Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Recomendações inúteis para o Natal e Réveillon

19 de dezembro de 2011, às 14:28h por Samarone Lima

Amigos leitores e não leitores, chegou o Natal, semana que vem tem o ano-novo e mais uma vez não mandei cartão para ninguém, não comprei presentes, faltei já a um par de confraternizações. Mais uma vez, não irei ver fogos na beira da praia de Boa Viagem, apesar da vaga simpatia pelo Zeca Pagodinho, não farei contagem regressiva e nem acharei que algo vai mudar muito, entre o dia 31 deste mês para o primeiro do que se avizinha. Apenas vou ter que usar outra agenda e ano que vem completo 43. Acho inclusive que ficaria mais fácil uma agenda com os dias ao longo do ano, sem divisões. Hoje é dia o 79 de 2012.

Para o ano que vem, espero apenas que todos possam trabalhar menos. Aliás, é minha única recomendação. Nada de desejar paz, sucesso, prosperidade. Se for possível ganhar o mesmo salário trabalhando menos, acho que a vida vai ficar melhor, vai dar para ler algumas páginas de um bom livro antes de sair para o trabalho, levar o filho no colégio e conversar com o professor dele, tomar um sorvete olhando a paisagem. Ou seja, vai sobrar tempo para algum sucesso, porque o sujeito pode alguma idéia legal enquanto come a casquinha do sorvete, e com a idéia bem aproveitada, a prosperidade.

Não sei quem inventou essa ideologia toda de que o trabalho dignifica o homem (que acabou colando), mas precisava ser oito horas por dia para ser digno? Eu acho que trabalho muito faz é danificar o homem, isso sim.

Na virada do ano, desejo que ninguém por perto bote aquela musiquinha “Este ano/quero paz no meu coração/Quem quiser ter um amigo/Que me dê a mão”. É que já enchi a paciência com ela. Mas quem gosta muito, pode botar à vontade, até porque não tenho sugestão nenhuma para botar no lugar. O silêncio também dá uma paz no coração danada. Talvez seja uma sugestão. É inútil, mas é.

Para o ano que vem, espero que todos possam vadiar mais, para depois não ficar escutando aquela música horrível do Titãs que fala dos mais e menos da vida (devia ter trabalhado menos, ter visto o sol nascer, ter se importando menos com problemas pequenos etc), que se chama, por sinal, “Epitáfio”. Aquele negócio de que o acaso vai me proteger eu também acho brega, igual a “quem quiser ter um amigo/que me dê a mão”. Pior que as duas, só a Simone rasgando com o “Então é Natal…” Mas quem sou eu para falar de brega. Outro dia fui flagrado no youtube jogado aos pés do Odair José, aqui no Bairro do Recife, nos primeiros acordes de “Olha/a primeira vez que estive aqui/Foi só para me distrair…”

E não façam uma listinha de promessas para o ano que vem. Não sei o que é, parece que  muita gente faz os mesmos pedidos na mesma época, o céu fica congestionado. Melhor deixar para depois do Carnaval, porque beber menos, cortar o cigarro são mais adequeados para o período da Quaresma.

Da minha parte, prometo continuar amigo dos amigos, conhecer uns novos  e farrapar menos aos eventos sociais, como batizados, casamentos, aniversários, festas de Réveillon etc. Tentarei também me aproximar dos eventuais inimigos, sob o argumento de que “quem quiser ter um amigo/que me dê a mão”. Também prometo dar menos atenção ao futebol, em detrimento ao teatro, cinema, dança, concertos etc. Começarei cortando os comerciais. Na hora dos comerciais, vou ler algo, aguar as plantas, escutar uma sinfonia, dar comida para o gato.

Para o mundo, espero que os PIBs sejam menores. As florestas, rios, matas, animais, plantas, vão agradecer. Pulmões, ar, montanhas, neve, vacas leiteiras, velhinhos, cavalos, guachupés e soslaios não menos.

Ou seja, minhas recomendações são inteiramente inúteis.

Vou aproveitar para separar uns dias para vadiar. Até 2012.

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Brincar

9 de dezembro de 2011, às 12:36h por Samarone Lima

Confesso que minha infância não foi lá das mais felizes. Quem assistir ao filme “A árvore da vida” vai entender. Fora as problemáticas familiares, que tratei em diferentes terapias, tenho meus defeitos de origem. Nunca gostei muito de desenho animado, jamais colecionei gibi e não me lembro desse negócio ótimo, hoje em dia, que é a literatura infantil e infanto-juvenil. Gostava mesmo era de jogar bola, de viajar e de ficar quieto. Aliás, até hoje gosto das mesmas coisas.

Acho que é por isso que gosto tanto de brincar. Cá por dentro tem uma criança que não morreu e sempre me salva, nos momentos mais difíceis.

Em casa, no trabalho, com os amigos, sempre que posso, faço minhas gracinhas. Mas não vale contar piadas ou alguma história divertida. Nisso eu sou declaradamente péssimo. No Réveillon de 2005, por exemplo, fiz minha lista de coisa para 2006 e consta lá: Não contar piadas. Nas duas ou três vezes que tentei, me dei mal. Sou melhor mesmo no improviso.

Teve uma época em que eu andava sempre com um nariz de palhaço no bolso ou na mochila. Fiz um sucesso enorme com a criançada. Acabei perdendo, vou comprar outro. Ainda sonho em ser palhaço de verdade. Já tem até nome: Girafa. Para mim, a alegria é um convite à esperança. Desconfio que a esperança, com um sorriso ou uma graça, vem pra perto.

Na época em que trabalhei nas redações de jornais, era muito divertido. Não sei como é hoje, já que o cara para ser jornalista tem que ter msn, orkut, facebook, twitter, ficar zanzando nas tais redes sociais - não sei se dá tempo ou vontade de brincar -, mas em todas as redações que trabalhei, brincar era o mandamento número um do manual. Ria-se muito, entre uma matéria e outra. Havia uma saudável mistura de velha guarda e gente mais jovem, fora as estagiárias, sempre com vocação para musas.

No Diário de Pernambuco, Vieira não podia me ver com uma camisa nova, que saia do seu birô, encostava junto de mim, botava a mão no meu ombro e começava um longo discurso, para toda a redação ouvir:

“Quem era Samarone… até outro dia, usava uma sandália havaiana de uma cor  e de outra, passava uma fome braba na Casa do Estudante, chegava aqui com uma camiseta escrita “love” faltando o “v”, agora está aí…de camisa nova, comprada no Ceará, em dez prestações, mal fala com a gente…”

Eram uns cinco minutos de tiração de onda. Graça Prado, quando a redação estava no silêncio absoluto, puxava uma composição própria:

“Rrrrola, minha lapa de rrrrrola…”

Nos bons tempos do Diário Popular, Josmar, o “Valente”, era o camarada que brincava o tempo inteiro comigo. Às vezes, fazíamos uma bolinha de papel com jornais velhos e começávamos a bater bola em plena redação. Certa vez, ele passou na frente de três jornalistas da antiga guarda, entre eles o Odilon, e soltou a pérola:

“Olha aí, a Torcida Jovem do Santos, qua qua qua…”

Além de gostar de brincar, sou bastante distraído, e sempre alguma lerdeza minha caía no ouvido de todo mundo. Uma vez, entrevistando uma delegada por telefone, ela perguntou de onde eu era, respondi:

“Do Ceará”

Mas ela queria saber mesmo de onde eu era profissionalmente.

“Ah, do Diário Popular”.

Josmar, o “Valente”, estava ao lado e rachou o bico, espalhou a história para toda a redação, e fiquei conhecido como “o rapaz do Ceará”.

Com o passar do tempo, fui descobrindo que nós, os brincalhões, temos afinidades. Eu adoro gente bem humorada, que ri e faz rir. Nisso, tenho sorte. Meu chefe é um mestre em povoar o mundo de risos, o velho e vom Ariano. É uma bênção trabalhar com ele, porque o sujeito ri e aprende muito.

Por outro lado, tenho dificuldades imensas de conviver com a figura do “sério”. Aquela pessoa que se acha séria, que trata a vida como uma coisa séria, que seu problema é mais sério do que o dos outros, que a educação do filho é uma coisa séria,  essa coleção de seriedades que resultam numa bela doença ou numa vida chata pacas. Os malas-sem-alça geralmente são sérios do sapato ao cocoruto. Se você tomar um belo porre e fizer lá suas besteirinhas, o sério, no dia seguinte, vem com a pérola:

“Mas você ontem, heim?”

Uma frase que acho de uma infelicidade incrível é “eu sou um homem sério”. Não é à toa que muito político adora usar jargões como “seriedade e competência”, “seriedade e trabalho”, como se fosse a maior das virtudes, a seriedade. E não dá para ser competente e trabalhar bem com espaços para a brincadeira e o riso? Eu, de fato, não sou um homem sério.

Também gosto dos distraídos. É afinidade eletiva. Sobre isso, escreverei outro dia. Tenho uma coleção enorme de distrações e amigos bem distraídos também. São os mais legais. Um dia, esbarrei numa frase linda do Paulo Leminsky, que resumiu tudo e me facilitou a vida:

“Distraídos venceremos”.

Acordei com esse tema hoje desde cedo e vim matutando escrever sobre o brincar na vida, quando vi agora um email convocando para uma passeata de palhaços amanhã, às 16h, saindo da praça Maciel Pinheiro, nas comemorações do Dia do Palhaço.

Vou lá, botar Girafa para andar.

***

E reparei que o mal mais se vê que se sente, e a alegria mais se sente do que se vê”.

(Fernando Pessoa, “Livro do Desassossego”)

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Natal com livros

1 de dezembro de 2011, às 15:57h por Samarone Lima

Desde que inauguramos uma biblioteca comunitária no Poço da Panela, no final de abril deste ano, temos recebido inúmeras ajudas. Vamos chegando ao final do ano com as contas em dia, um ótimo acervo e um bom número de frequentadores, graças a muitas pessoas que fizeram doações, ajudaram financeiramente, deram dicas, passaram por lá. Isso sem falar na dedicação de Ninha, que passa o dia dentro cuidando dos livros e da meninada. De segunda a sexta, porque no sábado eu assumo, exceto em casos de viagem.

Em nossa reunião semanal, ela gosta de comentar coisas do tipo “fulano começou a vir”; “fulano está se chegando”; “estão pedindo mais rodas de leitura” etc. Naná é o homem de resolver todos os problemas, fazer o meio de campo, organizar passeios e animar todos.

“Devagar nós vamos chegar lá”, diz sempre. “Não pode é a gente querer fazer o que não pode, depois ficar sem ter como seguir”.

Por ai vamos.

Há algumas semanas, recebi o email de um amigo, Sirley. Trabalhamos juntos numa escola, agora está fazendo mestrado em Antropologia, acho antropólogo uma profissão linda, ainda vou fazer o curso só para ficar mais sabido. Até hoje, não conheci um antropólogo burro ou chato.

Sirley estava fazendo uma arrecadação de livros com amigos, para nossa biblioteca, e fazia umas perguntas fantásticas. Uma delas era: Você daria este livro para seu filho? As outras três não lembro. Procurei no meu gmail o email dele com as perguntas, mas complicou tudo, deixemos pra lá. O fato é que ele já reuniu uma  boa quantidade de livros, fomos arrumando as idéias, até que decidimos fazer a entrega dia 17 de dezembro, um sábado. Vai ser nosso Natal Literário. Cada menino, adolescente, até os (poucos) adultos que frequentam a biblioteca, vão ganhar um livro. Detalhe: um livro bom e bonito.

No dia da festa, teremos também coisas legais para movimentar a biblioteca: contadores de histórias, brincadeiras, pipoca, picolé etc. Nada daquele gorducho chato do Papai Noel, já temos um gorducho de verdade, Naná, que é um Papai Noel o ano inteiro.

Hoje, bastou recebi o telefonema do Ricardo Melo, que foi diretor na mesma escola que Sirley ensinou e que eu ensinei. Tinha arrecadado um bocado de livros, numa ação do Sindicato dos Jornalistas, se entendi bem, e queria fazer a partilha. Mas será o Benedito? – foi o que pensei. Na verdade, nunca soube de onde surgiu esta frase. Falei da festa do dia 17, ele ficou animadíssimo, eu não menos.

Meia hora depois, recebo um email. Esse eu vou transcrever, sem citar a fonte.

**

“Olá Samarone,

 Curto seu blog e já nos falamos pessoalmente.

Bem, a questão é que eu e alguns amigos estamos fazendo uma campanha para arrecadar bons livros de literatura infantil e juvenil para a biblioteca do Poço.

Resolvemos que nas confraternizações , não teremos  amigos secretos e sim compraremos livros e vamos doar para  a biblioteca do Poço.

Acontece, que em um dos grupos tem duas pessoas que trabalham com contação de histórias e queriam fazer um trabalho assim  na biblioteca.

 Algumas questões:

- É  possível pessoas voluntárias   realizarem a  atividade lá?

- Seria melhor agendarmos uma data para entrega dos livros (digo, no caso de vcs estarem programando algumas outras atividades por lá)?

O grupo não é grande, mas muito motivado. Esperamos que a campanha cresça e  quem sabe chegar por aí com muitos bons livros.

Um grande abraço e parabéns a vcs pela iniciativa da biblioteca. 

Estou no aguardo”.

**

Nos falamos há pouco por telefone. Se tudo caminhar bem, teremos contadores de histórias, leitores, livros, vai ser uma festa e tanto. Achei uma coisa muito bonita, essa de trocar o presente do amigo secreto com pessoas que já se conhecem, por um presente declarado, para pessoas (ainda) desconhecidas.

Hoje à noitinha, terei uma reunião com Naná e Ninha, para encaminharmos as coisas do final de ano na biblioteca. Os dois vão ficar felizes da vida.

Mas de uma coisa eu já tenho a leve suspeita – vamos modestamente colocando os livros na pauta do tresloucando consumismo do Natal.

A história do nascimento do Cristo, desconfio, só chegou até os tempos atuais porque foram contadas, recontadas, e acabaram todas em um livro, a Bíblia.

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