Rei de alguma coisa
Samarone Lima
Desde que cheguei ao Recife, naquele distante 1987, notei algo estranho (ou diferente). Era rei para tudo que era lado. Rei disso, rei daquilo. Com o tempo, fui viajando pelo estado, fiz (e faço) trabalhos em que estou constantemente na estrada, percebi que não era coisa só da capital. Em tudo que é cidade de Pernambuco tem um rei de alguma coisa. Dependendo do tamanho da população, é um reinado atrás do outro.
Semana passada, voltando de Salgueiro, paramos para comprar queijo, ovos de galinha de capoeira e mais essas coisas que são boas, por preços mais camaradas. Fica em Cachoeirinha. O sujeito que nos atende já tinha providenciado a plaquinha à entrada de seu mini-estabelecimento os avisos: “Rei da tilápia sem espinha”, ao lado de “Rei da Carne de Sol”.
Eu já tinha combinado comigo que iria tirar fotos desses lugares, para mostrar aos leitores, mas isso é de uma fajutice tremenda. Se tirar a foto, é bem provável que demore muitos dias para passar para o computador. Depois, vou perder várias horas tentando formatar foto, não conseguirei e terei que solicitar a ajuda do meu amigo Dimas Lins, criador desta página com Anízio Silva. Já devo uns 322 favores ao Dimas, não quero me complicar.
Não é preciso nem foto para saber que o pernambucano gosta e é muito de reis. A coxinha mais famosa do estado é chamada de… “Rei da Coxinha”, claro.
Basta olhar para o comércio, em qualquer cidade. Tem “Rei da Picanha”, “Rei da Autopeça”, “Rei do Bode”, “Rei disso”, “Rei da carne-de-sol”, “Rei daquilo”. Nosso melhor cantor de dores de cotovelo e amores é Reginaldo Rossi, chamado carinhosamente de “Reginaldo…. Rei”.
Pois bem. Tirando os seis anos que morei em São Paulo, já tenho quase duas décadas de Recife. Ontem, num momento de maior metafísica espiritual, descobri algo que me deixou exasperado – eu não era rei de nada.
Sou conhecido por farrapar nos encontros sociais, como casamentos, batizados, noivados, aniversários, batismos em geral, conhecidíssimo pela bagunça em casa, na minha sala de trabalho, lembrado sempre por esquecer coisas nos lugares os mais diversos, mas nunca fui citado como o “Rei da farrapagem”, o “Rei da desorganização”, “Rei do Esquecimento” ou coisa do tipo.
Cascavilhei na minha memória, cofiei bastante a barba, e depois de umas duas horas na rede, cheguei ao meu reinado.
Sou o rei da tapauer. Sei que se escreve tupperware, em homenagem ao seu inventor, o digníssimo Earl Tupper, nascido nos Estados Unidos. Não sei o que significa “tupper”, em inglês, e não altera nada se significar “vácuo”, “vasilha” ou apenas o nome da família do Earl
Quando vou a aniversários, batizados, noivado, batismos em geral, tenho uma ocupação religiosa e canônica – sempre, da metade para o fim do evento, vou em busca da minha tapauer.
Uma vez, no aniversário do meu amigo Serjão, começamos a nos esbaldar num carneiro que fora preparado com vinho, era mesmo um manjar. Lá pelas tantas, comecei a maquinar para conseguir algo que já faz parte do direito adquirido por mim, ao longo de muitos anos – minha tapauer.
Fui à cozinha umas três vezes, descobri a cozinheira, fiz elogios mil. Na terceira, a pergunta fatal:
“Será que dava para levar um pouquinho para minha tia avó?”
Não era mentira. Na época, a saudosa tia Flocely estava bem viva. Uma parte era para ela mesmo.
A cozinheira encontrou uma solução simples para me dar uma boa quantidade do carneiro. Colocou dentro de uma lata vazia (não diga) de Leite Ninho, improvisada na hora.
Saí de lá orgulhosíssimo, deixei no congelador, para comer só no domingo seguinte. Quando abri o congelador, no dia agendado, não tinha nem a lembrança da lata. Rosa, que trabalhava com tia, achou que era comida para o nosso querido vira-latas, Bam Bam, esquentou e botou para o bichinho, que certamente teve o melhor rango de sua vida.
Mas este fato desagradável é uma pedrinha de nada, comparado à minha carreira de tapauezeiro.
Ao contrário do que muita gente pensa, este comportamento um pouco repetitivo e às vezes inoportuno dificilmente pega mal. Muito pelo contrário. Vários donos de festa que eu mal conhecia passaram a me olhar até com uma certa ternura, quando eu perguntei se poderia levar um pedaço do bolo, do peixe, algo suculento que não lembro agora (ah, sim os sandubas da casa de Lucila), ”numa tapauerzinha”.
“Ahnn, mas é claro, não sabia que você tinha gostado tanto da comida…” – respondem, invariavelmente, os anfitriões.
Com minha persistência, fui ganhando reconhecimento. Já tem gente que prepara meu tapauer antes que eu peça, o que me deixa bastante lisonjeado. Tudo que é bom é fruto de um certo esforço, por menor que seja. No mínimo, estou ajudando a valorizar a cozinheira, garantindo meu rango no dia seguinte e evitando que comida se estrague. A pergunta é, portanto, um reconhecimento da minha carreira.
Sou, portanto, rei de alguma coisa – “Rei do Tapauer”. Com maiúsculas, pois.
Outro dia fomos ver umas filmagens antigas da família, em VHS, alguma festa distante no tempo. Em determinado momento, minha mãe estava com a bolsinha aberta, colocando uns salgadinhos para dentro, nas intocas. Foi pega em flagrante e deu aquele sorrisinho amarelo.
Ou seja, isso já vem numa espécie de linha sucessória, coisa da ancestralidade. Digamos que eu apenas dei um certo requinte, pelo fato de avisar. É, portanto, um reinado.
Podia até ser o “Príncipe da Tapauer”, mas ficaria um negócio brega pacas. O Magro Valadares soltaria logo um “Mais freeesco…”
Vou botar isso no meu Curriculum Lates – “Rei da Tapauer”.
Dezembro, por sinal, é um mês ótimo para o exercício do reinado. A noite de Natal, então, é uma coroação do ano.
Postado em Crônicas |
15 Comentários »



