Tem praga que é triste
Samarone Lima
Isso aconteceu há alguns anos, quando resolvi comprar um Fusca, com a ajuda do meu velho e inseparável amigo Naná.
Fiquei usando minha lupa nos anúncios de jornais, visitei inúmeros donos de carro que ofereciam Fuscas horríveis, deformados, com aqueles pneus talalarga de péssimo gosto, equipamento de som, vidro fumê, essas besteiradas toda, com o papo de que “é quase tudo original”.
Encontramos um azulzinho lindo, ano 1968, até as calotas eram originais, o parachoque de ferro fundido, brilhava pacas. Tive muitos bons momentos e aventuras neste Fusca, mas algo me encafifava.
Bastava eu chegar no bar de Seu Vital, no Poço da Panela, que Sibigu imediatamente soltava o comentário:
“Este carro não te pertence, Xaman (ele e seu irmão, Jorge Bandeira, só me chamam assim, Xaman). Este carro é meu. Você está usando somente por um tempo, mas o carro é meu, fique sabendo disso”.
Depois de uma baforada em seu cigarro, continuava.
“Aliás, você sabe disso, mas vou perdoá-lo por enquanto pela ofensa que está cometendo, essa usurpação. Porque isso, Xaman, é uma usurpação”.
Eu achava engraçado, porque comprei o carro numa demorada negociação. Bastou Naná saber que o dono do carro era torcedor do Santa Cruz para, para usar nosso amor ao clube na negociação. Passou a rememorar gols históricos, títulos, escalações, lances improváveis, e o dono do carro foi pegando ar, se animando, contando suas histórias, onde assistia jogo no Arruda, o resultado é que ganhamos um belo desconto no preço final, aquelas coisas que o cara só vai perceber a merda que fez no dia seguinte.
Ma sempre que eu encontrava Sibigu, a mesma ladainha.
“Estás usando o meu carro, heim? Cuidado com ele”.
Até que um dia, espatifei meu Fusca num Honda Civick. Foi uma coisa triste, o acidente. O meu azulzinho ficou meses numa oficina, numa época em que eu estava mais duro que meio fio. Um dia, o dono deu a porra e despejou meu azulzinho na rua, acabei vendendo-o para o dono de uma concessionária por uma merreca. Poxa, hoje estou usando mesmo o linguajar popular, heim? Mas vamos em frente.
Soube por alto que o sujeito gastou um bom dinheiro e deixou o azulzinho novo em folha. Mas não fui atrás do carro, porque minha tia estava doente no Cabo, e não dava para ficar atrás de Fusca com a tia cheia de broncas.
O tempo passou, saí do Poço, não teve mais Fusca nem nada, morei três anos no Cabo de Santo Agostinho, minha tia morreu, casei, vim morar na rua da Aurora. Nas vezes em que vou a Seu Vital, não encontro mais Sibigu. Encontro seu irmão, Jorge Bandeira. São as circunstâncias da vida e da geografia das pessoas.
Semana passada, parei naquele Pescadero, na entrada do Poço da Panela, para olhar uns vinhos. Quando desci do carro vi um Fusca azul, lindíssimo, brilhante, entrando na mesma rua. O carro deslizava como uma musa. O motorista foi encostando devagar, do meu lado. O motor fazia um barulho lindo. Barulho de motor que está todo afivelado nos experimentos e no azeite de oliva, cada acelerada era uma sinfonia.
O motorista parou ao meu lado, abriu um sorrisão e me cumprimentou.
“Fala Xaman!”
Sim, amigos, era Sibigu, com o velho Fusca que fora meu um dia. Era um sorriso de corpo inteiro, ao lado da mulher, o que ele tinha. Era uma mistura de satisfação, orgulho e certeza.
“Eu não disse que esse carro era meu, e que você era um usurpador? Peguei meu carro de volta”, disse ele, dando uma acelerada para se amostrar.
Gelei dos pés ao último fio de cabelo.
Ele comprou o carro há algum tempo, mas nunca teve a chance de me mostrar. Deu uma arrumada geral, está todo cuidado, ficou um belo de um carro, isso é verdade. Não fiquei com inveja nem nada, porque não sei nem onde eu iria estacionar o velho Fusca, e acho que certas coisas fazem parte de uma época da vida da pessoa, não adianta querer ficar repassando as velhas emoções para atualizar o presente. São os princípios do meu Budismo de boteco.
Fiquei pensando mesmo foi na praga que Sibigu jogou, isso sim, não recomendo a ninguém.
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