Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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O primeiro dia de Cara de Gente Feliz

6 de junho de 2012, às 13:52h por Samarone Lima

Foi na segunda-feira, creio, ali no cruzamento perto do Mercado da Encruzilhada, perdão pela redundância. Era metade da manhã e o trânsito estava complicado, lento, atormentado, perdão pela redundância. Minha esposa me dava carona e paramos no sinal. Eis que surge um rapaz bem apessoado, com cara de gente feliz, com uma farda novinha de agente da CTTU, a empresa que cuida do trânsito do Recife.

Um carro ao lado perdeu o tempo do sinal, parou um pouco em cima da faixa de pedestres. O motorista, ao ver o agente, ficou apreensivo. Mais uma multa, mais pontinhos na carteira. Cara de Gente Feliz se aproximou, fez um sinal com o polegar, para cima, dizendo um “tudo bem, deu para perceber que você não fez nada de grave, foi só um pequeno descuido, fique tranquilo”. Não puxou o talão para multar, como fazem muitos de seus confrades a qualquer mínimo descuido. Depois, olhou para o outro lado, ajudou pedestres a atravessar, usando seu apitinho, que brilhava, de tão novo.

“Fiu!”

Do outro lado da rua, três agentes (ou fiscais) estavam perfilados, olhando o movimento. Acho isso incrível. Quando os agentes públicos ficam observando o movimento, conversando, falando da novela, do futebol, do celular novo que comprou. Apenas Cara de Gente Feliz trabalhava.

Nosso sinal abriu, ele observou o movimento na outra via. Um lado ainda estava congestionado. Com uma inteligência simples, diria que até óbvia, segurou um pouco o nosso lado, fez um sinal para que apenas os carros da esquerda passassem, e com uma simples operação, sempre sorrindo, fez todo o congestionamento que se avisava fluir com uma leveza especial.

“Fiu!”, soprou ele, no apito novinho em folha, e seguimos.

Quanta gentileza, quanta atenção, em tão pouco tempo. Cara de Gente Feliz deve ser um dos 156 novos agentes da CTTU, que assumiram seus postos na última segunda-feira, após um concurso.

Ele destoava de muitos dos agentes que deveriam fazer o mesmo papel, mas que preferem se esgueirar em lugares escuros, em pequenos, médios e grandes cruzamentos, à espera de quem deu um vacilo, alguém que não conseguiu atravessar a tempo um cruzamento, deixou o pneu em cima da faixa dos pedestres, fez uma bobagem. Agentes de trânsito que usam o apito para “fiu!”, apenas para avisar que anotou sua placa e estarás multado. Raros vêem uma complicação e usam o poder que têm para facilitar o trânsito, permitir o fluxo, desanuviar.

Não sei quanto tempo Cara de Gente Feliz vai manter sua alma generosa, certo de que está fazendo um trabalho para melhorar o trânsito e facilitar a dura vida das pessoas, nesse trânsito absurdo do Recife. Não sei quando será cobrado para chegar ao teto mínimo de tantas multas por dia. Quando será ridicularizado por “tanta  educação” ou por “ficar no sol de bobeira”. Não sei quando vai ser incomodado pelos colegas mais velhos, com seus vícios, quando sua farda vai envelhecer, quando vai perder seu ímpeto e repetir práticas que hoje condena. Enfim, quando seu espírito vai ceder, esmorecer, entorpecer, e se tornar apenas mais um fiscal enfadado, à espera da aposentadoria. Apenas mais um.

Mas senti uma alegria ao ver aquele rapaz, um servidor público, tão gentil, sorridente, dando o melhor de si.

Sabemos que nem sempre é assim.

Digamos a verdade - raramente é assim.

Postado em Crônicas | 2 Comentários »

2 Comentários

  1. Sirley Disse:

    É uma pena realmente, eu fico surpreso quando sou bem atendido por um funcionário público.
    Um dia desses vi uma reportagem, sobre um funcionário público, que foi bastante seco no tratamento a uma senhora, ela começou a reclamar a falta de atenção e ele, se sentido ofendido, chamou os guardas porque queria que ela fosse presa por desacato a um funcionário público, com base na lei 2.848 /40, a lei de desacato ao funcionário público, a senhora só não foi presa por que um dos guardas conversou com ela e com o funcionário para amenizar a questão. Pelo menos esse guarda teve bom senso, talvez seja novato.

  2. romero crespo Disse:

    a falta de simpatia no atendimento é algo crônico, tanto no público quanto no privado. bom seria se esse guarda fosse exemplo pros demais.
    mesmo assim, FORA JOÃO DA COSTA!

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