Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Tem praga que é triste

20 de janeiro de 2012, às 13:24h por Samarone Lima

Isso aconteceu há alguns anos, quando resolvi comprar um Fusca, com a ajuda do meu velho e inseparável amigo Naná.

Fiquei usando minha lupa nos anúncios de jornais, visitei inúmeros donos de carro que ofereciam Fuscas horríveis, deformados, com aqueles pneus talalarga de péssimo gosto, equipamento de som, vidro fumê, essas besteiradas toda, com o papo de que “é quase tudo original”.

Encontramos um azulzinho lindo, ano 1968, até as calotas eram originais, o parachoque de ferro fundido, brilhava pacas. Tive muitos bons momentos e aventuras neste Fusca, mas algo me encafifava.

Bastava eu chegar no bar de Seu Vital, no Poço da Panela, que Sibigu imediatamente soltava o comentário:

“Este carro não te pertence, Xaman (ele e seu irmão, Jorge Bandeira, só me chamam assim, Xaman). Este carro é meu. Você está usando somente por um tempo, mas o carro é meu, fique sabendo disso”.

Depois de uma baforada em seu cigarro, continuava.

“Aliás, você sabe disso, mas vou perdoá-lo por enquanto pela ofensa que está cometendo, essa usurpação. Porque isso, Xaman, é uma usurpação”.

Eu achava engraçado, porque comprei o carro numa demorada negociação. Bastou Naná saber que o dono do carro era torcedor do Santa Cruz para, para usar nosso amor ao clube na negociação. Passou a rememorar gols históricos, títulos, escalações, lances improváveis, e o dono do carro foi pegando ar, se animando, contando suas histórias, onde assistia jogo no Arruda, o resultado é que ganhamos um belo desconto no preço final, aquelas coisas que o cara só vai perceber a merda que fez no dia seguinte.

Ma sempre que eu encontrava Sibigu, a mesma ladainha.

“Estás usando o meu carro, heim? Cuidado com ele”.

Até que um dia, espatifei meu Fusca num Honda Civick. Foi uma coisa triste, o acidente. O meu azulzinho ficou meses numa oficina, numa época em que eu estava mais duro que meio fio. Um dia, o dono deu a porra e despejou meu azulzinho na rua, acabei vendendo-o para o dono de uma concessionária por uma merreca. Poxa, hoje estou usando mesmo o linguajar popular, heim? Mas vamos em frente.

Soube por alto que o sujeito gastou um bom dinheiro e deixou o azulzinho novo em folha. Mas não  fui atrás do carro, porque minha tia estava doente no Cabo, e não dava para ficar atrás de Fusca com a tia cheia de broncas.  

O tempo passou, saí do Poço, não teve mais Fusca nem nada, morei três anos no Cabo de Santo Agostinho, minha tia morreu, casei, vim morar na rua da Aurora. Nas vezes em que vou a Seu Vital, não encontro mais Sibigu. Encontro seu irmão, Jorge Bandeira. São as circunstâncias da vida e da geografia das pessoas.

Semana passada, parei naquele Pescadero, na entrada do Poço da Panela, para olhar uns vinhos. Quando desci do carro vi um Fusca azul, lindíssimo, brilhante, entrando na mesma rua. O carro deslizava como uma musa. O motorista foi encostando devagar, do meu lado. O motor fazia um barulho lindo. Barulho de motor que está todo afivelado nos experimentos e no azeite de oliva, cada acelerada era uma sinfonia.

O motorista parou ao meu lado, abriu um sorrisão e me cumprimentou.

“Fala Xaman!”

Sim, amigos, era Sibigu, com o velho Fusca que fora meu um dia. Era um sorriso de corpo inteiro, ao lado da mulher, o que ele tinha. Era uma mistura de satisfação, orgulho e certeza.

“Eu não disse que esse carro era meu, e que você era um usurpador? Peguei meu carro de volta”, disse ele, dando uma acelerada para se amostrar.

Gelei dos pés ao último fio de cabelo.  

Ele comprou o carro há algum tempo, mas nunca teve a chance de me mostrar. Deu uma arrumada geral, está todo cuidado, ficou um belo de um carro, isso é verdade. Não fiquei com inveja nem nada, porque não sei nem onde eu iria estacionar o velho Fusca, e acho que certas coisas fazem parte de uma época da vida da pessoa, não adianta querer ficar repassando as velhas emoções para atualizar o presente. São os princípios do meu Budismo de boteco.

Fiquei pensando mesmo foi na praga que Sibigu jogou, isso sim, não recomendo a ninguém.

 

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Livro novo na praça

16 de janeiro de 2012, às 15:33h por Samarone Lima

Sossegados leitores,

Na última sexta-feira 13, contrariando todas as mandingas relacionadas à data, recebi a ligação de Sushi, dono da editora Paés.

“O livro está pronto”.

Ele estava saindo da FacForm com a segunda edição do meu “Viagem ao Crepúsculo”, lançado em 2009 e agora relançado, com novo design, um ensaio de Beto Figueiroa e um capítulo extra.

O lançamento, salvo engano, será dia 31 de janeiro. Penso em fazer naquele bar defronte ao bar Central. Uma mesinha na calçada fica ótimo para fazer as dedicatórias.

A obra começará a ser distribuída nas livrarias de hoje para amanhã.

Quem quiser receber em casa, mande comentário com endereço que peguei a manha dos Correios, de tanto comprar livros pela Estante Virtual.

Amanhã posto a capa do livro. É uma operação que exige muito dos meus parcos neurônios.

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Bares, calçadas, mesas…

9 de janeiro de 2012, às 15:19h por Samarone Lima

Foi na semana passada, mais especificamente na sexta-feira. Parei na xerox que funciona na calçada da rua da União e um homem pegava um bolo de xerox de um artigo do publicado pelo Bruno Albertim, no Jornal do Commercio, intitulado “A Mamede já não é a mesma”. Falava sobre a proibição de colocar mesas nas calçadas da pequena rua Mamede Simões, que abriga o famoso Central e uma penca de outros bares menores e aconchegantes, que a turma chama de aleatoriamente de “Frontal”.

“Oi Samarone, você está sabendo? É uma coisa terrível o que estão fazendo, não é?”

Ele estava nervoso. Não sei o nome, mas sei que ele tem um barzinho ali, na Mamede Simões. Pior que não saber o nome dele, era não saber o que era a “coisa terrível”.

“O artigo do Bruno está muito bom e ele fala de você”, completou, batendo em retirada.

Peguei minhas xerox, fui para o trabalho já pensando em pegar o JC, para saber o que o Bruno tinha aprontado para o meu lado.

Alguém estava lendo o meu JC. Aproveitei para pagar umas contas, e quando estava na rua da Saudade, encontrei um camarada alto, de barba, extremamente gentil. Era o dono de outro bar, defronte ao Central. Isso só pode ser uma conspiração do Albertim, pensei. Não lembro o nome dele, só que uma vez, arranjei uma arenga ridícula na conta, acho que fui deselegante. Ele foi tão educado, falou tão baixo, que me deu uma vergonha imensa do pantim que causei.

Educadíssimo estava aflito. Tinha uns cartazes de cartolina, com frases do tipo “Isso aqui é um pouquinho do Brasil” e frases semelhantes, com letras enormes. Fumava o cigarro do aperreio, quando a mão da pessoa treme e a fumaça é mais espessa.

“Mandei fazer 300 cópias do texto do Bruno, que está belíssimo”, disse.

Fiquei com aquele sentimento de que alguma coisa está acontecendo na cidade, e você é o último a saber. Já aconteceu isso comigo em São Paulo. Um avião caiu em cima de um bairro, passei a manhã em casa escutando música e lendo, e quando cheguei à redação, estava todo mundo louco.

“Samarone, você vai já para onde estão os destroços do avião”, disse meu chefe, quando pisei na redação, no início da tarde.

“Que destroços? Que avião?” – perguntei.

Todo mundo riu.

Educadíssimo, porém, estava trêmulo, angustiado.

“Cara, estão acabando com aquela rua. Não podemos botar mais uma mesa na calçada. Dentro do meu bar, cabem apenas quatro mesas. Não tenho como sobreviver assim. Já tive que despedir a diarista, se continuar assim, vou ter que despedir mais gente”.

Ele estava arrasado. Imagino o que é a pessoa lutar com um comércio, dia após dia, zelar pela clientela, contratar gente, dar emprego, depois ver tudo desabar.

“Hoje à noite, vamos fazer um protesto silencioso. Todo mundo em pé mesmo, bebendo, conversando. Vai ser um protesto silencioso contra essa decisão de proibir mesas na calçada, à noite. Espero que você vá, para dar uma força”.

Na volta, peguei o artigo do Bruno. Ele falava de uma passagem sua pelo Princesa Isabel, que costumo frequentar, o encontro com Seu Azevedo e Dona Nice (“um casal idoso que exala dignidade” – ficou belo isso) e de uma crônica minha, que está lá, numa moldura, minha pequena glória literária, onde afirmo que todo mundo tem um bar para chamar de seu.

Então entendi. A pequena rua, que de dia tem self-service a preço popular, almoços comerciais a partir de R$ 6,00, comida executiva por R$ 20,00 ou coisas mais elaboradas no Central, vive uma espécie de apartheid à noite. Ficou proibido qualquer mesa na calçada. Detalhe – somente na Mamede Simões.

Hoje, no JC, o José Teles aborda o assunto, na sua crônica “Um beco muito bem vigiado”.

“E a lei, pelo visto, vale só naquela rua. Porque mais adiante, os bares põem cadeira e mesa até em galho de árvore”, diz.

Já fui dono de dois bares, ambos com mesas nas calçadas. Nunca tive problema. Na verdade, por conta do nosso clima, a calçada sempre é o lugar preferido dos clientes, o mais agradável para ficar, já que é difícil uma multidão ficar vagando pelas calçadas à noite. Também tive o cuidado de não ter bar ao lado de hospítais, e só botava as mesas pra fora quando passava o movimento grande, coisa que todo dono de bar faz em todo lugar do mundo.

Frequento nos bares do entorno do Parque 13 de Maio, geralmente bebo nas mesas que ficam nas calçadas. E são muitos. Tem mais bar do que gente, nessa região. Se você parar para olhar a hora, o garçom chega com uma cerveja e o tira-gosto.

Não entendo a paranóia com a Mamede Simões, onde quase não passa carro e, salvo engano, tem apenas um prédio com moradores. Se tirarem todas as mesas que estão nas calçadas dos bares do centro do Recife, não sobrevive um. Vai ficar uma cidade patética, de gente que só faz trabalhar. Pior, de gente que só bebe em ambiente fechado, como se estivesse fugindo de alguma coisa.

Também já viajei muito pelo mundo. As mesas nas calçadas fazem enorme sucesso. Imaginem Paris sem mesinhas nas calçadas. Imaginem o mercado de Casa Amarela sem mesinhas na calçada. Na verdade, em muitas cidades bacanas, há ruas que são preparadas serem fechadas à noitinha, especialmente para movimentar a vida noturna. Em Fortaleza, onde morei, há uma penca.

Como diz o Bruno Albertim, dá vontade de ir para o Rio, Paris, Paraíba. O problema é que essas cidades ficam longe pacas lá de casa.

Não sei como foi o protesto silencioso na sexta-feira passada. Mas fica no ar um cheiro de caretice e tédio em nossa Veneza.

Ps. Terminei de postar o texto, tomei um café no Princesa e encontrei, no cruzamento do Parque 13 de Maio sabem quem? Educadíssimo. Estava mais sossegado. Teve o protesto, mas nada foi resolvido ainda. Perguntei o nome dele. É Nelson.

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Bendições

5 de janeiro de 2012, às 16:26h por Samarone Lima

Bendições

Aprendi com minha avó Zeneuda os mistérios da bênção.

Ela se benzia quando passava defronte a alguma igreja e em algumas situações que não lembro bem, lugares ou situações que lhe diziam algo. Se abençoava. Coisas secretas. Seus mistérios miúdos. Todos temos esses detalhes mais serenos.

Há muitos anos me benzo. É um agradecer inesperado, que desatordoa o dia. Lugares, situações, lembranças, que me invocam a bênção.

Faço isso sempre que passo defronte à Casa do Estudante Universitário, na UFPE. Ali vivi quatro anos fundamentais da minha vida. O dinheiro público me deu, com todas as limitações e infinitas velhacarias da reitoria, um lugar para viver, uma cama, um armário, uma bancada e lugar para me alimentar.

Entrei no apartamento 312 com 18 anos, saí de lá com 22, para cuidar da vida. Foram anos preciosos de formação, estudo, dificuldades, aprendizados. Aquele lugar, para mim, sempre será abençoado. Sem a Casa, batizada singelamente de “CEU”, eu teria que trabalhar em inúmeros empregos-porcaria para me virar, sobreviver. Tive tempo para ficar infinitas horas na Biblioteca Central, feito uma catita cearense, lendo, futucando livros e fazendo anotações. Durante quatro anos, vivi dentro de um Campus Universitário. Amém.

Me benzo também quando passo pela avenida 17 de agosto, defronte a um colégio estadual, um lugar específico que ficou gravado em mim como um espanto. A fração de segundos em que cochilei, a bordo do meu velho Fusca 1968 azul e acordei com um barulho. O barulho de uma batida em outro carro. É como uma pedrada.

No cochilo, forças misteriosas puxaram o volante para a esquerda (um pneu mal calibrado, quem sabe, mas prefiro as forças misteriosas) e me salvei do pior. Se o carro tivesse seguido para o lado direito, acertaria uma parada de ônibus, cheia de alunos.

Ninguém saiu ferido, tive um pequeno corte na testa e estremeço só de pensar no que aquilo poderia ter provocado na vida dos outros e na minha. Me benzo sempre que passo ali. Digo obrigado a alguém sem nome, ao destino ou à sorte. Não feri, não matei, não maltratei. Isso é uma bênção.

Me benzo quando durmo. Me benzo quando acordo, porque tudo, salvo engano, continua intacto, e cada dia, para mim, é um mistério.

Minha avó deve ter passado essas bênçãos para minha mãe, Dona Ermira, que vive ocupada em olhar o lado bom das pessoas. Se alguém não presta, ela é capaz de revirar ao avesso, cutucar, mexer, até que encontra uma fresta de bondade. Ali está seu país, sua quimera, sua fonte. Se alguém lhe faz mal, chora de tristeza, fica com pena da pessoa e já tem na algibeira o perdão, escrito em letra de forma. Sempre foi assim, desde que me entendo por gente, quando era menino.

A vida é assim, cheia de bênçãos e mistérios. Com todos os males, dramas, dores, injustiças, bendita seja.

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