Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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25 de agosto de 2011, às 17:47h por Dimas Lins

“Oficina Literária”

Com Samarone Lima

Local: Restaurante Banquete (Rua do Lima, defronte à TV Jornal)

Toda terça, das 19h às 22h

Inscrições no local

Informações: samalima@gmail.com

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Estimações

18 de agosto de 2011, às 15:46h por Samarone Lima

A lembrança mais antiga de animas convivendo com minha família é de um cão em Brejo Santo, no interior do Ceará, um animal que não lembro o nome, mas sei que era grande e simpático. Eu já nasci adorando os cachorros, de todas as raças, especialmente os vira-latas, como eu.

Teve um Dálmata, em algum momento, mas não lembro quando foi, porque minha família mudava muito de cidade, de casa, é bem capaz de ter sido em Imperatriz, no Maranhão.

Meu pai tinha passarinhos no Brejo, mas uma vez viajou, muitos morreram, acho que foi por falta de comida, não lembro. Mas nisso de passarinho sou meio sem graça. Por mais que cante lindo, não gosto de ver bicho em gaiola. Se fosse eu não cantava nunca, se estivesse preso, eu só resmungava e cavava túneis, à noite, para fugir.

Em Fortaleza, nos anos 1980, surgiu o Atlas, nosso Cocker Spaniel adorável, marronzinho, que é uma cor que adoro. Era lindo mesmo. o Atlas. Quando a gente saía de carro, ele botava a cabeça na janela, ficavam aquelas orelhonas voando, todo mundo achava uma coisa sensacional, inclusive eu. A irmã dele se chamava Ananke, e eles transavam numa boa.

Quando o Atlas morreu, eu tinha 13 anos. Fui enterrá-lo no quintal de nossa casa, no Monte Castelo. Lá pelas tantas, o Pepo, meu amigo, gritou:

“Chega, Dona Ermira, que o Samarone vai se enterrar junto com o cachorro!”.

Nunca esqueci a frase. Eu estava triste pacas.

Passei muitos anos sem animal por perto, na época do liseu brabo, no Recife, ali no final dos anos 1980, início da década de 1990.  Em São Paulo, na época em que morei com o Gustavo e o Juan, no final da mesma supracitada década, surgiu uma gatinha preta, minúscula, que nos cativou, mas foi brutalmente assassinada por uma pernada do Juan, ao vestir a calça. O sujeito chorou pacas, e ficamos consternados. Não lembro o nome dela. As coisas que doem menos, são aquelas que a gente não batizou, não deu um nome.

O último animal que me cativou muito foi Bab-Bam, cachorrinho de tia Flocely. Uma vez, escrevi que ele era um belo de um vira-lata, minha tia ficou brava comigo, só faltou mesmo dizer que o vira-latas era eu. Quando tia morreu, ele ficou repentinamente manso. No dia do velório, escondeu-se debaixo do sofá, não latiu nem nada. Apenas saia, dava uma volta em torno do caixão, e voltava para seu silêncio. Pensei que Bam-Bam não fosse viver uma semana, de tão deprimido que estava.

Na segunda-feira passada, a Rosa, a eterna cuidadora de tia, me ligou. Estava arrasada, porque Bam-Bam tinha acabado de morrer.

“Estava meio ruinzinho, depois deu um suspiro e morreu”, disse.

Renato, filho de Rosa, levou o animalzinho e o enterrou no jardim de tia Flocely, na casa da rua Hercilia Cavalcante, onde onde foram felizes, ele e tia. 

Foi um enterro digno. Acho que as pessoas devem ser encerradas onde amaram e foram felizes.

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Quando uma cidade adoece

12 de agosto de 2011, às 11:52h por Samarone Lima

Acostumado a escrever sobre as coisas bonitas, a ver o lado bom do Recife, onde vivo, eu já vinha percebendo uma certa loucura, as ruas cada vez mais intransitáveis, pessoas nervosas, buzinas tentando abrir caminhos. Isso do meu ponto de observação natural, na vertical, porque ando muito a pé, ou da janela, porque costumo usar ônibus para muitos trajetos. Não é bom mocismo, é que, pela primeira vez na minha vida de recifense, moro quase no centro (rua da Aurora), e trabalho perto de casa. Meu Fusca 1968, azul, vendi há uns seis anos, após uma batida, e está tudo ótimo assim.

Mas ontem, ao entardecer, fiquei espantado. Tomei um choque.Vi uma cidade adoecendo. Deve ter outro nome para isso. Neurose, normose, agonia, não sei.

Fui pagar umas contas, depositar um dinheiro em um banco que fica na avenida Conde da Boa Vista, e senti algo estranho. Tudo parado, ou se movendo lentamente, uma coisa de agonia coletiva. Era já perto das 18h, uma chuvinha fina molhava de leve meus óculos, e depois de fazer os trabalhos, resolvi ir ao Clube Português, nadar um pouco e pegar um calor delicioso na sauna seca, que é boa pacas.

Fui caminhando, mas a chuva apertou, peguei o Casa Amarela Nova Torre, tinha lugar para sentar, mas o ônibus andava mais devagar que eu, a pé. As janelas fechadas tornavam tudo mais quente e desagradável. Depois de uma meia hora, desci e fui andando, porque sairia muito mais rápido.

Foi quando cheguei à Agamenom Magalhães. Que confusão, meu Deus! Carros fechavam vias que estavam livres para os outros, buzinas enlouquecidas, tudo parado e conflituoso. Uma mulher foi avançar, tentando abrir o caminho, o sujeito começou a bater na lataria de seu carro, gritando:

“Vai bater, porra! Vai bater, não está vendo não? Está doida? Vai bater!”

A mulher parou, o sujeito continuou batendo, transtornado, gritando. Deu vontade de ir lá e dizer – “Amigo, ela já escutou, já parou, pode parar com essa gritaria”, mas às vezes, essas coisas terminam mal.

Segui, impressionado com as buzinas. Há pessoas que compram o carro e pensam primeiramente na buzina. Ela deve ser extraordinariamente alta, para a pessoa mostrar que é extraordinariamente rica, acaba revelando que é extraordinariamente estúpida. Tudo imóvel, e o sujeito segurando a buzina durante dois, três minutos. Isso, para mim, é sintoma de alguma doença. Mas estupidez, Samarone, é uma doença.

Atravessei a Agamenom.Nessas horas, a mania de usar sandália de couro me lasca. Uma laminha básica nos cascos, para criar marra.

Cheguei ao Português. Tudo parado, naqueles arredores. A McDonalds estava bem. Só deu tempo subir para o vestiário, botar o calção, pegar a sauna, tomar umas boas duchas. Relaxado, revigorado, botei uma camisa nova, amarela, listrada, saindo do meu branco habitual, botei minha mochila nas costas, e resolvi voltar para casa caminhando.

Havia uma fila de carros para sair do clube, no mesmo instante que saía o intrutor de Tai-Chi-Chuan, com sua calma e leveza, vestido de branco. Por pouco não foi atropelado, ao tentar seguir para a Praça do Entroncamento. Seria um Tai-Chi-no-Chão.

Eram oito horas e mais alguns minutos. A situação estava pior do que uma hora atrás. Mais buzina, mais ônibus lotado. Nas paradas de ônibus, muita gente aguardando, olhando para o vazio de certas ruas que deveriam estar proporcionalmente cheias. Parece que um caminhão enganchou nas árvores, defronte ao Conservatório Pernambucano, e tudo foi para o beleléu. Passei num posto que gosto, tomei um cappucino, comprei pão. Iria pegar um polenguinho também, mas a R$ 1,50 um reles tablete, não dá.

Já perto do Parque 13 de Maio, fui atravessar a rua, não vi um carro vindo da rua do Príncipe, acelerei o passo, feito a Pantera Cor de Rosa, uma mulher tirou um fino nas minhas canelas e deu um grito:

“Sai do meio, puto!”

Isso é, de fato, assustador. Ela, em nenhum momento pensou em reduzir a velocidade. Não tinha carro algum atrás. Eu era simplesmente um puto, no final do seu puto dia, que merecia uma puta atropelada. E se não tivesse acelerado o passo? Fora das minhas peladas semanais durante dois meses? Gelei com a possibilidade.

Pode ser apenas um dia ruim no Recife, Samarone, vamos em frente.

Voltei pela Conde da Boa Vista, para ver se comprava um creme para os cabelos, que estão cada dia mais secos. Fiquei perplexo com a sujeira nas calçadas, na rua. Sujeira misturada com a água da chuva. Ali não é coisa de limpeza urbana, é de educação mesmo. Ao lado de cada barraca de cachorro quente, de churros, de coxinha, ao lado de cada boteco improvisado, cada espetinho restos de guardanapo, de papel, saco plástico, restos de tudo, que são jogados na rua mesmo, nosso lixeiro mais fácil. Se falta educação para as pessoas que estão nos carros, falta também para os que andam a pé, de ônibus, que circulam pela cidade. Entrei na Sete de Setembro, a mesma coisa, o mesmo cenário desolador.

Foi me dando uma tristeza. Passei no Princesa Isabel, tomei apenas um cafezinho, que nem estava essas coisas todas. Fiz o resto do caminho pensativo, lamentando isso tudo. Eu, que vejo sempre a beleza do Recife, seus encantos, me dei conta de uma cidade adoecendo de excesso e falta. Excesso de carros, de agressividade, falta falta de delicadeza, de educação, de sensibilidade, de paciência, essas coisas que tornam a vida melhor, mais simples.

Atravessei as duas ruas que faltavam, antes de chegar em casa, olhando bem para os dois lados. Não queria terminar o dia num puto atropelamento.

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Recife bom e barato, volume I

8 de agosto de 2011, às 1:22h por Samarone Lima

Tem gente que só se diverte se for gastando muito. Cada um no seu direito. Eu mesmo, de minha parte, adoro fazer uns programas por preços módicos em lugares que não são nada caretas. Gasto pouco e me divirto pacas.

Uma dica boa é conhecer o Alto José do Pinho, na Zona Norte do Recife.

Se for no domingo, melhor ainda. Dá para pegar o ônibus saindo ali da rua Princesa Isabel, perto do Parque 13 de Maio, ou ao lado do Delta Café, no Bairro do Recife (se eu escrever ”Recife Antigo”, a Naire fica invocada comigo). Dia de domingo, para quem não usa ônibus “porque é violento”, ou porque o “transporte coletivo não presta”, custa R$ 1,00.

A dica é pegar um ônibus até o Sesc Casa Amarela (valeu, Paulo, pela correção). Economiza o táxi, besta. De lá, pega-se um táxi até o Alto José do Pinho. A corrida, na bandeira dois, até o “Caldinho do Biu”, custa R$ 5,00.

O Caldinho é o que há de bom, pena que não me lembro de tirar fotos. Numa esquina, com mesas e cadeiras do lado de fora, fica na rua principal do Alto, onde tem de tudo. Seu Biu é um grande sujeito, e seu filho, Flávio, só me chama de “Marone”, há muitos anos, já me acostumei. Vou chamá-lo de “Ávio”, para ele ver o que é bom pra tosse.

Até ai, você gastou seis reais.

Uma Brahma custa R$ 2,99. O caldinho custa R$ 2,00. Total: R$ 10,99. Mas tem jabá, peixe, um monte de tira-gosto que deixam o sujeito mole. O peixe de lá, assado em posta com verdura, é o melhor da cidade. O feijão com charque é para deixar qualquer esfaimado (essa olhei no dicionário agorinha) inteiramente consolado.

Então, meu amigo leitor, sente na rua lateral, sinta a brisa, veja o movimento, escute as conversas. É tanta coisa nesse mundo, que a gente nem acredita.

Com a ajuda imperiosa do celular, as histórias deixaram de ser particulares. É possível escutar, em voz alta, dramas, enredos, frases, contingências, desaprumos, relatos e repetições, envolvendo a espécie humana, que curam do tédio qualquer candidato à morgação dominical. Basta o celular tocar, que a pessoa esquece o público ao redor, faz declarações de amor, mente descaradamente, desabafa, diz segredos sem perceber, essa coisa toda ampla e complexa que é o ser humano.

“Da minha boca não sai mais nada, ouvisse, Silene! Mais nada!”

“A gorda revelou as fotos”, comenta a mulher ao lado, numa mesa, onde as duas fazem confissões amorosas as mais diversas, inclusive as sexuais, enquanto finjo que estou lendo um jornal do dia, mas com o bloquinho de notas ao lado, porque não sou também de ferro.

As conversas passam como se fossem criaturas aladas, independentes, solfejos do cotidiano;

“Vai ter que usar prótese”.

“Só vi foi mesa voando”.

“Beleza, morreu o assunto. Morreu, beleza? Tranquilidade”.

“E é o Mel Gibson, é?”

“Eu ia matar ele de pau”.

“Pois o cara chamou de filho da puta o filho de Buda!”

“Se minha irmã fizesse isso comigo, eu dava uma surra boa nela”.

“Pois eu estava apitando, aí Neca me deu uma cabeçada. Não reagi, mas vai constar no meu relatório, ele vai se foder comigo, vai pegar um gancho de uns cinco meses”.

Essas conversas me levaram a mais uma cerveja.

Total: R$ 12,99.

Termino, vou ao terminal, tem um ônibus descendo para o Recife. Gasto mais um real. No ônibus, a viagem inteira, éramos quatro passageiros, num dia iluminado.

Total dos gastos: R$ 13,99. Arredondemos para R$ 14,00.

Sinceramente, eu acho bom e barato.

Mas não sabia que Buda teve filho. É andando e aprendendo. Domingo que vem, escrevo o volume II.

Ps. em Seu Biu, não cobram os 10%, mas é de bom grado dar uma gorjeta ao garçom, que é juiz de futebol de várzea logo cedo.

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Ex-cânceres

3 de agosto de 2011, às 12:12h por Samarone Lima

Ontem, encontro com uma amiga de longa data, que mora no Rio de Janeiro. Viajamos juntos em uma grande pesquisa sobre Direitos Humanos na América do Sul, batemos pernas pelo Chile, Argentina, conversamos muito, trata-se de uma grande criatura.

Há uns dois ou três anos, teve câncer, uma amiga comum me avisou discretamente, mandei algumas mensagens, fiquei na torcida para que tudo desse certo.

Eu não sabia de muita coisa, dos oito meses num hospital, o tratamento com saídas poucas para descanso na casa de parentes, o sofrimento, o baque, as reviravoltas causadas pela doença, as mudanças na vida.

Mas ela estava ali, curada, saudável, sorrindo, querendo saber o que andei fazendo este tempo todo, como estava minha vida, e vê-la bem, cheia de planos, foi um presente.

Hoje de manhã, recebi o email de outra grande amiga, que mora aqui no Recife, uma mulher corajosa, cheia de fibra, que passou pela mesma barra. Justo ontem, recebeu o melhor dos abraços. A oncologista comemorou com ela os cinco anos da luta contra o câncer.

“Na volta, pensei nas voltas que a vida dá. A mesma avenida, o mesmo horário e o mesmo trânsito. Na noite do diagnóstico o medo e o despero me acompanhavam. Ontem, a esperança e a alegria. Novamente fui às lágrimas. Obrigada a todo mundo que compartilhou comigo e com  meus filhos esses cinco anos de perseverança, superação e conquistas”.

O agradecimento simples sempre comove:

“Para sempre, muito obrigada, queridos amigos”.

Ao final, ela mandou um viva que serve para ela, para minha amiga que vive no Rio de Janeiro, para mim e para todos os que buscam algum tipo de cura, para os males do corpo ou da alma:

“E viva a vida!!!”

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