Recomendações inúteis para o Natal e Réveillon
Samarone Lima
Amigos leitores e não leitores, chegou o Natal, semana que vem tem o ano-novo e mais uma vez não mandei cartão para ninguém, não comprei presentes, faltei já a um par de confraternizações. Mais uma vez, não irei ver fogos na beira da praia de Boa Viagem, apesar da vaga simpatia pelo Zeca Pagodinho, não farei contagem regressiva e nem acharei que algo vai mudar muito, entre o dia 31 deste mês para o primeiro do que se avizinha. Apenas vou ter que usar outra agenda e ano que vem completo 43. Acho inclusive que ficaria mais fácil uma agenda com os dias ao longo do ano, sem divisões. Hoje é dia o 79 de 2012.
Para o ano que vem, espero apenas que todos possam trabalhar menos. Aliás, é minha única recomendação. Nada de desejar paz, sucesso, prosperidade. Se for possível ganhar o mesmo salário trabalhando menos, acho que a vida vai ficar melhor, vai dar para ler algumas páginas de um bom livro antes de sair para o trabalho, levar o filho no colégio e conversar com o professor dele, tomar um sorvete olhando a paisagem. Ou seja, vai sobrar tempo para algum sucesso, porque o sujeito pode alguma idéia legal enquanto come a casquinha do sorvete, e com a idéia bem aproveitada, a prosperidade.
Não sei quem inventou essa ideologia toda de que o trabalho dignifica o homem (que acabou colando), mas precisava ser oito horas por dia para ser digno? Eu acho que trabalho muito faz é danificar o homem, isso sim.
Na virada do ano, desejo que ninguém por perto bote aquela musiquinha “Este ano/quero paz no meu coração/Quem quiser ter um amigo/Que me dê a mão”. É que já enchi a paciência com ela. Mas quem gosta muito, pode botar à vontade, até porque não tenho sugestão nenhuma para botar no lugar. O silêncio também dá uma paz no coração danada. Talvez seja uma sugestão. É inútil, mas é.
Para o ano que vem, espero que todos possam vadiar mais, para depois não ficar escutando aquela música horrível do Titãs que fala dos mais e menos da vida (devia ter trabalhado menos, ter visto o sol nascer, ter se importando menos com problemas pequenos etc), que se chama, por sinal, “Epitáfio”. Aquele negócio de que o acaso vai me proteger eu também acho brega, igual a “quem quiser ter um amigo/que me dê a mão”. Pior que as duas, só a Simone rasgando com o “Então é Natal…” Mas quem sou eu para falar de brega. Outro dia fui flagrado no youtube jogado aos pés do Odair José, aqui no Bairro do Recife, nos primeiros acordes de “Olha/a primeira vez que estive aqui/Foi só para me distrair…”
E não façam uma listinha de promessas para o ano que vem. Não sei o que é, parece que muita gente faz os mesmos pedidos na mesma época, o céu fica congestionado. Melhor deixar para depois do Carnaval, porque beber menos, cortar o cigarro são mais adequeados para o período da Quaresma.
Da minha parte, prometo continuar amigo dos amigos, conhecer uns novos e farrapar menos aos eventos sociais, como batizados, casamentos, aniversários, festas de Réveillon etc. Tentarei também me aproximar dos eventuais inimigos, sob o argumento de que “quem quiser ter um amigo/que me dê a mão”. Também prometo dar menos atenção ao futebol, em detrimento ao teatro, cinema, dança, concertos etc. Começarei cortando os comerciais. Na hora dos comerciais, vou ler algo, aguar as plantas, escutar uma sinfonia, dar comida para o gato.
Para o mundo, espero que os PIBs sejam menores. As florestas, rios, matas, animais, plantas, vão agradecer. Pulmões, ar, montanhas, neve, vacas leiteiras, velhinhos, cavalos, guachupés e soslaios não menos.
Ou seja, minhas recomendações são inteiramente inúteis.
Vou aproveitar para separar uns dias para vadiar. Até 2012.
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