Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Os dramas da vida, recortados e comentados

21 de julho de 2011, às 23:34h por Samarone Lima

Tenho o costume, há muitos anos, de recortar coisas de jornal. Notinhas, coisa miúdas, que me fazem pensar na vida.

Recorro a elas, nos momentos emque não tenho inspiração. A realidade parece ser muito mais criativa que qualquer ficção.

 

“Homem cai de penhasco ao tentar colher flor”

(Jornal do Commercio, 12/07/2011)

“Um homem morreu quando tentava apanhar uma orquídea para a namorada no alto de um penhasco, em Joaquim Távora, no norte do Paraná, no último sábado. Segundo o Corpo de Bombeiros de Santo Antônio da Platina, Odair Francisco de Oliveira, de 38  anos, passeava com a namorada no Vale da Pirambeira, quando a mulher pediu que  Oliveira alcançasse uma orquídea rara. Quando se aproximava, Oliveira teria caído de uma altura entre 20 e 30 metros. Devido ao difícil acesso na região, as equipes dos bombeiros demoraram cerca de 2 horas e meia para chegar ao corpo. A causa da morte foi hemorragia interna”.

Comentário:

A causa da morte não foi hemorragia interna. Odair morreu mesmo foi de amor.

 

“Um final trágico a la Tristão e Isolda”

(Diário de Pernambuco, 14/07/2011)

“Rio – O coração fraco: ao ver o amado morto, a esposa, grávida de dois meses, não aguenta a dor e acaba entrando em choque. Passa quase três dias ao lado do corpo do marido até ser encontrada. Socorrida, morre poucas horas depois no hospital. A cena,que poderia fazer parte de qualquer filme romântico com final lacrimoso, ao que tudo indica aconteceu este fim de semana na vida real, envolvendo justmente dois contadores de histórias, o diretor Emiliano Ribeiro (assistente de Dona Flor e seus dois maridos) e a roteirista Karla Hansen. Espantado com a tragédia nos moldes de Tristão e Isolda no Itanhangá, o delegado Fernando César Magalhães Reis disse ontem que, embora tudo aponte para mortes naturais, vai investigar o caso”.

Só estas informações já causam um espanto. Vamos aos detalhes.

“Casados há dez anos, Karla e o marido comemoravam a chegada do primeiro filho. Aos 63 anos, Emiliano não escondia a felicidade. Karla, 43, fazia planos e já havia escolhido os padrinhos do bebê. No último sábado, o casal conversou  com amigos e marcou compromissos para o domingo. Não apareceram, mas ninguém estranhou. Na segunda-feira, não atenderam ao telefonema. Mas o alarme ainda não soara. Na terça-feira, a faxineira chegou à casa e estranhou os jornais empilhados do lado de fora, intocados (sic). Abriu a porta e encontrou Emiliano morto e Karla agonizando.

As famílias foram chamadas e as providências foram tomadas: Um médico constatou que Emiliano sofreta um infarto e Karla foi levada, ainda com vida, para o hospital, onde morreria pouco depois. Karla sofreria de uma miocardiopatia que todos,  inclusive ela, desconheciam. O casal deve ser cremado hoje”.

Comentário:

Num mundo tão dado à comunicação rápida, das respostas imediatas, o celular, twitter, internet, o  que  lamentei mesmo foi o fato de o  casal ter ficado do sábado até a terça-feira agonizando, isolados, sem ajuda, por absoluta falta de contato humano. E que pena tanto sofrimento, envolvendo duas pessoas que me pareceram tão doces, no esplendor da vida.

 

“Escravos fugidos”

(Diário de Pernambuco, 21 de maio de 1861)

“Attenção – Acham-se fugidos os escravos: Conrado, crioulo do Pará, de bonita figura, que foi escravo do Sr.Dr. Magalhães, que servio de chefe de policia, cujo escravo pode passar por livre porque falla bem e até troca algumas palavras em francez, e foguista no vapor Pirajá, com nome de José Domingues. João, cabra escuro, bastante alto, com  marcas de bexiga no rosto, natural de Inhamuns, o qual tendo sido de um parente do Sr. Visconde de Icó, foi aqui vendido pelo Sr. Desembargador André Bastos de Oliveira. João, alto, mulato, também com manchas de bexiga no rosto, falta de dentes na frente, natural do Crato”.

Comentário:

Como sou do Crato, é preciso lembrar que em 1861, o escravo João, banguela, possivelmente um ancestral da minha raça, fugiu.

Eu também teria fugido. Sinto um orgulho ancestral do cabra escuro e bastante alto, que resistiu.

 

“Com a cabeça no bueiro”

(Diário de Pernambuco, 14 de julho de 2011)

“Um grande aparato de resgate chamou a atenção por quem passava pelas ruas do centro de Santana do Livramento (RS). Um homem ficou com a cabeça entalada em um bueiro enquanto tentava recuperar uma nota de R$ 10 que havia caído pela boca-de-lobo. Os bombeiros foram chamados, e, após 30 minutos, com o auxílio de um macaco hidráulico, conseguiram liberar o rapaz”.

Comentário:

Amigo leitor, jamais coloque sua cabeça na boca-de-lobo por dinheiro algum.

 

“Ancestralidade”

(Em artigo do Luiz Felipe Pondé. Folha de São Paulo, 18 de outubro de 2010)

“Dostoiévski é sempre essencial. Para mim, uma de suas descobertas capitais é que, ao contrário do que diz nossa miserável ciência da autoestima, apenas quando encaramos o mal (a “sombra” de uma espécie abandonada ao próprio azar) em nós, é que recuperamos a vontade de viver. Só esmagando o orgulho com a humildade de quem se sabe insignificante é que vale a pena apostar no dia a dia”.

E no final do artigo:

“Enfim, quem conhece sua ancestralidade, mesmo quando caminhando no vale das sombras, nunca está só”

Comentário:

Muito bom isso. Vou mostrar ao Barthô.

 

“Avizos particulares”

(Diário de Pernambuco. Sexta-feira, 8 de julho de 1836)

“Mathias de Albuquerque Mello aviza ao respeitável público, que ninguém compre a molata Claudina, e a filha desta os quaes pretende vender D.Maria Joaquina Pereira dos Santos, e que se achão em caza do Tenente Cruz na Rua Direita por estarem letigiosas, visto ter o annunciante intentado contra a dita Senhora notificação para inventário dos bens que ficarão por morte de sua sogra, e mais do anunciante, dos quaes bens se apoderou o fallecido marido da mesma Senhora, a qual de mais a mais por não terem ficado filhos do seu matrimônio tem de dar partilha dos bons de seu casal ao herdeiro de seu fallecido marido”.

Comentário:

Sinceramente, não entendi praticamente uma vírgula deste aviso, salvo o aviso que não se deve comprar a molata Claudina, e sua filha, o que me leva a suspeitar que há 175 anos temos gente que bebe muito, nas redações de jornais. Agradeço a algum leitor que consiga me explicar o que aconteceu.

Depois coloco mais alguma nota.

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Minhas discordâncias com um querido leitor

14 de julho de 2011, às 12:34h por Samarone Lima

Na crônica passada, publicada dia oito de jullho, às 17h33, escrevi sobre o cotidiano ao meu redor, os lugares, pessoas, bares, pontos que fazem parte da minha vida, agora que moro na rua da Aurora, aqui no centro do Recife.

Recebi vários comentários, muitos acharam o texto poético, mas uma me chamou a atenção. Transcrevo um trecho:

 

“Queridos leitores,

Ok. Ja disse noutra oportunidade que minha biografia é recifense até a medula: maternidade do portugues, colegio nobrega (ja extinto), Faculdade de Direito do Recife da UFPE, trabalho no bairro do Recife e, agora, espero demore bastante, so falta mesmo o Santo Amaro.

Mas so vc mesmo Sama pra andar e parar no centro do Recife e ver essa beleza toda. Poeta de verdade…

Primeiro que pra andar é impossivel. Quase um campo de guerra. Cade as calcadas. E os camelos. E os onibus e o desrespeito aos pedestres. E a sujeira e o cheiro horrivel.

Segundo que pra parar é um suicidio. Ou vc vai ser assaltado ou alguem vai se aproximar e pedir alguma coisa, dinheiro especificamente, ou mesmo pra vc comprar algo. Tambem nao sei como parado pode pensar tanta coisa linda pois o barulho é de fuder o juizo.

De todos modos, sou recifense e amo mesmo essa merda. De aqui somente pro Santo Amaro que é, no final das contas, ficar aqui mesmo.

Mas essa beleza toda somente o nosso querido poeta cearense pode ver…”


Ao final do comentário, fiquei com a impressão de que escrever uma crônica poética é como se o autor ficasse cego, só encontrasse seu mundo idíllico, atravessando os buracos nas calçadas quase flutuando, desdenhando da grosseria dos motoristas, da onipresença dos camelôs, do lixo que passeia a cada rajada de vento.

Não é isso. É que não mais sou um repórter do caderno de Cidades (na minha época de Diário de Pernambuco, era Vida Urbana), e prefiro escrever sobre outras coisas. Todos os dias, os jornais mostram esses problemas do Recife, que são muitos.  É uma questão do olhar, creio. Eu ponho minha atenção em outras coisas. No mínimo, escolho as calçadas menos esburacadas, evito ruas que não simpatizo, faço meu roteiro, escolhendo as belezas. Na crônica passada, acho que falei principalmente de alguns lugares e pessoas que fazem minha vida ser melhor.

Agora, apresento minhas discordâncias com o querido leitor.

Dizer que “andar é quase impossível, quase um campo de gerra”, é um notório exagero, para não dizer um delírio. Ando nessas ruas diariamente, nunca estive numa guerra, mas sei que as duas realidades são bem distantes. Há muitas calçadas esburacadas, camelôs, ônibus que desrespeitam os pedestres, mas pode crer, amigo – quem mais desrespeita os pedestres são os donos de carros particulares mesmo.

A “sujeira e o cheiro horrível” são citados, mas falta lembrar que a população recifense joga muito, mas muito lixo na rua, e não sinto este “cheiro horrível”. Será que está se referindo ao cheiro do mangue, aqui na beira do Capibaribe?

A parte mais preocupante, no entanto, é a que fala da violência. Volto ao comentário:

“Segundo que pra parar é um suicidio. Ou vc vai ser assaltado ou alguem vai se aproximar e pedir alguma coisa, dinheiro especificamente, ou mesmo pra vc comprar algo. Tambem nao sei como parado pode pensar tanta coisa linda pois o barulho é de fuder o juizo”.

Como diz um velho amigo, “Calma Valente!”

Há uns três ou quatro anos vou e volto, paro e avanço. O maior suicídio que conheço nestas ruas do Recife, é quando o sinal fica verde para o pedestre, e você não olha para o lado dos carros. Sempre tem um ou dois, ou algum motoqueiro tresloucado, dispostos a queimar o sinal vermelho, pouco se importando que os pedestres estejam começando a atravessar a rua. Neste momento, solto minha coleção de palavrões.

Nunca fui assaltado nas ruas do centro, que tem seus inúmeros problemas. Particularmente, acho que a reforma da avenida Conde da Boa Vista foi uma das piores obras de engenharia desta cidade. Ficou democraticamente ruim para pedestres, motoristas, taxistas, comerciantes. Detesto quando tenho que ir por lá, uma confusão para andar, atravessar rua, pegar um ônibus.

Para a surpresa do leitor que cito, há mais pedintes naquele circuito de bares que giram em torno do Bar Central (frontal, lateral, transversal), do que nas ruas vizinhas, como a da União, da Saudade, da Aurora. Há, de fato, é uma grande esculhambação nos estacionamentos, filas duplas, caminhões que para para abastecer bares e mercadinhos, que atrapalham o trânsito etc. Coisas que uma boa regulamentação e fiscalização, resolveriam bem.

Suicídio teve há quinze dias. Um sujeito se jogou de um prédio, na rua do Riachuelo. Fiquei sabendo quando estava na fila do banco, e dei graças a Deus não estar por perto.

Há barulho, mas não é de “fuder o juízo”. Há lugares silenciosos também. No Parque 13 de Maio, por exemplo, há muito silêncio, exceto no horário em que as araras ficam grasnando (não sei se uma arara grasna, fica por isso mesmo), locas para sair daquela prisão. No 13 de Maio, temos também a maior quantidade de casais dando beijo de língua por quilômetro do Recife, a qualquer hora do dia. De todas as faixas etárias, por sinal. E há também uma penca de gatos moradores de rua, que a turma alimenta.

Há pouco mais de dois meses, a Livraria Poty veio para a rua do Riachuelo, tem um ótimo acervo e um excelente café. O gerente tinha temores parecidos com os do leitor: violência, desorganização, sujeira. Bingo! O volume de vendas já é 40% maior, desde que veio para o centro, e a livraria começa a oferecer cursos e debates em seu auditório.

O Recife tem uma vocação para beleza, descuidos brutais, desarranjos históricos. Mas continuo andando pelas ruas desta cidade, com tudo de bom e ruim, e mesmo sabendo que o mal pode me abater em qualquer lugar, a qualquer momento, acho que isso faz parte da vida. Outro dia, parte da lage do prédio ao lado caiu do décimo andar, dez minutos antes da minha passagem. Se fosse na hora em que eu ía dando uma volta no quarteirão, já não estaria mais aqui.

Vejo beleza sim. Na verdade, eu a busco sempre. Se é coisa de poeta, é uma acusação que aceito. Por outro lado, colocar tragédia em tudo só faz tornar nossa vida mais assustadora, é o que penso.

É claro que não somos aquele Recife dos anos 1980, com a Livro 7 lotada de livros e autores (agora é uma Assembléia de Deus), a Síntese com Suely, o Beco da Fome, os movimentos poéticos, os sebos, mas como bem diz o Wood Allen em seu último filme (“Meia Noite em Paris”), estamos sempre achando a época anterior melhor e mais fascinante que a nossa.

Quando morava em São Paulo (foram seis bons anos), e dizia que era do Recife com orgulho e com saudade, os paulistanos ficavam suspirando.

“Ah, o Recife. Que cidade linda, que povo, que cultura!”

Apesar dos pesares, de nosso brutais problemas, concordo com aqueles suspiros distantes.

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Cotidiano número cinco

8 de julho de 2011, às 17:33h por Samarone Lima

Pensem numa coisa que adoro, é o tal cotidiano. Essa coisa banal, besta, de ter algumas referências simples, que são na verdade pontos de contato com algo maior.

Sempre fui assim. A julgar pela idade, é mal incurável. Quando moro, o entorno é parte essencial. Daí minha dificuldade com os condomínios fechados. Deve ser mais seguro, mas falta-me esta diversidade de caras, conversas, o imprevisto, o chão, a rua, as casas de cores, portas, jeitos diferentes.

Preciso do meu boteco, do pequeno mercado, tenho que saber o nome do homem ou da mulher que me entrega o pão, a identidade clubística de cada porteiro do prédio onde moro. É necessário comprar a fruta no quitandeiro silencioso, que só abriu o coração para falar do filho, que morreu há alguns meses, após “cair da laje”, cheio das manguaças. Essas outras mortes.

Nos quarteirões ao lado da minha casa, em qualquer lugar dos muitos que morei, das dezenas que já vivi, esse costumezinho de fazer contatos diários, banais, me dá uma estranha alegria. Não sei o que é, nem preciso saber. É um fazer parte de algo, talvez da espécie humana.

Aqui ao lado, o homem que tira as minhas dezenas de fotocópias semanais, acompanhado de seu funcionário que fica feliz, quando dou um troquinho de gorjeta, e que vai servir para tomar algumas doses a mais. Quando estou sem dinheiro, pergunto se posso pagar amanhã, a resposta me diz que não somos reles cliente-proprietário de um pequeno negócio de xerox, que há uma confiança sem anotações, fruto de nossa convivência ao longo de algum tempo que não sei calcular.

“Dinheiro na sua mão é garantia, professor”.

Talvez pela barba, pela mania dos livros, por uma certa educação (louvados sejam o pai e a mãe, que me indicaram os bons dias, obrigados, boas tardes, com licença, desculpe, os “por favor” da vida), me chamam com rara frequência de “professor”. É uma coisa que eu adoro, ser chamado de professor, uma profissão que deveria ser uma das mais bem pagas do país.

Aqui ao lado, um brechó simples, que visito a cada quinze dias, à procura de algo que não sei nem o nome, e sou recebido com festa pela proprietária, como se eu gastasse todo o ordenado comprando miçangas. Foi lá que comprei a fantasia do último Carnaval, por vinte reais. Mais adiante, perto da Assembléia Legislativa, o almoço por quilo, a preço confortável, onde um garçom vem diligente e silenciosamente me trazer, num guardanapo, uma banda de limão e um dente de alho. Um homem que sabe dos costumes de seus clientes.

Os lugares, as pessoas, num Recife que aprendi a amar desde muito antes da minha chegada. De certa forma, no cotidiano refaço a cidade, torno-a mais humana, mais minha. É minha posse sem escritura. Ao lado do Parque 13 de Maio, meu boteco simples, o Princesa Isabel. Os amigos que bebem juntos há mais de duas décadas, aos sábados, a mesa que gosto, as variações de humor da garçonete, o ventilador recém-consertado e agora barulhento.

São outras famílias, que vou formando. Lugares em que vou deixando também um pouco de mim, de minha saudade, minha passagem por este mundo.

Mais adiante, o rio Capibaribe. A essa hora, entardecendo no Recife, passam os turistas no catamarã. Passam perto da rua da Aurora, tiram fotos de tudo. Às vezes paro, fico olhando o rio, a beleza do Recife, eles vão fotografando.

É bem capaz de levarem minha imagem no meio das tantas fotos.

Me levam, mas eu fico.

Eu vou para todos os lugares do mundo, mas no Recife, eu fico. Sempre fiquei.

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Por que escrevo?

4 de julho de 2011, às 14:01h por Samarone Lima

Pedi para os participantes da minha oficina literária respondessem a duas perguntas: Por que escrevo e para quem escrevo?

As respostas foram ótimas, poéticas, da alma. Hoje resolvi fazer o exercício comigo.

Escrevo porque é da minha natureza. Não tem nada a ver com aquela conversa de que “não sei fazer outra coisa”.

Também sei dar aulas, sei revisar textos que estão sem pé nem cabeça, acho que daria um bom jurado de programa de calouros, diretor de uma biblioteca ou editor-assistente de alguma editora. Também poderia ser um bem sucedido dono de sebo ou caseiro de algum amigo que tem dinheiro e casa na praia ou fazenda. Cuidaria da casa, daria comida para os cachorros e gatos, depois iria ficar escrevendo. Dono de bar não, porque já paguei meus pecados com dois, toc toc toc.

Não sei quando descobri isso, que esta minha natureza de escrever me dava felicidade. É uma sorte, isso. Aquele caso em que o sujeito é feliz porque é um juiz de direito, ama a publicidade e trabalha nela, é cabeleireiro e tem seu salão cheio. A diferença é que meu trabalho precisa de pouca infra-estrutura, não tenho que botar paletó, ler inquéritos gigantescos, pareceres, nem decidir pela vida dos outros. Também não preciso matutar idéias fantásticas para vender produtos, nem passar o dia em pé, cortando o cabelo do povo.

Sou muito feliz quando estou escrevendo.  Como é meu ofício, fui estudando para tentar melhorar, e hoje as coisas fluem com maior tranquilidade. Dificilmente fico horas com a página em branco. Conheço gente que sofre horrores para botar no papel o que está na cabeça, que tem dor de cabeça, que emagrece para terminar um livro ou uma dissertação de mestrado, não dorme direito, tem pesadelos. Meu problema (não é sofrimento) é acertar o começo. Depois, é uma festa só.

Escrevo porque a vida foi me dando histórias, que precisavam ser contadas.

“Zé”, meu primeiro livro, começou a nascer em 1992, quando eu tinha 23 anos e nem imaginava o que era escrever um livro, como se fazia. Fiz cinco reportagens sobre a morte de um militante da Ação Popular (AP) noRecife, entrevistei um monte de gente maravihosa, e descobri que aquela história nunca tinha sido contada. Mais que isso, eu queria contá-la.

Descobri que escrever é querer. A intenção está no cerne. Quando eu digo sim a uma história, é também uma escolha. Escrever, para mim, é uma escolha de muitos anos.

O mesmo aconteceu com “Clamor”. Eu morava em São Paulo, encontrei os arquivos deste grupo de Direitos Humanos, comecei uma pesquisa, e a história foi sendo contada. Os documentos foram o ponto de partida. Depois, fui entrevistar gente no Brasil, Chile, Uruguai e Argentina. Como foi importante, para mim, escrever aquilo que escutei, processei, elaborei, já com a ajuda de uma mestra do jornalismo e da literatura, Cremilda Medina. Foi quando percebi que um olhar externo pode ser uma grande fonte de inspiração e refinamento de um texto.

Parece que estou fazendo uma exegese dos meus próprios sonhos. É assim, o texto, é como a vida. Vai dobrando esquinas, seguindo por caminhos que muitas vezes traçamos e perdemos.

Foi assim com “Viagem ao Crepúsculo”, meu livro sobre Cuba. Viajei sem roteiro, e conheci o outro país, que nunca imaginei. Os cubanos me esfregaram na cara a vida cotidiana. Voltei com cinco cadernos cheios de anotações e sentimentos. Escrevi pela necessidade de contar, de partilhar. 

Escrevo porque me conforta, me consola, me ajuda a viver.

Tenho muito este sentimento simples, pueril, quando estou sentado, diante de uma mesa, com um caderno, uma caneta, e vou escrevendo algum trecho de livro, um poema, uma carta, anotações em meu diário. Penso em como é bom este silêncio, esta quietude, esta calma. Uma sensação besta e intensa de que preciso pouco. Depois de um certo tempo, vou à cozinha, faço um café, volto, recomeço e tudo parece se encaixar, desde algum começo sem data, uma manhã sem nome. 

Escrevo também porque quero ser lido.

Mas sei que se eu não tivesse um leitor sequer, continuaria escrevendo até o fim, como certamente o farei, porque escrevo primeiro para mim, para desatar alguns nós que a vida deu, que herdei ou que sonhei de mal jeito.

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