Nos caminhos de Surubim (Volume I)
Samarone Lima
Há alguns meses recebi um convite do “Coletivo Surubim Avante!”, para dar uma oficina literária e lançar o meu “Viagem ao Crepúsculo”. Achei a idéia do coletivo maravilhosa e topei na hora. É um grupo de umas 60 pessoas, que se reúne em torno da cultura, para fazer Surubim avançar nesta área. Cada integrante paga 10,00 por mês e com o dinheiro (ou mesmo sem ele), fazem muitas coisas. Já conseguiram até alugar uma casa.
Ou seja, um bando de gente bacana, cheio de gás, querendo movimentar culturalmente a cidade onde nasceu o grande compositor Lourenço Barbosa da Fonseca, o Capiba.
Me detenho aqui na viagem, no sábado à tarde. Perdi o tempo da bola e cheguei à avenida Caxangá, de onde saem os carros com passageiros para Surubim, tarde demais. O próximo ônibus, o “Pinga-Pinga”, da empresa 1.002, sairia somente 15h40, com previsão de chegada à cidade às 18h40. Ou seja, em cima do horário da palestra (cancelamos a Oficina por falta de tempo).
Estava naquele marasmo canônico, desigual, sem me situar nem me orquestrar, até que aparece o Ronivaldo, me oferecendo vaga em seu Fiat Uno, de ano incerto. Com alguns dentes a menos, boné para trás, barriguinha por ali, muito sorridente e falante, ele me disse a primeira mentira das muitas tarde afora.
“Pode me esperar aqui. Estou esperando três passageiros que estão a caminho, assim que eles chegarem, a gente dispara”.
Nisso, apareceu uma moça bem aprumada, querendo saber se tinha carro para Surubim.
“Saio daqui a pouco, uma vaga já é sua”, disse Mente Bem, já de olho nas coxas da moça.
Não tinha passageiro nenhum a caminho, claro. Eu era o primeiro passageiro, se a moça topasse ir, seria a segunda. Mente Bem sobrevive assim. Tem que dar esperanças aos passageiros, para completar as quatro vagas no Uno, cada uma a R$ 20,00. Se disser a verdade, os passageiros pegam o ônibus mesmo, que custa R$ 17,00. Quanto mais mentir, mais passageiro.
Depois chegou um rapaz, branco, sem brilho, com uma testa meio torta, incapaz de dar uma boa tarde. Um daqueles amantes do celular, que interagem preferencialmente com o celular e tem assuntos intermináveis para resolver ao celular.
Mente Bem resolveu ir só com os três. Era a última viagem. Já tinha feito duas.
“Estou no ar desde as quatro da madrugada”, disse.
Era a primeira vez que falava a verdade.
Saímos às 16h. No banco de trás não tinha cinto. Já na saída deu para ver que ele gostava de correr – e de conversar. A Moça ficou na frente, para a alegria do motorista, que olhava para a pista e de vez em quando verificava como estavam as coxas dela. A moça era garçonete no Vasco da Gama e iria pela primeira vez a Bom Jardim após cinco anos.
A conversa pegou. Eu, Mente Bem e Garçonete. Celular não nos olhava. Tinha que atender e ligar seu celular a cada cinco minutos.
Conversamos muito, enquanto Mente Bem guiava o Fiat como se fosse uma Ferrari. Lá pelas tantas, a garçonete disse que estava criando coragem para ir a Bom Jardim pela primeira vez, desde a morte do irmão.
“Estava noivo. Não bebia, era querido por todo mundo do bairro. O melhor amigo dele discutiu, por causa de dez reais e deu dois tiros nele. No peito. No dia do enterro do meu irmão, mataram o assassino dele. Foi enterrado no dia seguinte ao meu irmão. A noiva do meu irmão nunca mais quis saber de homem nenhum”.
Bom Jardim, onde vivia a família, era a Pasárgada do irmão de Garçonete. Lá, era amigo do rei, tinha as mulheres que escolhia, muito embora preferisse a noiva.
Já perto de Bom Jardim, Garçonete viu uma casa com dois balanços e não conteve as lágrimas.
“Até hoje estão lá, os balanços. Meu Deus, brincamos tanto ali, eu e meu irmão…”
Ficamos em silêncio. Exceto Celular, claro, que discutia algo com a namorada desde o Recife. Garçonete enxugava as lágrimas, que escorriam por detrás dos óculos escuros.
“Fique assim não, minha filha, você é nova, tem muita coisa pela frente”, emendou Mente Bem, tocando na coxa dela.
Depois de um silêncio meditativo, Garçonete deu um estalo e respondeu.
“É isso mesmo. Pois olhe o que eu trouxe para o fim-de-semana!”
De sua mochila, puxou um litro de Teachers e um Red Bull enorme, de um litro, creio. Aquilo mata um búfalo, foi o que pensei.
“Pois hoje eu só quero é amar e querer bem”.
Ela desceu num trevo, perto de Bom Jardim. Cinco moto-taxistas se engalfinharam numa luta furiosa para ver quem levava aquela beldade na garupa, até o centro da cidade. Mente Bem ficou um pouco desolado. Apesar das inúmeras tentativas, ao longo da viagem, não conseguiu o número do celular da moça.
Às 18h estávamos em Surubim. De Celular, não sei sequer o nome. Não interagiu com nenhum ser humano.
O Júlio César, ótima figura e fundador do “Surubim Avante!, foi ao meu encontro, para acertar os últimos detalhes. Passamos na sede do Coletivo, uma casa de dois andares. Ele me contou as ações que tinham agendado para o ano, os sonhos, iniciativas, dificuldades, falta de apoio, essas coisas que sabemos bem na área da cultura.
Depois fui para o hotel. Subi para o quarto com minha mochila, o tempo suficiente para tomar um banho e organizar a apresentação. Havia uma movimentação diferente na cidade, uma espécie de picuínha de gente ciscando nas ruas, meio sem rumo, barracas demais de bebidas, espetinhos. No caminho para a palestra, estranhei e sondei com um popular.
“Vai ter o show de Mastruz com Leite e Calcinha Preta”, informou uma senhora que vendia bebidas.
Lembrei ter visto recentemente numa notinha de jornal que esses grupos ganham, em média, R$ 40 mil de cachê por apresentação. Dinheiro que sai do cofre das prefeituras do interior (muitas vezes com graves problemas na saúde, educação), para as festas da cidade, da padroeira, São João, São Pedro etc. Só naquela noite, R$ 80 mil eram gastos para o povo escutar músicas como “Você não vale nada mas eu gosto de você”.
Fui ao debate, que foi ótimo. Trocamos muitas idéias, vendi alguns livros e depois fomos (eu e o pessoal do Coletivo), tomar umas cervejas.
A cidade estava intransitável, por causa do “Mastruz” e da “Calcinha”.
Fiquei torcendo secretamente para o Coletivo Surubim Avante ganhar força, se desenvolver, para levar outras opções à cidade. Com R$ 40 mil na conta para fazer algo na área de cultura, eles fariam uma pequena revolução na cidade.
Preciso contar sobre a viagem de volta ao Recife, no domingo de manhã, novamente com Mente Bem. Eu na frente, uma senhora, que levava seu marido (que estava ficando surdo) para um Otorrino no hospital Oswaldo Cruz e um primo dela, meio tam tam do juízo. Meio não, maluco de pedra mesmo.
Foi uma viagem divertidíssima. Amanhã tem outro capítulo, igual aos folhetins de antigamente. Aguardemos.
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7 Comentários »




9 de julho de 2012, às 11:28h
Foram muitas histórias e muitas mentiras… Pois era “Mente bem” e Samarone juntos.
9 de julho de 2012, às 11:56h
Aguardo ansiosamente pelo volume II!
9 de julho de 2012, às 12:03h
Não,Samarone não mente.:-)
9 de julho de 2012, às 15:21h
Amanhã, o segundo volume sai sim!
Samarone
10 de julho de 2012, às 9:13h
Ainda bem que tua vida é bem agitada, assim tem boas estórias para nos contar. Belo texto, valeu!
11 de julho de 2012, às 1:11h
Que massa, Samarone!
Adoro o que você escreve e como escreve!
12 de julho de 2012, às 15:55h
muito legal.