Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Da vida não levo nada…

22 de junho de 2011, às 13:48h por Samarone Lima

Tenho atualizado este velho blog com menos frequência, já percebi. Como ninguém reclamou, fica por isso mesmo. O fato é que tenho me dedicado mais a outros projetos, que necessitam tempo, dedicação, cuidado e assiduidade. Um livro de poesias, que está nos finalmente, outro que tenho a obrigação de mandar alguns capítulos para a editora até semana que vem, por aí vai. Fora isso, finalmente a tão cantada Oficina de Escrita e Leitura, que era um vai e volta danado, finalmente saiu do papel. Todas terça-feira, à noite, no restaurante Banquete, estamos nos reunindo em torno de originais, leituras, discussões, observações, críticas, revisões etc. Já temos um grupo de dez pessoas, achei o tamanho formidável, dá para dar atenção a todo mundo e todos podem dar suas opiniões, interagir bem.

Uma das coisas que a gente conversou, semana passada, foi sobre o tempo, como ele nos é surrupiado para diversas coisas, e acabamos deixando o que mais gostamos de fazer para uma horinha que dá, a que sobra, quase uma clandestinidade com a própria alegria. Claro que as obrigações de trabalho, cuidados com a casa, família, sobrevivência, ocupam uma grande parcela do tempo, mas às vezes ficamos de bobeira, deixamos de cuidar das coisas que mais gostamos. Só mais recentemente consegui resolver isso comigo, separando um horário para escrever, sem essa de que preciso de muitas e muitas horas para fazer minhas coisas. Um horário por dia para tomar minhas notas, nem que seja em meu diário, e fico satisfeito.

A atualização aqui, portanto, está mais demorada por isso. Outras coisas estão caminhando, por fora, numa alegria danada.

Hoje, no entanto, acordei chateado por causa de umas coisas ruins que aconteceram ontem, e quando chegava ao trabalho, debaixo de uma chuviscóia de nada, que nem dá para ficar reclamando do esquecimento do guarda-chuva na sala, resolvi pagar uma conta pendente no Princesa Isabel. Somente quando o sujeito deixa um fiado no boteco, sabe que é de casa.

Fui lá, só estava a garçonete, Gomes, digo, Robertilha, que de manhã é uma simpatia, à tarde começa a ficar ranhenta, e à noite é um Deus-nos-acuda. Ele não tinha troco, fiquei esperando na calçada, e a radiola tocava um forró mansinho, desses que a gente escuta somente na época do São João, quando o bom gosto ronda os espíritos.

Engraçado que o pernambucano tem pelo São João e pelo Carnaval um apego místico que lembra uma febre. Hoje mesmo, quem não vai viajar para um arraial, no interior, parece que nem é gente direito. No Recife, a partir de amanhã, teremos no máximo duas ou três pessoas em cada cinema, vai dar para fazer alongamentos e jogar frescobol na avenida Agamenom Magalhães.

Pois bem, pensei na minha chateação, que era mais tristeza mesmo, tem horas em que as coisa poderiam ser totalmente diferente do que foram, se as palavras não tivessem o poder de fazer ou desfazer alegrias ou tristezas.

Então o cantor, creio que Alcymar Monteiro, cantou o refrão:

“Da vida não levo nada

do jeito que a vida vem

depois de fechar os olhos

eu não sou ninguém”.

A letra é simples. Mais simples impossível. Mas o que senti mesmo foi uma emoção sem nome certo, como um passarinho que sai da gaiola num instante.

O refrão se repetiu como um mantra, que me tocou naquele exato instante. O ventinho frio deu aquela soprada leve, e percebi que é isso mesmo, daqui não levo nada, a não ser a própria vida que vivi.

Respirei fundo, deixei para pegar o troco depois, atravessei a rua, e a vida já era outra.

A todos, bom São João.

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Vital continua o mesmo

16 de junho de 2011, às 10:21h por Samarone Lima

Vital, com a elegância de sempre

Morei no Poço da Panela, ao lado daquela igrejinha de Nossa Senhora da Saúde, durante cinco adoráveis anos. Neste período, fui professor universitário, dono de bar, consultor do Unicef, desempregado, professor de literatura, publiquei dois livros, joguei muitas peladas no campinho de Seu Abdias e frequentei diariamente a venda de Seu Vital, defronte à igreja. Do sagrado cafezinho de manhã ao almoço, feito por Dona Severina, que não raro tornava-se o tira-gosto, com a chegada súbita de Naná, Walter ou Boy.

Não há nada mais espetacular do que chegar à tardinha, pegar uma mesa, ficar olhando a paisagem, o chão de pedras antigas, a noitinha chegando mansamente, acompanhada dos meninos que voltam da escola e das pessoas que chegam do trabalho. Ficava lá com meu caderninho de anotações, uma cerveja gelada ao lado, os pensamentos bestas dando voltas no cabeção, até que chegava um amigo, para uma boa conversa fiada.

De vez em quando, aconteciam farras misteriosas, que avançavam no sagrado horário do fechamento, e quando Seu Vital anunciava delicadamente “bora, que vou fechar”, começava a chover e só nos restava entrar. Aparecia um pandeiro de alguma sacola mágica e pedíamos inúmeras saideiras, fora o famoso “Remédio” do nosso pajé, que cura diversos males.

Uma vez levei meu toca-disco para lá, ficamos naquela mansidão antiga, quando ele anunciou o fim da alegria, recorri ao método mais sentimental possível. Perguntei quem tinha um CD com a música “Ìndia”, que pega o velho marujo de jeito. Fizemos um censo nos carros, alguém descobriu a melhor gravação, que é na voz de Paulo Sérgio, e quando tudo parecia já terminado, botei a música, o coração dele amoleceu e ficamos mais uma hora e meia, creio.

No dia seguinte, no cafezinho, ele comentou com aquela alegria matinal:

“Ôx, a música tocou umas 75 vezes!”

Muitas vezes vi Seu Vital dançando forró com um cabo de vassoura. Outras, tocando na gaita uma música indecifrável. Tem uma música que cantamos para ele, nas horas de maior euforia, quando estão os mais chegados. Não posso revelar a letra aqui, para não chatear nosso Comandante das Forças Desarmadas. Começa assim:

“Vital/Vital/Estou cansado de queijo e mortadela/

Vital/Vital/Faça pra o Boi uma galinha a cabidela”.

Nas últimas semanas, soube que o conjunto de forró “Regente Joaquim” andou fazendo o fazendo o tradicional “Forró da Índia”, e o negócio, mesmo sem sair em jornal, só no boca a boca (ou no twitter a twitter) foi um sucesso estrondoso. Lá pelas tantas, como é tradicional, acabou a cerveja gelada e outras bebidas. Tinha mais gente que no dia dos “Barba”, nossa tradicional troça carnavalesca mística e etílica.

Regente Joaquim gerando na alta, no salão de eventos de Vital

Quando os forrozeiros se preparavam para a terceira apresentação, Vital sacramentou:

“Não, tá bom de forró”.

Perguntaram o motivo, já que o grupo toca só pela alegria, não tem cachê, não tem bilheteria ou couvert.

“Estão se viciando”, teria sido a resposta.

Semana passada, para a frustração de muita gente, não teve o arrasta-pé. Funcinou bem, no mesmo lugar do forró, a Liga de Dominó. Luís Gonzaga deu lugar a buchudas, toques, perus espiando os movimentos, blefes etc.

Esta semana ele liberou para o forró com o “Regente Joaquim” (esse nome de trio de forró é realmente incrível), mas avisou solenemente a Gerrá, o zabumbeiro:

“Olhe, vamos fazer o forró, mas não quero que coloquem neste negócio de Internet não, porque vem gente demais, visse? Forró sem esse negócio aí de Internet, que todo mundo fica sabendo”.

Gerrá concordou.

Amanhã, a partir das 20h, vamos ter a última edição do “Forró da Índia”, na mais famosa venda do Poço da Panela.

Por favor, não divulguem na Internet, porque a bebida vai acabar mais cedo!

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…o cavalinho da chuva

13 de junho de 2011, às 12:34h por Samarone Lima

Acho melhor tirar meu cavalinho da chuva deste negócio de Oficina Literária.

Nas últimas semanas respondi uma penca de email sobre o conteúdo e formato da Oficina, a Gabriela me ajudou, fez um cartaz bem bonitinho, e no sábado, na abertura do curso, na livraria Poty, apareceram dois camaradas. Levei uma penca de cópias de crônicas, contos, conversamos um pouco, distribuí o material e remarquei para começar no primeiro sábado de julho, para ver se juntamos pelo menos 10 pessoas.

Hoje (terça-feira), tem outra possível-quase-incerta turma, para a oficina no bar e restaurante “Banquete”, às 19h. Já temos cinco pré-inscritos, e se alguém tiver interesse, vá lá, para trocarmos umas idéias. O restaurante fica na Rua do Lima, defronte à TV Jornal.

Se não der pé, vou tirar o cavalinho da chuva para ele não se molhar muito e acabar pegando uma virose, porque tudo no mundo agora é virose.

Como é um bar, dá para pedir uma cerveja relaxar o organismo.

Samarone.

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Poliesculhambose

8 de junho de 2011, às 13:56h por Samarone Lima

Foi há muito tempo, na época em que morava na Casa do Estudante Universitário (CEU), que escutei de um amigo, estudante de Odontologia, a palavra “poliesculhambose”.

Segundo ele, era uma explicação para muitos males num mesmo sistema, algo assim, dêem o desconto, já se passaram duas décadas, desde que escutei o termo. Hoje, este amigo ocupa um cargo importante na Marinha, creio.

Pois bem, hoje constatei que sofro do mesmo mal.

Num mundo da virtualidade, tudo na tela, aparecendo e sumindo a qualquer momento, sou cercado de papéis, recortes de jornal, cadernos, livros (em papel), pastas (cheias de recortes, outros papéis), cadernetas em vários formatos, fora a mania de colecionar máquinas de datilografia velhas (perdão pela redundância) e rádios.

Aqui fica o registro. No domingo passado, em Montevidéu, deixei de comprar uma máquina da década de 1940 porque não tinha, no bolso, R$ 30,00. Também não dava tempo tirar dinheiro no banco, porque a feira estava acabando. Era linda, impecável. Sofri horrores com aquilo. Tinha outra, que certamente o Juan Carlos Onetti utilizou, linda e perfeita, que custava R$ 200,00. Pelas duas máquinas, terei que voltar ao Uruguai o mais rápido possível.

Tenho também caixas de sapato com papéis, inutilidades, cadernetas velhas, foram centenas e centenas de fotos da família, que fui coletando ao longo da vida, e uma interminável coleção de frases dos amigos, que juro transformar em livro, mas falta metodologia e sistemática.

Hoje de manhã, porém, me irritei com esta poliesculhambose. Cheguei ao ponto máximo.

Procurava as anotações de duas entrevistas que fiz, semana passada, antes de viajar ao Uruguai, para tocar um projeto (fora os milhares de papéis, tenho uns 122 projetos para tocar, alguns deles há anos, e inconclusos). Passei duas horas farfalhando aqui, ciscando entre esta coisa ultrapassadíssima e brega, que é papel, e nada.

Me deu uma tristeza, uma saudade de ser organizado, de ter as coisas por ordem alfabética, os livros por autor e tema, uma desolação íntima porque não puxei para o lado da família que gosta das coisas arregladas, sistematizadas, sem anomalias ou chateações. Saí assim, esta mistura doida e desaprumada, que fica às vezes no redemoinho da própria busca.

Só no final da manhã, ao olhar para uma estante erma, do lado direito, vi uma série de pastas que não mexo há tempos. Diria há décadas. Arrisquei. Uma das entrevistas estava lá. Isso, com certeza, é coisa de Dona Maria, a faxineira que vem uma vez por semana desorganizar tudo o que deixo previamente classificado e numerado, foi o que pensei. Dona Maria é meu bode expiatório. Ela perde meus originais. Ela esconde meus cadernos. Ela mistura meus livros. Ela bagunça meu guarda-roupa. Tudo ao som de música evangélica, onde todos corremos perigos, porque o mal está para vencer.

Falta encontrar apenas as anotações da segunda entrevista. Coisa de oito folhas, rabiscadas. Torço para que não tenha esquecido em Montevidéu, como fiz com o passaporte, no final de 1996. Sim, tenho problemas também com documentos.

No sábado, abro uma oficina de literatura na livraria Poty, a partir das 9h. Divulguei, publicaram notas nos jornais, muitas pessoas mandaram email, tirando dúvidas, abri uma pasta com o título “oficinas literárias”.

Já fiz a maior confusão, mandei uma lista de livros para pessoas erradas, depois enviei a proposta da oficina sem anexo, vários endereços estavam anotados errados e voltaram. Aqui vai o recado: quem quiser fazer, vá lá, no sábado, que a gente conversa e se entende.

Poliesculhambose, o nome do troço. Não recomendo a ninguém.

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