimentação vesga das pessoas, uma certa pressa, um ruído diferente nos passos, uma saliência distinta nas conversas. Ouvi pela primeira vez a palavra “Tapacurá”, dita por alguém que nunca saberei o nome. Estava ligando para a mulher, na Cidade Universidade, mandando ela ir urgente para casa, porque iriam “abrir as comportas de Tapacurá”.
A palavra é referente aos “Tapacurás”, índios que viviam às margens do rio Tapajós, mas para os Pernambucanos, refere-se à Barragem de Tapacurá, em São Lourenço da Mata. Nela, cabem 94 milhões de metros cúbicos de água, e não tem comportas.
Ás 17h, precisava ir para o Museu do Estado, para um compromisso às 20h. Olhei há pouco no Google, que parece conhecer bem o Recife. Pela avenida João de Barros (4,2 km), seriam 11 minutos de carro. Pela Visconde de Suassuna (3,6km), seriam 11 minutos. Não sei no Google quem conta o tempo, mas 600 metros de diferença fazem uma diferença enorme, mesmo para quem vai de carro.
Deixei para sair às 17h30. Antes, passei no Princesa Isabel, para tomar um café. Quando cheguei na rua Princesa Isabel, tomei um susto.
Uma multidão se aglomerava na parada de ônibus, e outra vinha descendo a ponte, como se fosse o final de um desfile do Galo da Madrugada, só que a turba sem fantasia. Não estava chovendo. A palavra “Tapacurá” surgia do nada, como se fosse um inimigo que se aproximava, para atacar a cidade, violar as mocinhas, destruir sonhos, molhar todos os livros de todas as bibliotecas e transformar a cidade em uma Atlântida dos trópicos. Era como um bicho feroz, trancado, que acabara de se soltar. Ou, nas palavras do escritor Homero Fonseca, que escreveu “Viagem ao Planeta dos Boatos”, uma espécie de “fantasma coletivo que fica dormindo lá no sótão, esperando qualquer ruído para despertar”.
O trânsito estava parado em todas as direções, as pessoas caminhavam em todas as direções, e desconfio que muita gente esqueceu até o caminho de casa. Exagero. Ninguém esquece jamais o caminho de casa. Um amigo disse que ficou dentro de um ônibus lotado, na avenida Conde da Boa Vista. Depois de meia hora parado defronte ao Mustang, desceu.
“Simplesmente acompanhei a turba, que caminhava em direção ao nada”.
Fui caminhando para ver tudo, que eu gosto de ver as coisas e ouvir e cheirar. Fui pela rua do Príncipe, as paradas coalhadas de gente. “As aulas foram canceladas”; “O canal transbordou”, “Tapacurá tá rachando”. Eram os boatos, se desdobrando, reverberando, num mundo que se orgulha tanto de todo mundo falar com todo mundo a qualquer segundo.
Até a avenida Agamenom Magalhães, milhares de carros parados, buzinas, impaciência, desolação. No meu pocot, pocot, dei graças a Deus não estar dentro de um deles. Atravessei a Agamenom, passei com minhas sandálias numas poças d’água, torcendo para não ter muito bicho para não pegar alguma doença. Antes de atravessar, uma mulher muito grave, muito séria, muito Tapacurá, olhou para o canal da Agamenom e vaticinou:
“Isso vai transbordar já já”.
A sorte é que o sinal fechou, e escapei da sentença da Madame Tapacurá.
Segui pela avenida Rui Barbosa, na contramão. Mais uma fileira triste de carros. Meu Deus, como tem carro nesta cidade! Os ônibus sumiram de repente, e nesta hora pensei mesmo foi no sofrimento das pessoas que tinham trabalhado o dia inteiro, e dependiam de coletivos para chegar em casa. Seria, de fato, uma longa noite.
Pouco depois de passar pela Casa dos Frios, recebi um telefonema.
“Olha, o evento foi cancelado por causa das chuvas”.
Dei meia volta, saí de uma fria e entrei na Casa dos Frios. Rarara, essa não foi lá tão boa, mas não posso perder um trocadilho por nada.
Comprei um vinho, uns queijos, umas besteiras, uma garrafa de uma cachaça mineira das boas e dei meia volta.
Minto. Por dever de ofício, resolvi seguir até o Museu do Estado, ver as condições gerais, quem sabe encontrar um amigo para conversar umas águas, enfim.
A rua Amélia, cruzamento com a Rui Barbosa, onde fica o Museu, estava um piscinão. Só passava caminhão. Voltei a pé, claro. Pelos meus cálculos, uns três quilômetros. Na rua da Hora, comecei a sentir uma dor no pé esquerdo, era a sandália de couro, apertando. Caminhei mais um bocado, vi ambulância na contramão, sirene de todo tipo, e defronte à Celpe, peguei um ônibus.
“Levamos três horas e quarenta para sair do Centro e chegar nos Bultrins”, disse o cobrador, com um sorriso, como se estivesse participando de alguma festa de casamento.
“Minha amiga ligou para a Globo, para saber se era verdade que Tapacurá estava para estourar”, contou um gordinho, com dificuldade de passar pela roleta.
Entrou um homem com cara de pastor. Usava paletó e tinha uma bíblia imaginária debaixo do braço. Juro que ele sabe o nome de todos os apóstolos, e quem ficou em cada posição na Santa Ceia.
“O que foi isso que aconteceu? Estou esperando ônibus há mais de uma hora?”
Estava com cara de enfezado.
“Eu tô querendo é saber também, fera”, respondeu o cobrador gaiato, com aparência de torcedor do Mais Querido.
Desci defronte ao Parque 13 de Maio. Uma multidão aguardava sua condução. Olhei no relógio: Oito em ponto da noite.
Foram duas horas de périplo. Cansado, suado, mas bem menos que muitos que aguardavam um ônibus há mais de uma hora, em pé, só me restava mesmo relaxar um pouco.
Cheguei ao Princesa Isabel, sentei na mesa 7, pedi uma Brahma. Gomes, a garçonte, me atendeu bem, ficou por ali, zanzando, como sempre. Peguei meu caderno, comecei a tomar umas notas. Lá pelas tantas, a garçonete deixou sua dose de whisky na minha mesa e foi atender o povo lá fora.
Tomei metade da dose em duas boas goladas e completei com cerveja, só pela malvadeza mesmo.
Ele nem percebeu. Tem gente que é assim, ruim de paladar.
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