Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Reflexões na esteira

30 de setembro de 2011, às 11:54h por Samarone Lima

Acho que foi em fevereiro ou março, não lembro bem, quando resolvi dar o braço a torcer. Fui fazer uma avaliação física, após saber que meu velho amigo Inácio França estava frequentando uma academia, perto de sua casa. A favor da avaliação, pesava o fato de estar me contundindo com rara frequência, nas duas peladas que jogo durante a semana, na quarta e no domingo. Além disso, estava acima do peso, sentia um cansaço maior, ao final de cada jogo, dores musculares, após os piques, para marcar possíveis artilheiros.

Como passo grande parte do dia sentado, lendo ou escrevendo, creio que estava caminhando para um sedentarismo crônico. Para quem escreve crônicas, é até bom, porque garante o trocadilho. No trabalho, meu chefe fez uma série de exames médicos e levou um pau danado, teve que cortar um monte de coisas, ficou até meio baixo-astral, mas agora está tinindo nos cascos.

Pois bem. Na avaliação física me saí mal pacas. Medidas, exercícios, resistência. Tudo ruim. A continuar daquele jeito, brevemente deixaria de jogar minhas peladas semanais. Sentiria os reflexos mais profundos somente daqui a uns dez anos, creio, quando poderia descolar algo realmente crônico. Na foto que veio anexada ao relatório, vi uma coluna cervical encurvada, herança familiar de meu ramo feminino. O camarada sugeriu começar logo na academia.

Então vem a realidade. Sempre achei meio ridículo, passar defronte a uma academia, ver aquele povo correndo, em cima de uma esteira, com fones de ouvido, corpos malhados, música tecno, uma coisa meio malhação. Deus me livre, eu pensava.

Depois de uma semana enfadado com a possibilidade, conversei com Inácio, que me teceu loas e boas da academia, melhorias visíveis em sua vida, mais disposição etc. Como a academia é pequena, nunca tem muita gente, simpática, resolvi testar.

Fui lá. No primeiro dia, dei um azar imenso: três pessoas estavam fazendo seus exercícios.  O publico ideal, para mim, era ninguém presente.

“Vim fazer um teste”, disse à recepcionista, timidamente.

Ela me apresentou ao instrutor, Thiago, que é o mesmo de Inácio. Além disso, é tricolor.

Uma rápida olhada, vi que eu era um ser estranho. Alto, cabeludo, barbudo, um tênis meio “Conga”, calção fora de moda e de óculos redondo. Podem olhar, que quase ninguém mais usa óculos redondo. Está fora de moda. É totalmente demodé.

“Vamos começar pela esteira”, disse. “Quinze minutos”.

Lá fui eu. Na frente, um prédio em construção, um monte de operários. E se tem um amigo por ali? Não sei exatamente o motivo, mas em academia, não se usa parede. Tudo é na base do vidro. Deve ser algo do tipo ver e ser visto. Quem passava pela rua, me via.

Comecei a correr. Na TV, o programa da Ana Maria Braga e aquele papagaio ridículo. Eu mereço. Depois, a série de exercícios nas máquinas. Cada nome esquisito. Supino superior, crucifixo reto, tudo feito para a gente depender do instrutor. Thiago mostrava, ficava olhando.

“Olha, dá para sair de perto? Fazer exercício com uma pessoa olhando me deixa empulhado”, reclamei.

Thiago saiu e fui fazendo lá os exercícios. Nada de muito puxado, pois eu era iniciante.

Vi que não era nada demais, frequentar uma academia. Era só uma besteira minha, alimentar essa conversa de quem é do mundo da literatura, quem gosta muito de escrever, ler, só pode viver mesmo na boemia, nos botecos, desfrutando da noite, a grande companheira.

Duas vezes por semana, vou lá, fazer meu esforçinho. Acho mais bonito que “malhar”. Meu corpo, que vem me acompanhando há 42 anos, sofrendo com meus exageros e descuidos, agradeceu muito. As contusões sumiram, melhorei na antecipação das jogadas, tenho mais fôlego. Melhor que isso, acordo mais cedo, melhorei a alimentação, tenho escrito com mais disposição. Diria que ganhei mais fôlego para a própria vida e que aproximei mais meu corpo da minha alma. Se isso é ridículo, me posiciono ao lado dos ridículos de todo o planeta.

De vez em quando, os horários combinam e encontro o velho Inácio, que praticamente triplicou a resistência na esteira, está mais leve, cheio de planos. Vamos fazendo nossas séries e botando os papos em dia.

Outro dia, entre um exercício e outro, ele comentou:

“E de pensar que a gente só se encontrava em boteco, né?”

Rimos das ironias da vida, que são muitas.

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