Os dramas da vida, recortados e comentados
Samarone Lima
Tenho o costume, há muitos anos, de recortar coisas de jornal. Notinhas, coisa miúdas, que me fazem pensar na vida.
Recorro a elas, nos momentos emque não tenho inspiração. A realidade parece ser muito mais criativa que qualquer ficção.
“Homem cai de penhasco ao tentar colher flor”
(Jornal do Commercio, 12/07/2011)
“Um homem morreu quando tentava apanhar uma orquídea para a namorada no alto de um penhasco, em Joaquim Távora, no norte do Paraná, no último sábado. Segundo o Corpo de Bombeiros de Santo Antônio da Platina, Odair Francisco de Oliveira, de 38 anos, passeava com a namorada no Vale da Pirambeira, quando a mulher pediu que Oliveira alcançasse uma orquídea rara. Quando se aproximava, Oliveira teria caído de uma altura entre 20 e 30 metros. Devido ao difícil acesso na região, as equipes dos bombeiros demoraram cerca de 2 horas e meia para chegar ao corpo. A causa da morte foi hemorragia interna”.
Comentário:
A causa da morte não foi hemorragia interna. Odair morreu mesmo foi de amor.
“Um final trágico a la Tristão e Isolda”
(Diário de Pernambuco, 14/07/2011)
“Rio – O coração fraco: ao ver o amado morto, a esposa, grávida de dois meses, não aguenta a dor e acaba entrando em choque. Passa quase três dias ao lado do corpo do marido até ser encontrada. Socorrida, morre poucas horas depois no hospital. A cena,que poderia fazer parte de qualquer filme romântico com final lacrimoso, ao que tudo indica aconteceu este fim de semana na vida real, envolvendo justmente dois contadores de histórias, o diretor Emiliano Ribeiro (assistente de Dona Flor e seus dois maridos) e a roteirista Karla Hansen. Espantado com a tragédia nos moldes de Tristão e Isolda no Itanhangá, o delegado Fernando César Magalhães Reis disse ontem que, embora tudo aponte para mortes naturais, vai investigar o caso”.
Só estas informações já causam um espanto. Vamos aos detalhes.
“Casados há dez anos, Karla e o marido comemoravam a chegada do primeiro filho. Aos 63 anos, Emiliano não escondia a felicidade. Karla, 43, fazia planos e já havia escolhido os padrinhos do bebê. No último sábado, o casal conversou com amigos e marcou compromissos para o domingo. Não apareceram, mas ninguém estranhou. Na segunda-feira, não atenderam ao telefonema. Mas o alarme ainda não soara. Na terça-feira, a faxineira chegou à casa e estranhou os jornais empilhados do lado de fora, intocados (sic). Abriu a porta e encontrou Emiliano morto e Karla agonizando.
As famílias foram chamadas e as providências foram tomadas: Um médico constatou que Emiliano sofreta um infarto e Karla foi levada, ainda com vida, para o hospital, onde morreria pouco depois. Karla sofreria de uma miocardiopatia que todos, inclusive ela, desconheciam. O casal deve ser cremado hoje”.
Comentário:
Num mundo tão dado à comunicação rápida, das respostas imediatas, o celular, twitter, internet, o que lamentei mesmo foi o fato de o casal ter ficado do sábado até a terça-feira agonizando, isolados, sem ajuda, por absoluta falta de contato humano. E que pena tanto sofrimento, envolvendo duas pessoas que me pareceram tão doces, no esplendor da vida.
“Escravos fugidos”
(Diário de Pernambuco, 21 de maio de 1861)
“Attenção – Acham-se fugidos os escravos: Conrado, crioulo do Pará, de bonita figura, que foi escravo do Sr.Dr. Magalhães, que servio de chefe de policia, cujo escravo pode passar por livre porque falla bem e até troca algumas palavras em francez, e foguista no vapor Pirajá, com nome de José Domingues. João, cabra escuro, bastante alto, com marcas de bexiga no rosto, natural de Inhamuns, o qual tendo sido de um parente do Sr. Visconde de Icó, foi aqui vendido pelo Sr. Desembargador André Bastos de Oliveira. João, alto, mulato, também com manchas de bexiga no rosto, falta de dentes na frente, natural do Crato”.
Comentário:
Como sou do Crato, é preciso lembrar que em 1861, o escravo João, banguela, possivelmente um ancestral da minha raça, fugiu.
Eu também teria fugido. Sinto um orgulho ancestral do cabra escuro e bastante alto, que resistiu.
“Com a cabeça no bueiro”
(Diário de Pernambuco, 14 de julho de 2011)
“Um grande aparato de resgate chamou a atenção por quem passava pelas ruas do centro de Santana do Livramento (RS). Um homem ficou com a cabeça entalada em um bueiro enquanto tentava recuperar uma nota de R$ 10 que havia caído pela boca-de-lobo. Os bombeiros foram chamados, e, após 30 minutos, com o auxílio de um macaco hidráulico, conseguiram liberar o rapaz”.
Comentário:
Amigo leitor, jamais coloque sua cabeça na boca-de-lobo por dinheiro algum.
“Ancestralidade”
(Em artigo do Luiz Felipe Pondé. Folha de São Paulo, 18 de outubro de 2010)
“Dostoiévski é sempre essencial. Para mim, uma de suas descobertas capitais é que, ao contrário do que diz nossa miserável ciência da autoestima, apenas quando encaramos o mal (a “sombra” de uma espécie abandonada ao próprio azar) em nós, é que recuperamos a vontade de viver. Só esmagando o orgulho com a humildade de quem se sabe insignificante é que vale a pena apostar no dia a dia”.
E no final do artigo:
“Enfim, quem conhece sua ancestralidade, mesmo quando caminhando no vale das sombras, nunca está só”
Comentário:
Muito bom isso. Vou mostrar ao Barthô.
“Avizos particulares”
(Diário de Pernambuco. Sexta-feira, 8 de julho de 1836)
“Mathias de Albuquerque Mello aviza ao respeitável público, que ninguém compre a molata Claudina, e a filha desta os quaes pretende vender D.Maria Joaquina Pereira dos Santos, e que se achão em caza do Tenente Cruz na Rua Direita por estarem letigiosas, visto ter o annunciante intentado contra a dita Senhora notificação para inventário dos bens que ficarão por morte de sua sogra, e mais do anunciante, dos quaes bens se apoderou o fallecido marido da mesma Senhora, a qual de mais a mais por não terem ficado filhos do seu matrimônio tem de dar partilha dos bons de seu casal ao herdeiro de seu fallecido marido”.
Comentário:
Sinceramente, não entendi praticamente uma vírgula deste aviso, salvo o aviso que não se deve comprar a molata Claudina, e sua filha, o que me leva a suspeitar que há 175 anos temos gente que bebe muito, nas redações de jornais. Agradeço a algum leitor que consiga me explicar o que aconteceu.
Depois coloco mais alguma nota.
Postado em Crônicas |
5 Comentários »



