Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Bendições

5 de janeiro de 2012, às 16:26h por Samarone Lima

Bendições

Aprendi com minha avó Zeneuda os mistérios da bênção.

Ela se benzia quando passava defronte a alguma igreja e em algumas situações que não lembro bem, lugares ou situações que lhe diziam algo. Se abençoava. Coisas secretas. Seus mistérios miúdos. Todos temos esses detalhes mais serenos.

Há muitos anos me benzo. É um agradecer inesperado, que desatordoa o dia. Lugares, situações, lembranças, que me invocam a bênção.

Faço isso sempre que passo defronte à Casa do Estudante Universitário, na UFPE. Ali vivi quatro anos fundamentais da minha vida. O dinheiro público me deu, com todas as limitações e infinitas velhacarias da reitoria, um lugar para viver, uma cama, um armário, uma bancada e lugar para me alimentar.

Entrei no apartamento 312 com 18 anos, saí de lá com 22, para cuidar da vida. Foram anos preciosos de formação, estudo, dificuldades, aprendizados. Aquele lugar, para mim, sempre será abençoado. Sem a Casa, batizada singelamente de “CEU”, eu teria que trabalhar em inúmeros empregos-porcaria para me virar, sobreviver. Tive tempo para ficar infinitas horas na Biblioteca Central, feito uma catita cearense, lendo, futucando livros e fazendo anotações. Durante quatro anos, vivi dentro de um Campus Universitário. Amém.

Me benzo também quando passo pela avenida 17 de agosto, defronte a um colégio estadual, um lugar específico que ficou gravado em mim como um espanto. A fração de segundos em que cochilei, a bordo do meu velho Fusca 1968 azul e acordei com um barulho. O barulho de uma batida em outro carro. É como uma pedrada.

No cochilo, forças misteriosas puxaram o volante para a esquerda (um pneu mal calibrado, quem sabe, mas prefiro as forças misteriosas) e me salvei do pior. Se o carro tivesse seguido para o lado direito, acertaria uma parada de ônibus, cheia de alunos.

Ninguém saiu ferido, tive um pequeno corte na testa e estremeço só de pensar no que aquilo poderia ter provocado na vida dos outros e na minha. Me benzo sempre que passo ali. Digo obrigado a alguém sem nome, ao destino ou à sorte. Não feri, não matei, não maltratei. Isso é uma bênção.

Me benzo quando durmo. Me benzo quando acordo, porque tudo, salvo engano, continua intacto, e cada dia, para mim, é um mistério.

Minha avó deve ter passado essas bênçãos para minha mãe, Dona Ermira, que vive ocupada em olhar o lado bom das pessoas. Se alguém não presta, ela é capaz de revirar ao avesso, cutucar, mexer, até que encontra uma fresta de bondade. Ali está seu país, sua quimera, sua fonte. Se alguém lhe faz mal, chora de tristeza, fica com pena da pessoa e já tem na algibeira o perdão, escrito em letra de forma. Sempre foi assim, desde que me entendo por gente, quando era menino.

A vida é assim, cheia de bênçãos e mistérios. Com todos os males, dramas, dores, injustiças, bendita seja.

Postado em Crônicas | 5 Comentários »

5 Comentários

  1. Eduardo Disse:

    Amém, Samarone, amém! Que possamos ver sempe o lado bom da vida, pois ele é infinito, se tivermos olhos para olhar. Quanto ás tristezas, quem sabe um dia, aprendamos a agradecer também.

  2. Márcia Silva Disse:

    BENDITA SERÁ!!!

  3. lea Disse:

    Eu não me benzo, não sei nem a sequencia, se é pra direita ou esquerda mas, em compensação, aprendi com minha avó de Carpina a rezar e tirar mal olhado. E também sei se é olhado de homem ou de mulher. Não é incrível?

    Parece que todos nós temos algo de fé, ou de espiritualidade ou mesmo superstições né?

  4. dançadeira Disse:

    Salve Ermira!
    Sim, aleluias…

  5. Lola Nicolas Disse:

    Sama: li Viagem ao Crepúsculo. E com a bênção do céu,você continua com a mão boa pra caraca e com um olhar seletivo. Mostra-nos a Cuba que os intelectos escondem por baixo de um edredon de sofrimento. Parabéns, meu caro!

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