Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Rei de alguma coisa

21 de novembro de 2011, às 15:20h por Samarone Lima

Desde que cheguei ao Recife, naquele distante 1987, notei algo estranho (ou diferente). Era rei para tudo que era lado. Rei disso, rei daquilo. Com o tempo, fui viajando pelo estado, fiz (e faço) trabalhos em que estou constantemente na estrada, percebi que não era coisa só da capital. Em tudo que é cidade de Pernambuco tem um rei de alguma coisa. Dependendo do tamanho da população, é um reinado atrás do outro.

Semana passada, voltando de Salgueiro, paramos para comprar queijo, ovos de galinha de capoeira e mais essas coisas que são boas, por preços mais camaradas. Fica em Cachoeirinha. O sujeito que nos atende já tinha providenciado a plaquinha à entrada de seu mini-estabelecimento os avisos: “Rei da tilápia sem espinha”, ao lado de “Rei da Carne de Sol”.

Eu já tinha combinado comigo que iria tirar fotos desses lugares, para mostrar aos leitores, mas isso é de uma fajutice tremenda. Se tirar a foto, é bem provável que demore muitos dias para passar para o computador. Depois, vou perder várias horas tentando formatar foto, não conseguirei e terei que solicitar a ajuda do meu amigo Dimas Lins, criador desta página com Anízio Silva. Já devo uns 322 favores ao Dimas, não quero me complicar.

Não é preciso nem foto para saber que o pernambucano gosta e é muito de reis. A coxinha mais famosa do estado é chamada de… “Rei da Coxinha”, claro.

Basta olhar para o comércio, em qualquer cidade. Tem “Rei da Picanha”, “Rei da Autopeça”, “Rei do Bode”, “Rei disso”, “Rei da carne-de-sol”, “Rei daquilo”. Nosso melhor cantor de dores de cotovelo e amores é Reginaldo Rossi,  chamado carinhosamente de “Reginaldo…. Rei”.

Pois bem. Tirando os seis anos que morei em São Paulo, já tenho quase duas décadas de Recife. Ontem, num momento de maior metafísica espiritual, descobri algo que me deixou exasperado – eu não era rei de nada.

Sou conhecido por farrapar nos encontros sociais, como casamentos, batizados, noivados, aniversários, batismos em geral, conhecidíssimo pela bagunça em casa, na minha sala de trabalho, lembrado sempre por esquecer coisas nos lugares os mais diversos, mas nunca fui citado como o “Rei da farrapagem”, o “Rei da desorganização”, “Rei do Esquecimento” ou coisa do tipo.

Cascavilhei na minha memória, cofiei bastante a barba, e depois de umas duas horas na rede, cheguei ao meu reinado.

Sou o rei da tapauer. Sei que se escreve tupperware, em homenagem ao seu inventor, o digníssimo Earl Tupper, nascido nos Estados Unidos. Não sei o que significa “tupper”, em inglês, e não altera nada se significar “vácuo”, “vasilha” ou apenas o nome da família do Earl

Quando vou a aniversários, batizados, noivado, batismos em geral, tenho uma ocupação religiosa e canônica – sempre, da metade para o fim do evento, vou em busca da minha tapauer.

Uma vez, no aniversário do meu amigo Serjão, começamos a nos esbaldar num  carneiro que fora preparado com vinho, era mesmo um manjar. Lá pelas tantas, comecei a maquinar para conseguir algo que já faz parte do direito adquirido por mim, ao longo de muitos anos – minha tapauer.

Fui à cozinha umas três vezes, descobri a cozinheira, fiz elogios mil. Na terceira, a pergunta fatal:

“Será que dava para levar um pouquinho para minha tia avó?”

Não era mentira. Na época, a saudosa tia Flocely estava bem viva. Uma parte era para ela mesmo.

A cozinheira encontrou uma solução simples para me dar uma boa quantidade do carneiro. Colocou dentro de uma lata vazia (não diga) de Leite Ninho, improvisada na hora.

Saí de lá orgulhosíssimo, deixei no congelador, para comer só no domingo seguinte. Quando abri o congelador, no dia agendado, não tinha nem a lembrança da lata. Rosa, que trabalhava com tia, achou que era comida para o nosso querido vira-latas, Bam Bam, esquentou e botou para o bichinho, que certamente teve o melhor rango de sua vida.

Mas este fato desagradável é uma pedrinha de nada, comparado à minha carreira de tapauezeiro.

Ao contrário do que muita gente pensa, este comportamento um pouco repetitivo e às vezes inoportuno dificilmente pega mal. Muito pelo contrário. Vários donos de festa que eu mal conhecia passaram a me olhar até com uma certa ternura, quando eu perguntei se poderia levar um pedaço do bolo, do peixe, algo suculento que não lembro agora (ah, sim os sandubas da casa de Lucila), ”numa tapauerzinha”.

“Ahnn, mas é claro, não sabia que você tinha gostado tanto da comida…” – respondem, invariavelmente, os anfitriões.

Com minha persistência, fui ganhando reconhecimento. Já tem gente que prepara meu tapauer antes que eu peça, o que me deixa bastante lisonjeado. Tudo que é bom é fruto de um certo esforço, por menor que seja. No mínimo, estou ajudando a valorizar a cozinheira, garantindo meu rango no dia seguinte e evitando que comida se estrague. A pergunta é, portanto, um reconhecimento da minha carreira.

Sou, portanto, rei de alguma coisa – “Rei do Tapauer”. Com maiúsculas, pois.

Outro dia fomos ver umas filmagens antigas da família, em VHS, alguma festa distante no tempo. Em determinado momento, minha mãe estava com a bolsinha aberta, colocando uns salgadinhos para dentro, nas intocas. Foi pega em flagrante e deu aquele sorrisinho amarelo.

Ou seja, isso já vem numa espécie de linha sucessória, coisa da ancestralidade. Digamos que eu apenas dei um certo requinte, pelo fato de avisar. É, portanto, um reinado.

Podia até ser o “Príncipe da Tapauer”, mas ficaria um negócio brega pacas. O Magro Valadares soltaria logo um “Mais freeesco…”

Vou botar isso no meu Curriculum Lates – “Rei da Tapauer”.

Dezembro, por sinal, é um mês ótimo para o exercício do reinado. A noite de Natal, então, é uma coroação do ano.

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De alma lavada

19 de novembro de 2011, às 12:07h por Samarone Lima

Sempre gostei da frase  “Estou de alma lavada”.

Ela surge geralmente em ocasiões que envolvem uma volta por cima, uma alegria súbita, um júbilo por algo que atravancava os caminhos, como se forças espirituais estivessem juntas, para proporcional o belo, o bem, mesmo que momentâneo. No mínimo, dita após alguma “vingança mansa”, como diz sempre o mestre Ariano Suassuna.

Quem não fica de alma lavada quando alguma justiça é feita, quando alguém fala algo que gostaríamos muito de dizer? Ou quando alguém está em condições humilhantes, e súbito, mostra uma força redentora? Quando, no meio de alguma coleção de mediocridades, alguém diz sinceramente o que pensa, e é justo o que gostaríamos de dizer, mas não temos a oportunidade?

Lavar a alma. A frase, por si, é poética. Vai de encontro a outra que vem cheia de vícios, o ”lavar a burra”, tão bem analisada pelo nosso filósofo Ângelo Monteiro.

Na semana passada, participei de um debate para lá de quente na Fliporto, com os escritores Fernando Morais (que foi lançar o livo “Os úlltimos soldados da guerra fria”) e Leandro Narloch (com o “Guia politicamente incorreto da América Latina”). O tema era “América Latina – para além do bem e do mal”, com mediação de Vandeck Santiago.

Eu estava nervoso pacas. Já tinha participado de duas Fliporto, mas como mediador, acho mais fácil. Mediador, para mim, deve colocar os convidados em cena, aparecer pouquíssimo e ajudar nos debates. Mas agora, estava debatendo um tema delicado e complexo como Cuba, por conta do meu livro “Viagem ao Crepúsculo”. Antes de começar a mesa, conheci o Fernando e o Narloch. Como já conheço o Vandeck há tempos, pedi para ele me colocar para falar por último. Era o tempo de regular a respiração e me acalmar.

Vandeck, claro, fez de conta que era surdo e me deu a missão de abrir o debate.

Já que estava na chuva, o jeito era me molhar todo. Falei o que pensava, minhas impressões sobre a dura realidade do povo cubano, depois os outros entraram no debate. Aos poucos, fiquei mais tranquilo, vi que falava com meu sentimento, fruto do encontro com as pessoas que conheci, em Havana e no interior do país, entre o final de 2007 e janeiro de 2008. Na algibeira, levava a boneca da segunda edição do livro, que deveria ser lançada na Fliporto, pela Editora Paés, mas não deu tempo de ficar pronto. ”Boneca” é a última revisão do livro, antes da impressão final. 

A mesa não tinha unanimidade quase canto nenhum. Eu discordava da visão idealizada de Cuba, amparada especialmente em números, por parte do Morais, e tinha muitas críticas ao trabalho do Narloch, principalmente com o samba do crioulo doido que ele fazia com as fontes e os contextos históricos. O capítulo sobre Salvador Allende eu acho mesmo lamentável, de tão ruim. Concordava em alguns pontos quando o Morais discordava do Narloch. Morais e Narloch não se batiam em ponto algum. Era a famosa “arenga”. Morais concordava quando eu discordava do Narloch. Narloch concordava quando eu criticava a falta de liberdade em Cuba. 

Foi assim durante quase duas horas. Teve aplauso, vaia, aplauso de novo. De lá, fomos para a “Tenda dos Autores”, onde eles iriam autografar livros e eu explicaria para várias pessoas que o livro só ficaria pronto na semana seguinte. Fiz até uma gracinha, os amigos ajudaram a formar uma fila, como se fossem comprar meu livro, autografei para o “leitor desconhecido”, tiraram fotos para a produção da Fliporto, mas fui um dos únicos autores da Fliporto a não vender um livro sequer, durante todo o evento.

Foi quando apareceu uma mulher de estatura média, cabelos brancos, olhos intensos e um sorriso caloroso. Me deu as duas mãos, segurou-as com ternura e me agradeceu profundamente pelas coisas que eu tinha falado.

“Estou de alma lavada”, foi o que ela disse.

Estava visivelmente emocionada. Seus olhos tinham um brilho especial, esse brilho que tem algumas pessoas que levam no espírito uma fé na vida adicional, uma vivência intensa e pulsante, uma espécie de amor desenfreado pela existência.

Conversamos um bocado, ela queria comprar meu livro. Estava feliz porque falei de liberdade e tentei discutir sobre Cuba a partir da realidade, da vida cotidiana, dos impasses, sofrimentos, da falta de esperança que vi nos olhos dos aubando, não repetir os tão falados dados oficiais. Era o jeito que eu tinha colocado as coisas, sem apontar o dedos, apenas dizendo “eu vi e vivi isso”.

Olhei no seu crachá de convidada da Fliporto. Estava escrito seu nome.

Alice Ruiz.

Foi a minha vez de me emocionar. Eu só a conhecia como poeta e letrista, além de ter sido mulher do grande Paulo Leminsky. Uma grande poeta brasileira, de verdade. Puxa vida, e quanta humildade nas palavras, nos gestos. Ela contou que esteve em cuba nos anos 1990 e voltou de lá “destroçada”. Essa foi a definição. Eu voltei comovido com tanto sofrimento e falta de liberdade.

No dia seguinte, assisti sua mesa. Ao final, levei um dos poucos exemplares que ainda tenho, coloquei uma dedicatória, ela me deu um exemplar de “dois em um”, seu livro de poesias publicado em 2009 pela editora Iluminuras. Na dedicatória, o registro escrito do que dissera na manhã anterior.

“Samarone. Feliz com nosso encontro. Um beijo grato por “me lavar a alma”. Alice”.

Tirei uma foto sua de lembrança, peguei o email e desconfio que ganhei uma bela amiga.

Vai um poema da Alice Ruiz para compartilhar com vocês.

“tem os que passam

e tudo se passa

como passos já passados

 

tem os que partem

da pedra ao vidro

deixam tudo partido

 

e tem, ainda bem,

os que deixam

a vaga impressão

de ter ficado”

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Buchuda, livros para a biblioteca e outras emoções dominicais

7 de novembro de 2011, às 12:21h por Samarone Lima

Um bom domingo começa com a pelada no campinho de Seu Abdias, no Poço da Panela, a partir das 6h. Depois, café da manhã na casa do velho amigo Naná ou de Egildo, o maior pescador da história do rio Capibaribe. Lá pelas 11h, encostar em seu Vital, já banhado, para umas cervas estupidamente geladas (tradição da casa) e apreciar as rodadas de dominó. Tudo ficará perfeito se Seu Vital levar uma buchuda (perder de 6 x 0), porque a fera fica cuspindo fogo.

Melhor ainda se eu tiver uma câmera fotográfica meia sola no bolso, para registrar o momento em que Dom Vital estava perdendo de 5 x 0 e levou um lá e lô, e o placar subir para 8 x 0. Não vou ficar explicando as idiossincrasias do dominó em Pernambuco, porque vai deixar de ser uma crônica e vira um ensaio.

Ao levar a cipoada, Vital esbravejou:

“Vou deixar de jogar dominó! Agora vou ser é treinador!”

Fotografei o momento em que a superbuchuda foi para o caderno. Vejam ai.

 **

Lá pelas tantas, Naná recebe um telefonema. É alguém querendo doar livros para a Biblioteca Comunitária do Poço da Panela. Já conhecemos bem a história. Na maior parte das pessoas que invocam a famosa Kômbi do gorduchinho para “doar” livros é de gente que quer se livrar de tralhas em casa. Livro ruim, relatórios, caderno que os filhos já usaram, paradidáticos. As melhores doações para nossa biblioteca são as de pessoas que vão lá, com suas sacolinhas, levam preciosidades conhecem o espaço, trocam uma idéia com a gente, como o Rodrigo, que mora no Vila Pasárgada, la no Poço, que reúne doações com os vizinhos e de vez em quando chega lá com livros ótimos. 

Já pedimos a Naná para ele suspender esse tipo de “atendimento”, porque é um trabalho imenso, ele gasta combustível e ainda tem que levar seu funcionário, estranhamente chamado de “Gordinho”, quando é magro pacas. Naná acha que é uma falta de cortesia não ir buscar.

“Doação. Um cara lá do Vasco da Gama”.

Fiquei pensando. Domingo de manhã, o cara está no boteco, com os amigos, o dominó corre solto, a cerveja foi aberta agorinha, ele atende um telefonema para buscar livros no Vasco da Gama, zona norte do Recife. Só sendo doido.

“Bora comigo?”

Fiquei pensando. Se o lugar for ruim de chegar? Se for muito livro? Resolvo acompanhar meu amigo. Já vivi tanta emoção nas Kombis de Naná, que daria para publicar um livro.

Vinte minutos depois, estamos na Kombi, rumo ao Vasco. Naná, eu e o Gordinho. Vários telefonemas vão indicando o local. Como a zona norte é repleta de morros, Naná pergunta se tem escada.

“Uns dois degraus”, diz o sujeito.

É fria, penso comigo.

Rodamos por Nova Descoberta, chegamos ao Vasco (ou foi o contrário, não lembro). Ao dobrar numa viela, a Kombi emperra, tem que dar ré. A marcha está com problemas, diz Naná. Descemos para empurrar. Uns camaradas ajudaram. A Kombi finalmente sai. Chegamos à viela. Naná liga, diz que estamos no local indicado. Lá de cima, o sujeito acena.

Quando vi o tamanho da escadaria, cansei mais do que na pelada da manhã, quando tive que marcar Renato, de 20 anos.

Naná foi estacionar a Kombi, subi com o gordinho. O sujeito nos esperava com um copo de cerveja na mão. Olhei as sacolas de livros: 90% era livro didático. Acho que já recebemos uns dois mil livros didáticos na biblioteca. Queremos é romance, poesia, crônica, livros infantis, infanto-juvenis etc. Livro didático a escola pública já dá, de graça.

Comecei a falar que estávamos fazendo uma pequena seleção, por falta de espaço na biblioteca, quando a sogra dele apareceu, aflita.

“Graças ao bom Deus vocês chegaram, orei a manhã inteira para levarem isso daqui, minha filha está que não aguenta com essas coisas dentro de casa”.

Em nenhum momento, ela usou a palavra “livro”.

“Olhe, é porque estamos com problema de espaço, preciso fazer uma seleção…”

“Podem levar tudo, meu filho. Não vejo a hora de desocupar a sala, ainda bem que vocês vieram”.

Gordinho foi pegando os sacos, vi que perderia tempo tentando convencer a levar só uma parte, fui pegando outros . Nos dois últimos, o camarada botou na calçada mesmo e foi fechando o portão, quando pedi para tirar uma foto.

Se eu conseguir postar, a imagem lá de cima é esta abaixo.

Voltamos. Na metade do caminho, o bagageiro abre, caem duas sacolas de livro em plena Nova Descoberta. Gordinho desce para recolher, eu desço para ajudar. Quando entramos no carro, outra bronca. A porta da Kombi, que está sendo consertada, saiu do lugar, está quase caindo na rua. Naná desce com uma chave de fenda para recolocar. Dá vontade de dizer um puta que o pariu ou coisa pior, mas deu vontade foi de rir mesmo, dessa poliesculhambose que a vida é, às vezes, ou quase sempre.

São 13h13, estamos num sol de queimar o juízo, o certo seria estar na praia, tomando umas e olhando se tem tubarão por perto. Estou defronte ao cabeleireiro “Excelente Hair”, onde as mulheres fazem chapinha e todos nos olham sem entender direito. Do outro lado, na borracharia “Monte Sinai”, rola um brega onde o cara é o fodão e a menininha novinha e dominada, acha ele o fodão, como quase todo brega. A cachaça é bebida com rara sede. Ao lado, o “Ponto de Observação Missão Evangélica Pentecoste”. Não sei o que observavam. Como diz um amigo meu, “é muita informação”.

A essa altura, nobre leitor, você já deve estar cansado. Mas falta a última parte. Deixar os livros na biblioteca, já que Naná, mais tarde, tem que levar um pessoal do Poço para um enterro.

Voltamos, descemos todas as sacolas e botamos no “purgatório”, que é onde colocamos as doações duvidosas, para minha avaliação. Só uma pequena parte vai para a biblioteca.

Terminamos tudo, dou uma ajuda a Gordinho, fechamos a biblioteca. Moura chega. Está fazendo um serviço de pedreiro numa casa do Poço, nos chama para uma cerveja. Vamos lá, conversamos, depois voltamos para Seu Vital.

Sentamos, pego uma cerva, estamos suados e cansados. Bebemos uns goles, lembro que estou com três lotes da rifa para ajudar nas contas da biblioteca, aproveito para vender com a turma do domingo.

Lá pelas tantas, o telefone de Naná toca novamente.

“Sim, já está marcado, pode deixar, três horas saímos”.

É mais trabalho, já sei.

“É o enterro de uma mulher, parente do pessoal daqui do Poço. Ela mora em Camaragibe, teve um tiroteio ontem à noite na frente da casa dela, um cara deu uma facada no outro, ela viu tudo”, diz.

“Ela foi vítima de bala perdida? É muito azar”, comento.

“Não, ela teve um susto tão grande, que morreu do coração”.

Como diz um amigo meu, é muita emoção.

ps. tentei postar as fotos, mas não consegui. Tentarei chamar meu pronto-socorro para urgências e fraturas na Internet – o amigo Dimas.

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O dia

4 de novembro de 2011, às 15:23h por Samarone Lima

Dia 31 de outubro, foi celebrado o “Dia D”, em homenagem ao Carlos Drummond de Andrade.

Fiz um poema em homenagem ao mestre e compartilho.

**

O dia

 Drummond, agora tens um dia.

A celebração começa em tua estátua
taciturna e inquieta
para onde fluem desabafos, tristezas, fotos.

A celebração se espalha por capitais, palafitas, memoriais,
mexe com os ferros de Itabira
dissolve teus nós tão silenciosos,
tão mineiros
tão meus.

Agora deste para renascer
como uma tarde observada em silêncio.
Teus poemas alcançam a moça que amanhã casa
o homem que soube ontem
do nódulo na garganta
e já olha mais manso
para o chão.

Alimentas os animais feridos,
os homens feridos
o Drummond ferido.

Amanhã passaremos às lembranças.

Ontem, Drummond, estiveste nas casas, nos botecos,
nos trens que sequer existem
Nos tísicos que já não morrem de poesia.

Pego minha caneta à procura de uma palavra
para teu dia
Ela está quente à sombra
queima meus dedos
meus segredos
queima o meu dia também.

Recife, 31/X/2011
Ao Carlos.

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