As coisas simples da vida
Samarone Lima
As coisas simples da vida me interessam cada vez mais, e é por elas que vou caminhando, me aproximando e vivendo.
Tenho minha coleção de recortes de jornal já há não sei quantos anos, é algo delicioso, minha brincadeira para muitas horas. Recorto coisas que me interessam, vou colando em cadernos de desenho ou cartografia, tudo com data, direitinho. Uso geralmente a cola Tenaz, porque é mesmo muito boa, acho que por isso faz sucesso há tanto tempo. Não é fina nem grossa demais e a tampinha nunca entope como outras, mais safadas.
Outro dia abri um caderninho sobre Cuba, já está quase cheio. Guardo notícias, artigos, comentários dos leitores, charges, análises, tudo com data, de preferência na sequência. Também tenho já alguns com meus escritores prediletos, resenhas de livros que me interessam, entrevistas, resenhas etc.
Não sei para que servem, mas nas horas em que estou recortando e colando, fico totalmente concentrado, feliz com isso, não sinto a menor falta de Internet, de muita agitação, de um programa espetacular para me divertir. Na semana passada, morreu a poeta polonesa Wislawa Szymborska, que gosto muito, guardei muitas notícias sobre ela. Há um da Noemi Jaffe, publicado na Folha de São Paulo, que é realmente lindo. Diz que “a boa leveza é aquela do pássaro e não a da pluma”.
Botecos me interessam sempre os menores. Ontem encontrei o Herbert, frequentador do Princesa Isabel, cá no centro, ele disse que vou levar uma suspensão, dado às minhas ausências seguidas. Prometi passar lá ontem para me recuperar das faltas, mas tinha meu curso com Barthô, não dava, é só uma vez na semana.
Gosto também dessas coisas da espiritualidade há dezenas de anos. Já cresci com minha avó rezando o terço para os netos dormirem, em sua casinha no Crato. Lembro do dia em que ela puxou o rosário, que é um negócio interminável, os punhos da rede quebraram, levamos uma queda, e tudo virou uma gargalhada geral.
Até hoje tenho esta queda pelos santos, orixás, adoro velas, incensos, meditação. Agora mesmo, tem uma vela acesa num quartinho de oração e meditação. Ando lendo também um bocado de coisas do Budismo, por causa do curso do Barthô, especialmente a Pema Chödron, que recomendo. Mas gostei mesmo foi do Chögyam Trungpa, um livrinho intitulado “Shambhala – A Trilha Sagrada do Guerreiro”. Deixam na poeira qualquer desses livros bestas de auto-ajuda.
Como tenho publicado meus últimos livros por editoras pequenas ou médias, onde banco a impressão, tenho mais exemplares à minha disposição, posso dar livros para gente que não é muito habituada a ler. É outra coisa simples que me dá um prazer enorme. Oferecer um livro meu a pessoas que geralmente só cumprimento, converso sobre futebol, coisas do cotidiano, sem detalhamentos. Os porteiros do prédio onde moro, funcionários do mercadinho ao lado, pessoas lá do meu trabalho, vários já receberam o livro de presente. Ficam imensamente alegres. É algo do tipo “poxa, ele lembrou de mim”, creio. Os comentários são um retorno muito bom para quem escreve.
O futebol é também uma coisa simples. Jogo segunda e quarta. Agora, apareceu uma pelada na quinta, talvez seja muita atividade para um quarentão, apesar de ter atravessado todo o ano de 2011 sem uma contusãozinha sequer. Mas é simples. A pessoa encontra os amigos, joga bola, corre, grita, esculhamba o juiz de vez em quando, arenga, se puder, faz seu golzinho, fica suado pacas, depois toma banho e volta para casa novinho em folha. Na quarta, dá tempo de ver algum jogo de algum campeonato na TV. Na segunda-feira mesmo, roubei uma bola, avancei e chutei no canto direito do goleiro, ganhamos a partida. E olha que sou zagueiro. Dá um orgulho grande, esse momentos, fazer o gol da vitória. Fico imaginando como é um jogador do Santa Cruz fazer um gol com o Arruda lotado. Acho que eu ficaria doido, sairia direto para a Tamarineira. Depois, nesse mesmo jogo, arenguei com o juiz e fui suspenso, com três minutos fora do campo. Coisas da vida.
Escrever cá no Estuário é também uma das coisas simples da vida. O ruim é quando estou sem assunto e fico reverberando, cheio das marmotas, me repetindo, atordoado. Como diz a Szymborska, tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Já recebo diariamente uma penca de email pedindo para ajudar a localizar gente que desapareceu, campanhas, petições, mas nunca me enviaram um email dizendo “olha, aquela criança que mandei o email, foi encontrada ontem no Horto de Dois Irmãos, obrigado”. Os avisos para não abrir arquivos que vão tocar fogo no meu computador, arrasar com minha biblioteca, os cuidados com um celular que clona meu aparelho nunca me levaram a lugar nenhum diferente do que já estou. Quero escrever outras coisas, as que vejo e sinto.
É por isso que tento escrever aqui sobre as coisas que gosto, as mais simples, para compartilhar um pouco. Tenho a esperança de dar alguma alegria aos meus leitores, umas gotinhas dos Florais de Bach, quem sabe, se não for querer demais, num mundo com tantas cicatrizes e maldades, quem sabe isso seja algo como estender uma flor ou a própria mão, as duas.
“A vida, mesmo se longa, será sempre curta.
Curta demais para se acrescentar algo”.
(Wislawa Szymborska, poeta polonesa)
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14 Comentários »




8 de fevereiro de 2012, às 14:05h
Samarone e a arte de ser lindo..
8 de fevereiro de 2012, às 15:53h
Bálsamo
s.m. Resina odorífera que ressuma de certas árvores.
Planta que destila bálsamo.
Eflúvio, aroma, perfume.
Fig. Alívio, conforto, lenitivo.
9 de fevereiro de 2012, às 0:16h
A proposito, por falar em simplicidade, como dizia o Bolano, a melhor coisa a ser na vida é policial investigador de homicidios. Nada se comparava, segundo ele, a poder estar na cena do crime, depois da tragedia ocorrida, sozinho, observando, tocando e se aproximando a tudo. Imaginando tudo e seus porques. Legal… Acho ate que ele disse que preferiria muito mais ser policial a escritor. Queria ser simples como o Bolano, queria ser policial investigador de homicidios, ainda que isso nao deva ser tao simples assim no Brasil, sobretudo no Recife.
Beijos a todos.
Viva o Santinha!
Roberto
10 de fevereiro de 2012, às 19:56h
eu rezo pra todos os santos e deuses pra que você continue escrevendo. ler tuas palavras sobre as coisas mínimas e desnecessárias é das melhores coisas da vida.
10 de fevereiro de 2012, às 22:31h
A poeta polonesa parece mesmo muito boa, vou procurar…
12 de fevereiro de 2012, às 9:21h
Carlota,muito obrigado;
Cláudia, eflúvios para você;
Roberto, cuidado, o Bolaño mentia muito;
Marília, quanta honra, muito agradecido pelas orações;
Renan, a Szymborska é maravilhosa, você não vai se arrepender de um poema sequer.
Abraços,
Samarone
12 de fevereiro de 2012, às 13:07h
Sama,
Verdade! Como todo bom policial de investigacao e todo bom escritor, mentirosos (rsrsrsrs). Acho ate que o cara poderia ser mesmo os dois. Um nao exclui o outro, mas, ao contrario, nessa perspectiva de Bolano, ate se completariam.
A proposito de bolano, acho que tenho (ou tive) todos os livros dele – em espanhol -.
Como Godard, leio os livros e os ¨os jogo pela janela¨. Ou melhor, no meu caso, me desfaco deles. Depois da leitura nao quero nem ver mais o sujeito.
Um dos livros do Bolano ainda nao dei. Terminei de ler recentemente. Muito legal. Dificil de encontrar no Brasil. Na verdade, o livro reune todos seus artigos e entrevistas publicadas em jornais e semanarios, na sua maioria espanhois.
Se vc gosta do Bolano (na verdade eu nao sou muito fa dele nao…) acho que vou dar entao pra vc.
Assim me desfaco desse livro terminado, resolvo meu problema e, quem sabe, vc vai ler um livro diferente do chileno de blanes.
Isso. Vou mandar pra vc. Ta decidido. Alguem de minha parte, nessa segunda proxima, vai deixar o encargo la no bar princesa isabel. Vai dentro de um envelope direcionado a vc.
Valeu!
Viva o santinha!
Boa leitura!
Abracos a todos,
Roberto.
12 de fevereiro de 2012, às 18:48h
A simplicidade das coisas é um prato cheio pra crônica. É tema inesgotável.
E é o tipo de assunto por que sujeito nenhum na face da Terra não se sinta tragado. Coisa vivida e sentida todo dia envolve qualquer um, com a condição fácil de que se alimente e pratique a atitude igualmente simples de ser humano.
A beleza das coisas “bobas”, da despreocupação, do papo com amigos, novos e antigos, da meditação, do contato com a natureza, do sentimento farto compartilhado com a família etc. é que constrói o modo como lidamos com a vida, com as vidas.
Caceteira, a crônica. Parabéns, Samarone.
Abraço do conterrâneo.
13 de fevereiro de 2012, às 10:21h
Fomos aos barbas e não lhe vimos. peninha.
14 de fevereiro de 2012, às 11:47h
Por isso dizem por aí que mais uma das funções da escrita é EMOCIONAR.
Muito bom!!!
Abraços Sama!
15 de fevereiro de 2012, às 8:45h
Eu gosto muito de ler seus escritos. às vezes também, te vejo no arruda. Qualquer dia te abordarei e direi: eu sou um leitor assiduo do estuario. Abraços!!
16 de fevereiro de 2012, às 10:58h
Sama,
é esses textos que escreves, da forma mais simples, sem muitas idas e vindas, são os mais prazerosos de se ler… Sim… gostei tb do texto do Ferreira Gular, achei a princípio que era teu, até ver a autoria no final.
Abraços,
18 de fevereiro de 2012, às 12:13h
Belo, belo, belo! Parabéns!
25 de fevereiro de 2012, às 21:31h
Muito bom o texto. Me identifiquei muito com o momento do gol e da elucubração de como seria ouvir um estádio lotado comemorando um gol.
Pensava muito nisso na minha adolescência, mas isso nunca dava muito certo nas peladas do colégio e na educação física… perna de pau assumido, só acompanhava os outros jogadores por pura vontade (que as vezes virava truculência) e isso nunca me levaria aos Jogos Escolares o passaporte para um estádio lotado! Tá, um estádio não, mas 3 ou 2 mil pessoas assistindo já é legal e você pode extrapolar a realidade e imaginar que é um arruda lotado (no meu caso um salgueirão).
Outra coisa que me distanciava disso é que resolvi me tornar enxadrista, e minha torcida na época se resumia a 2 ou 3 amigos coroas que assistiam as partidas e se revesavam jogando na praça da igreja da minha cidade do interior. Por incrível que pareça foi jogando xadrez que realizei esse meu sonho, não durante uma partida, quando seria muito mais legal, mas ao vencer os jogos escolares. Não ouvi ninguém gritando gol nem correndo para me abraçar, mas quando fui receber o troféu todo o módulo (lá em Salgueiro é onde é/eram disputados os jogos) gritando e comemorando como se fosse um gol. As pessoas apertavam minha mão e acho até, que foi o governador que me entregou o troféu e depois a prefeita entregou a medalha. Sinceramente não me lembro desses coadjuvantes.
Eu não endoidei, mas ainda hoje comemoro esse dia.