Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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É tudo muito, meu bem

17 de fevereiro de 2012, às 13:40h por Samarone Lima

Amanheceu chovendo no Recife, o clima manso, dia bom para ficar em casa lendo, escrevendo, fazendo nada, desejando que chova muito mais. Devo ter nascido num dia de muita chuva, para gostar tanto dela.

Mas hoje é sexta-feira de Carnaval, Samarone, tás doido?

É, de fato ele chegou, mais uma vez. Este ser imenso, contagiante e misterioso, que é o Carnaval.

Mas já não sou o mesmo. Estou achando tudo muito demais. Minha vocação para a dissidência é mesmo algo que me atordoa.

Não sei o que é exatamente, mas sinto, pressinto. As velhas troças de dez, quinze anos atrás, estão se tornando empresas, com festas entregues a produtoras, ingressos vendidos pela Internet, cambistas. É preciso mais. Sempre.

Ontem à noite, encontrei alguns amigos, tomamos umas, até que perguntei sobre o badaladíssimo “I Love Cafuçu”, que vendeu antecipadamente seus sete ou oito mil ingressos. Todos acharam péssimo. Por vários motivos. Um dos motivos era gente demais. Gente que nunca teve nada a ver com a proposta.

Até o bloco anárquico-carnavalesco que fundei, com dois amigos, há dez anos, “Os Barba”, sofre do mesmo processo de crescimento. Tem hora que você olha ao redor e mesmo tendo tomado várias lapadas e se pergunta: Ôx, cadê meus amigos?

Os melhores carnavais que tive foram no Poço da Panela, numa ruazinha de terra batida, cheia de árvores, um sábado antes da festa oficial. A concentração era no final da manhã, no bar de Seu Vital.

Naná fazia dois panelões de feijão com charque, dali saíam os caldinhos. Numa mesa, um garrafão de 20 litros de Pitú e muitas frutas. Uma orquestra simples, cedida pela Prefeitura, tocava de 12h às 15h, depois vinha nossa orquestra.

Era uma celebração de amigos, uma brincadeira deliciosa. Cada ano, elegíamos o rei, e só a votação era outra grande farra. Seu Vital já foi rei. Fui eleito, mas não cheguei a ser coroado.

Depois veio o movimento natural. Cresceu demais. Até a rua onde nos concentrávamos foi calçada, cortaram duas árvores lindas.

Vejo os jornais de hoje. A previsão para a abertura do Carnaval, hoje, nas ruas do Bairro do Recife e Marco Zero, segundo a Folha de Pernambuco, é de 220 mil foliões. Batuqueiros de maracatu? “Só” 500.

“Galo gigante chama atenção no Centro”, diz outra matéria.

Vejo a programação do Recife. Serão 325 shows, 310 atrações em palcos, 17 polos do Carnaval Multicultural, 42 polos comunitários.

Será que para um bom Carnaval uma cidade como o Recife precisa disso tudo mesmo?

Sei lá, devo estar ficando é velho.

A todos, um lindo Carnaval. Voltarei nas Cinzas.

Postado em Crônicas | 8 Comentários »

8 Comentários

  1. Arsenio Meira Junior Disse:

    Sama, assino embaixo. Beleza de texto. Amo a cidade do Recife; mas esse amor seria mais pacífico se por aqui houvesse neblinas, garoas, chuvas serenas, mas constantes, (sem tempestades) e um trânsito composto por bicicletas e skatistas.
    E, finalizando, o velho Branchu: “Tudo o que é muito, aí também já é demais”.
    Abraços.

  2. Gustavo Henrique Disse:

    Muito pai-d’égua, a crônica.

    E outra: acho que não é o envelhecimento; é o contraste real entre a naturalidade com que se faziam os carnavais de antanho, simples e bonitos, de iniciativa verdadeiramente popular, e a megalomania dos de hoje: a seita nefasta (e violenta!) dos abadás.

    Hoje recebi notícia triste, que dá rasteira na pretensão de qualquer dia bom. Um amigo me contou que ontem, no finalzinho do famosíssimo Desfile das Virgens de Crato, ali no antigo Largo da RFFSA, onde hoje funciona o Centro Cultural do Araripe, houve confusão envolvendo tiros. E o fim desastroso: uma criança foi vítima de bala perdida.

    Se escapar, imagine bem a lembrança que terá esse pequeno do que acontece nos carnavais, do que é o carnaval, da pretensão de brincar encerrada pelo choque de um balaço. Hoje em dia, o que mais se promove é a desconstrução do carnaval.

    Não sei bem o estado em que o infante se encontra atualmente. Apesar disso, na volta, após ter buscado minha irmã na faculdade, passei de carro em frente à emergência do Hospital São Francisco de Assis, e pude observar os movimentos desesperados de uma possível mãe, um sujeito tingido de vermelho saindo de uma ambulância e outro com a mesma tinta-carnaval chegando de moto. É o fim… É a colheita dos que plantam o inferno nessa época.

    Nunca fui dado a participar do desfile, apesar das aturadas convocações de velhos amigos, todo ano recebidas com alguma desculpa. Eles que se vistam de donzelas, num movimento feliz de liberdade. Hoje minha liberdade em época de carnaval é justo não participar dele. O mais em que me envolvo é no famosíssimo esquenta, a cervejada do bloco “É bem docinho, mamãe!”, na casa de um amigo. E só…

    Relembrando agora como acontecia esse evento há coisa de dez ou quinze anos, me assusto com o rumo que tomou a brincadeira inocente e antiga de velhos cratenses, que incluía, por sinal, o piadista Dr. Mauricinho e outros tantos. Esse era o mungango espalhafatoso de se trajar de mulher e sair cantando a graça do carnaval antigo das marchinhas. Talvez seja o de Crato um dos mais antigos desfiles de virgens, se não o pioneiro. Os velhos mungangueiros tomavam as ruas Dr. João Pessoa e Miguel Limaverde até, a bem dizer, a Praça do Pimenta, onde encerravam os festejos embicando umas lapadas no bar de Gracinha.

    Faziam isso desde que o conjunto dessas duas ruas ainda era chamado de Rua Grande. Um tempo que não volta, época em que o descampado por detrás da então abandonada RFFSA ainda recebia o nome gaiato de Beco da Mijada.

    Pois é, Samarone, o carnaval de Crato já foi.

    Abraço do conterrâneo.

  3. samarone Disse:

    Que pena essa coisa toda no Crato, Gustavo.
    Não vi quase nada do Carnaval, exceto um bloco chamado “Berra Vaca”, em São Geraldo, distrito de Campinas, onde estou.
    Abraços,
    Samarone.

  4. Adson Disse:

    Eis aqui mais uma prova de que poesia e merda eh a mesma coisa: samarone escreveu uma poesia uns tempos atras, chamada “nao sei o que de vidro”. Um lixo. Eu tentei ler, pulei varias partes (longa pra cacete), um saco. Do resto, so tem disconexo. O cara juntou 3547 palavras e nao disse nada!!!

    Poeta eh o lixo da sociedade. So nao eh pior que politico. Os dois sao vermes sanguesugas que nao produzem nada, mas o politico ainda por cima rouba, portanto eh pior.

    No mais, sem mais,
    abraco
    Adson, Burro-negro.
    ***
    Partes do comentário foram cortados pelo autor deste blog. O sujeito pode não gostar do que escrevo, mas exala raiva por todos os poros. Só não sei mesmo o que ele faz ao continuar voltando para este espaço.
    Na próxima intervenção, divulgarei seu email e número de IP.
    Samarone

  5. tatiana pelinca Disse:

    Adson,vai falar besteira assim em outro lugar,aqui não dá pra tu não.

  6. capilé Disse:

    Prefiro sempre os pequenos blocos com os amigos. Em Olinda costumáva-mos nos encontrar na Misericórdia, mas, o tempo afastou toda aquela turma boa. Bom, acho que a idade tbm é uma boa explicação sama, rsrsrsrs…mas ainda adoro este período, é só saber onde brincar. abs

  7. Tércio Disse:

    Meu Carnaval a exatos tres anos tem sido os melhores. Eu e alguns amigos fundamos o Bloco Os Sem Limites dos Bares, Botecos e Mercados. Costumamos Abreviar só para Os Sem Limites. Saimos toda segunda feira de Carnaval na Rua do Lima em frente a TV Jornal. A sede fica numa Rua ao lado da igreja. Na quarta temos o Bacalhau dos SL no Mercado da Boa Vista.
    É batida de fruta e feijoada gratis. Orquestra nao rolou ainda, mas o carro com um som potente de Marcos dono do mercadinho quebrou o galho.
    Enfim, bem melhor do que Olinda ou Cidade.
    Na segunda inventei de emendar. Queria assistir o show de Eddie. Homi, era um vuco-vuco tão incomodo (normal aliais)que desejei um Diluvio, um toró, um pé d agua, so p ficar curtindo a chuva e o sossego. Era isso q queria dizer.

  8. lea Disse:

    Samarone

    Vou dar um chute pro gol (do santa claro). Não é velhice não, é coisice. As vezes a gente é assim.
    Eu, por exemplo, não preciso usar óculos de grau… ops errei, sempre gostei de muita gente no carnaval, mundiçada mesmo, depois me incomodei, agora não seiei. Enfim, coisice.
    Agora, tu não acha muita gente junto lindo não? Eu acho. Um espetacúlo.

    abraço

    Lea

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