Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Sobre livros doados, comprados, expropriados, catalogados, compartilhados.

13 de junho de 2012, às 10:25h por Samarone Lima

Desde o ano passado, quando montei uma biblioteca comunitária com um pequeno e voluntarioso grupo de amigos, no Poço da Panela, tenho vivido experiências as mais diversas com o universo do livro, este velho amigo que me acompanha por todas as jornadas, desde os 12 para 13 anos. Ou seja, há quase três décadas.

Sou o responsável pela seleção final das doações, que nos chegam num fluxo interminável, desde que abrimos o espaço. Ou seja, todo sábado vou à biblioteca para fazer alguma atividade de leitura (ou levar algum amigo contador de história), depois me reúno com Naná e Ninha, os coordenadores da biblioteca, vemos as pendências, algum pagamento atrasado, planejamos alguma atividade. No final da manhã, troco de roupa e vou à luta. Boto uma bermuda mais velha e uma camisa antiga. Há geralmente uma pilha de livros para separar.

Da pilha, um grande lote é de livro didático, que as famílias descartam porque os filhos já usaram e ocupam espaço em casa. Muitos estão já respondidos, rabiscados. Serviram para a educação de alguém, agora não servem mais. Separamos para a reciclagem, onde são vendidos no peso. Há também relatórios do Ministério da Justiça de 1987, revistas velhas de aviação, de carro, coleções velhas da revista “Nova”, cadernos velhos dos filhos, muitos livros da área do Direito de dez anos atrás, inúmeras apostilas de concursos, cursos de Windows 1987 etc. A campeã nacional de doação é a “Enciclopédia Barsa”. Acho que já recebemos umas 12, completas. De fato, ocupam muito espaço em casa. Guardamos duas e doamos outras.

Dá um trabalho danado olhar tudo. Às vezes, são caixas e caixas, mas tenho pena de não fazer a varredura.  No meio de um monte de livros que não servirão para nossos leitores, é possível encontrar pérolas. Romances, livros de poesia, livros infantís, enfim. Eles vão para uma sala nos fundos, para serem encaixados. O pessoal do curso de Biblioteconomia da UFPE está nos ajudando.

Outro dia, tivemos que dar uma dura em Naná, nosso faz-tudo na Biblioteca. Como ele tem uma Kombi, as pessoas estavam telefonando para o número dele (que coloquei aqui) para fazer uma doação. Naná pegava seu ajudante, Gordinho (que é magro, Naná é que é Gordinho pacas) e saía feito um doido, para recolher as doações. Várias vezes chegou à Biblioteca cansado, com várias caixas que eram uma espécie de “sobra-da-faxina-do-entulho-que-estava-na-minha-biblioteca”.

“Mas é falta de educação não ir buscar”, alegava ele.

“Seria falta de educação se a gente não recebesse aqui, já que a pessoa se deu ao trabalho de vir. Mas gastar combustível, tempo, para pegar sobra de faxina não dá, Montanha”, era minha resposta.

Chamo Naná de Montanha. Ele parece com uma.

Então, depois de vários meses de viagens absolutamente inúteis, conseguimos convencê-lo a não ir mais buscar livros. Mesmo assim, eles continuam chegando. Parece que se multiplicam, à noite.

E agora, a boa notícia. Temos um ótimo, excelente acervo.

O grande desafio continua sendo o que a escola pública não está conseguindo – formar leitores.

Por isso, todo sábado de manhã realizamos algum tipo de atividade de leitura, seja qual for. Quando não consigo levar convidado, eu mesmo peço à meninada para escolher livros e vou lendo. Não sou contador de história, sou um leitor. Não é tão difícil. Ao final da leitura, eles invariavelmente pedem lápis de cor e papel, para pintar a história. Dali, creio, nascerão alguns leitores.

Resolvi escrever sobre isso hoje de manhã, quando acordei bem cedo e resolvi dar uma organizada geral na minha biblioteca. Vi que tenho livro em excesso. Mais que isso, livros que já li e não lerei mais, outros que não lerei, como “Vendetta” (Michael Dibdin), “O cronista esportivo” (Richard Ford), “A arte da guerra” (Sun Pin).

Com o tempo, minhas leituras vão mudando, vou querendo outras coisas, vou me apaixonando por outras. No momento, estou agarrado com o segundo volume de “Guerra e Paz”, do Tolstoi, um belo livro de poemas do Alberto da Cunha Melo (“Poemas Anteriores”) e uma coisa estupenda: “Sempre a mesma neve e sempre o mesmo frio”, da romena Herta Müller. Esses três não penso em doar nem tão cedo. São meus apegos.

Separei 85 livros para doar à biblioteca. Desconfio que temos livros demais guardados em casa. Livros que já lemos e que não voltaremos a ler.  Ou que nunca leremos. Porque quando compramos, éramos jóvens demais e nos bastavam. Ou porque lemos em uma época e agora gostamos de outras coisas. Porque mudamos o jeito de ler o mundo. Ou sem motivo, apenas o fastio.

No meu caso, pode ser também uma tentativa inconsciente de perdão. Já expropriei muitos livros pelo Brasil afora. Diria que exagerei na dose. Foi, de fato, uma carreira brilhante. Quase impecável. Ainda escreverei sobre isso.

Todo sábado faremos agora uma manhã de doação de livros à comunidade. Cada pessoa poderá levar dois exemplares. Vamos ver o que acontecerá, mas acho que algo já está acontecendo.

Postado em Crônicas | 5 Comentários »

5 Comentários

  1. Raquel Disse:

    Samarone,
    A assinatura da Turma da Mônica está chegando todo mês na Biblioteca? Na minha opnião é uma forma de fazer com que os pequenos que estão começando a ler se interessem pelos “livros”.

  2. capilé Disse:

    A livro 7 que o diga, né sama? rs

  3. livia dias Disse:

    parados na minha estante, só Josué Montello e Milan Kundera (todos comprados em sebos) pq são coleção. o resto circula pelo mundo.

    a biblioteca só abre sábado? to chegando em Recife na sexta, mas os dois sábados que vou passar aí já estão ocupados… óò

  4. livia dias Disse:

    qual é o endereço da biblioteca?

  5. Gustavo Henrique Disse:

    Você certamente não está só na lista de expropriadores de livros. [rs.]

    Concordo que sempre haverá um ou outro livro próprio pra doação, ou mesmo número razoável deles, na biblioteca da maioria dos leitores. É só dar uma avaliada mais aguda, que aparecem aqueles que a gente certamente não vai mais (re)ler.

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