Da vida não levo nada…
Samarone Lima
Tenho atualizado este velho blog com menos frequência, já percebi. Como ninguém reclamou, fica por isso mesmo. O fato é que tenho me dedicado mais a outros projetos, que necessitam tempo, dedicação, cuidado e assiduidade. Um livro de poesias, que está nos finalmente, outro que tenho a obrigação de mandar alguns capítulos para a editora até semana que vem, por aí vai. Fora isso, finalmente a tão cantada Oficina de Escrita e Leitura, que era um vai e volta danado, finalmente saiu do papel. Todas terça-feira, à noite, no restaurante Banquete, estamos nos reunindo em torno de originais, leituras, discussões, observações, críticas, revisões etc. Já temos um grupo de dez pessoas, achei o tamanho formidável, dá para dar atenção a todo mundo e todos podem dar suas opiniões, interagir bem.
Uma das coisas que a gente conversou, semana passada, foi sobre o tempo, como ele nos é surrupiado para diversas coisas, e acabamos deixando o que mais gostamos de fazer para uma horinha que dá, a que sobra, quase uma clandestinidade com a própria alegria. Claro que as obrigações de trabalho, cuidados com a casa, família, sobrevivência, ocupam uma grande parcela do tempo, mas às vezes ficamos de bobeira, deixamos de cuidar das coisas que mais gostamos. Só mais recentemente consegui resolver isso comigo, separando um horário para escrever, sem essa de que preciso de muitas e muitas horas para fazer minhas coisas. Um horário por dia para tomar minhas notas, nem que seja em meu diário, e fico satisfeito.
A atualização aqui, portanto, está mais demorada por isso. Outras coisas estão caminhando, por fora, numa alegria danada.
Hoje, no entanto, acordei chateado por causa de umas coisas ruins que aconteceram ontem, e quando chegava ao trabalho, debaixo de uma chuviscóia de nada, que nem dá para ficar reclamando do esquecimento do guarda-chuva na sala, resolvi pagar uma conta pendente no Princesa Isabel. Somente quando o sujeito deixa um fiado no boteco, sabe que é de casa.
Fui lá, só estava a garçonete, Gomes, digo, Robertilha, que de manhã é uma simpatia, à tarde começa a ficar ranhenta, e à noite é um Deus-nos-acuda. Ele não tinha troco, fiquei esperando na calçada, e a radiola tocava um forró mansinho, desses que a gente escuta somente na época do São João, quando o bom gosto ronda os espíritos.
Engraçado que o pernambucano tem pelo São João e pelo Carnaval um apego místico que lembra uma febre. Hoje mesmo, quem não vai viajar para um arraial, no interior, parece que nem é gente direito. No Recife, a partir de amanhã, teremos no máximo duas ou três pessoas em cada cinema, vai dar para fazer alongamentos e jogar frescobol na avenida Agamenom Magalhães.
Pois bem, pensei na minha chateação, que era mais tristeza mesmo, tem horas em que as coisa poderiam ser totalmente diferente do que foram, se as palavras não tivessem o poder de fazer ou desfazer alegrias ou tristezas.
Então o cantor, creio que Alcymar Monteiro, cantou o refrão:
“Da vida não levo nada
do jeito que a vida vem
depois de fechar os olhos
eu não sou ninguém”.
A letra é simples. Mais simples impossível. Mas o que senti mesmo foi uma emoção sem nome certo, como um passarinho que sai da gaiola num instante.
O refrão se repetiu como um mantra, que me tocou naquele exato instante. O ventinho frio deu aquela soprada leve, e percebi que é isso mesmo, daqui não levo nada, a não ser a própria vida que vivi.
Respirei fundo, deixei para pegar o troco depois, atravessei a rua, e a vida já era outra.
A todos, bom São João.
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