Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

Apresentação


Oficinas


Livros


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

agosto 2012
D S T Q Q S S
« jul   set »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  

Arquivos


Usuários online

2 Usuários Online
Leitores:

2 Caranguejos

“Quando chegar a multa, é só recorrer…”

6 de agosto de 2012, às 15:17h por Samarone Lima

Foi ontem, num belo domingo de sol, que tive a má sorte de presenciar o péssimo trabalho de agentes da CTTU (Companhia de trânsito e Transporte Urbano do Recife).

Tinha terminado a corrida e ainda estranhava o tamanho do percurso. Ou os 5 km não foram bem mensurados, ou meu relógio endoidou, porque fiz um tempo anormal. Para melhor, claro. Deve ser fruto das Olimpíadas. Entrei no clima do Usain Bolt.

Quando fui atravessar a rua do Cais do Apolo, defronte ao Banco do Brasil, a caminho de casa, ainda tinha a coleção de cavaletes da CTTU e alguns retardatários. Então vi uma moça com a farda da CTTU apontando para o carro que vinha da direção da Prefeitura entrar à direita, na ponte Buarque de Macedo. Estranhei, porque é contramão, mas como é dia de corrida, pensei, devem ter modificado os roteiros. Aliás, nos dias de corrida pelo Bairro do Recife, mudam tudo e a população é a última a saber. Dei uma apressada, atravessei e fui caminhando pela ponte. O carro, seguindo a orientação da guarda, seguiu rumo ao Palácio das Princesas.

Quando cheguei ao outro lado da ponte, o carro estava parado. Um guarda da CTTU, que usava uma moto, pediu os documentos.

“Seu carro está na contramão”, disse ao rapaz que dirigia.

“Mas a guarda me mandou entrar à direita”, respondeu o rapaz, que ainda estava com a roupa da corrida e usava fones de ouvido.

Como não gosto de injustiças, já me meti.

“Amigo, vi quando a moça mandou o carro entrar à direita”.

O guarda acionou o rádio e falou com o pessoal do outro lado da ponte. Ele visivelmente ficou irritado.

“Mas tem uma testemunha dizendo que viu a orientação de entrar à direira”.

Conversaram e desconversaram. O guarda, já mais velho, ficou visivelmente irritado, como se fosse coisa de novato na Companhia. Falou de novo que tinham orientado assim, e que uma testemunha confirmava. Depois de um silêncio, ele decidiu.

“Tá, então vocês resolvem aí”.

Como o motorista usava um fone de ouvido, ele avisou:

“Vou dar a multa porque estava usando fone de ouvido. A multa da contramão você argumenta lá com o pessoal”.

“Mas tem uma pessoa que eu nem conheço, que disse ter visto a mesma coisa que vi, dizendo  para entrar à direita…”

O velho e batido e insuportável “não posso fazer nada” surgiu na cara do guarda, que é a tradução para o “não quero fazer nada”.

Eu não conhecia o motorista, que é jovem. Me dispus a ir com ele.

“Multa por estar na contramão deve ser uma nota e tirar vários pontos da carteira”, avisei.

Atravessamos a ponte a pé, de volta. Para mim, seria simples. Uma pessoa nova na empresa se confundiu, deu a orientação errada, basta desfazer o desentendimento e o dia segue.

“Eu nunca venho por aqui. Sou acostumado a correr no Recife Antigo e sei os caminhos”, disse o rapaz. Vou chamá-lo de Carlos, para ficar melhor.

Chegamos ao ponto, defronte ao Banco do Brasil. Não tivemos tempo sequer de dar um bom-dia.

“Você entrou na contramão, ainda apitei, mas não teve jeito”, disse uma guarda, aborricidíssima. A mocinha que tinha feito a indicação para o Carlos pegar na contramão, sequer falou um ai.

Cinco guardas da CTTU já tinham a cena decorada. O rapaz veio, entrou porque quis na contramão, foi avisado, agora só resta receber a multa em casa.

“Mas eu vi quando a moça deu a orientação para ele entrar à direita na ponte”, disse.

“De jeito nenhum”, respondeu outro guarda, exalando mau humor. “De jeito nenhum. Ela não fez sinal nenhum”.

Na verdade, parecia que o Carlos tinha feito de propósito. O cara é tão inteligente, que vai pegar uma contramão num logal cheio de guardas.

Tentamos falar que era mais simples, que foi apenas um pequeno equívoco de indicação, possivelmente de uma moça que acabou de ser contratada, mas o grau de compreensão e capacidade de ouvir, desses cinco guardas da CTTU, era no nível mais rasteiro possível.

“Quando chegar a multa, é só recorrer”, disse um deles, com sua pitada de ironia.

O Carlos ainda tentou dizer que era intransigência, havia uma testemunha, mas não havia clima para conversa. Deve ser assim que trabalham no dia a dia. A tal da cultura, como dizem.

Breve, ele vai receber a multa em casa. Dei meu telefone e email, caso precise de testemunha em sua defesa.

Voltei para casa caminhando, pensando nisso. Como a nossa cidadania esbarra quase sempre numa farda.

**

Olhei há pouco, no site da Prefeitura, a “missão” da CTTU.

“A CTTU está presente nas ruas da Capital Pernambucana como órgão ordenador do trânsito desde janeiro de 2003. Os agentes municipais de trânsito da Companhia atuam nas vias do Recife monitorando, fiscalizando e facilitando a circulação de veículos, além de promover a segurança dos pedestres e realizando ações educativas. Cabe também ao órgão o gerenciamento da Engenharia de Tráfego, que consiste na implantação e manutenção da sinalização gráfica e semafórica da cidade, definição de áreas de circulação de veículos e pedestres, bem como, definição de espaços para estacionamento”.

A presidente do órgão, Maria de Pompéia Pessoa, vai ter que trabalhar muito para que esses profissionais estejam à altura da missão proposta.

O bom senso, este sim, passou a léguas e na contramão.

Postado em Crônicas | 8 Comentários »

8 Comentários

  1. Márcia Silva Disse:

    A-ha, um conhecido meu recebeu uma multa por estacionar em cima de uma faixa de pedestre, em frente ao nº tal da rua tal, quando o endereço indicado não tinha FAIXA NENHUMA, juro, MENINOS EU VI.

  2. tatiana pelinca Disse:

    É o que acontece qdo falta a tal da educação e qdo o poder é dado a quem não tem condições de exercê-lo.

  3. sirley Disse:

    Sama,
    Ana Luiza certa vez foi multada por avanço ao sinal vermelho, em um local que ela nem estava no momento e que ela não circulava. Juntou documentação para provar que no dia e horário que foi multada estava com o carro em atividade em outra localidade bem distante de onde se referia a multa e que o esposo dela estava em viagem fora do país no mesmo dia, além de quê só ela e o marido usavam o carro (colocou até copia das passagens aéreas). A resposta do Detran foi que a prova do avanço de sinal eram incontatáveis (foi as anotações de um guarda de trânsito).
    Há cerca de um mês levei uma multa próximo ao terminal da PE15, pois mo retorno para subir a ladeira que leva a FUNESO só há uma faixa para se pegar a esquerda e entrar no retorno, em horário de pico fica horrível o engarrafamento, é um trânsito absurdo e tem que ter paciência. Alguns motoristas fazem então fila dupla para pegar o retorno, o que acaba atrapalhando o trânsito de quem segue em frente. Bem, nesse dia havia 3 guardas “organizando” o trânsito, quando me aproximei para entrar no retorno, para não fazer fila dupla fiquei bem atrás sinalizando que iria pegar a faixa da esquerda para entrar na faixa única de retorno e seguia em baixa velocidade, bem devagar, quando um dos guardas começou a apitar acenando com a mão para eu seguir em frente, indiquei com o braço que iria entrar para o retorno (conforme mostrava o pisca alerta), ele continuou apitando e fez gestos para que eu seguisse em frete e entrasse no retorno por cima da faixa divisório pintada no chão, segui a orientação do mesmo, porém, assim que passei por cima da faixa demarcada no chão e entrei no retorno, outro guarda que estava na curva apitou para mim e fez o gesto mostrando a caderneta de multa e a caneta, parei ao lado dele é disse que fiz o que o outro guarda mandou, ele então me respondeu com uma cara de poucos amigos e muta má vontade: “Té,… quando receber a multa você recorre.”
    Tentei questionar ele dizendo que perguntasse ao outro colega de trabalho, mas o mesmo, de forma mais arrogante, me ameaçou dizendo: “É melhor você seguir com o carro, se não vou lhe aplicar outra multa por parar em local proibido.”
    Fiquei muito irritado, mas segui com o carro. Nessas hora é que vejo o quanto tem pessoas mesquinhas e contaminados com a “síndrome do pequeno poder”. Essas parecem estar de mal com a vida e querem descontar nos outros sua frustrações, ou seja, usam das prerrogativas, funções e leis que deveriam servi para ajudar o cidadão e revertem isso para prejudicar e punir sem restrição, como se fosse uma vingança por suas frustrações, desconfortos, insatisfações e desprazer pela vida que levam. É uma lógica perversa.

  4. sirley Disse:

    Sama,
    Ana Luiza certa vez foi multada por avanço ao sinal vermelho, em um local que ela nem estava no momento e que ela não circulava. Juntou documentação para provar que no dia e horário que foi multada estava com o carro em atividade em outra localidade bem distante de onde se referia a multa. Incluiu copias de documentação mostrando que o esposo dela estava em viagem fora do país no mesmo período, além de quê só ela e o marido usavam o carro. A resposta do Detran foi que a prova do avanço de sinal eram incontatáveis (A prova era a multa escrita por um guarda de trânsito que estava no local da multa).
    Há cerca de um mês levei uma multa próximo ao terminal da PE15, pois, mo retorno para subir a ladeira que leva a FUNESO só há uma faixa para a esquerda que entrar no retorno. Em horário de pico fica horrível o engarrafamento. É um trânsito absurdo e tem que ter paciência. Alguns motoristas fazem então fila dupla para pegar o retorno, o que acaba atrapalhando muito o trânsito de quem segue em frente. Bem, nesse dia havia 3 guardas “organizando” o trânsito, quando me aproximei para entrar no retorno, para não fazer fila dupla fiquei bem atrás sinalizando que iria pegar a faixa da esquerda para ficar na faixa única de retorno. Seguia em baixa velocidade, bem devagar, quando um dos guardas começou a apitar acenando com a mão para eu seguir em frente, indiquei com o braço que iria entrar para o retorno (conforme mostrava o pisca alerta). O guarda continuou apitando e fez gestos para que eu seguisse em frete e entrasse no retorno por cima da faixa divisório pintada no chão, segui a orientação do mesmo, porém assim que passei por cima da faixa demarcada no chão e entrei no retorno, outro guarda que estava na curva apitou para mim e fez o gesto mostrando a caderneta de multa e a caneta. Parei ao lado dele e disse que fiz o que o outro colega dele me mandou. Ele então me respondeu com uma cara de poucos amigos e muita má vontade: “Tá,… quando receber a multa você recorre.”
    Tentei questionar dizendo que perguntasse ao colega de trabalho, mas o mesmo, de forma mais arrogante, me ameaçou dizendo: “É melhor você seguir com o carro, se não vou lhe aplicar outra multa por parar em local proibido.”
    Fiquei muito irritado, mas segui com o carro.
    Nessas hora é que vejo o quanto tem pessoas mesquinhas e contaminados com a “síndrome do pequeno poder”. Essas parecem estar de mal com a vida e querem descontar nos outros suas frustrações, ou seja, usam das prerrogativas e funções das leis, que deveriam servi para ajudar o cidadão e, revertem isso para prejudicar e punir sem restrição. É como se fosse uma arma de vingança, usada para amenizar suas frustrações, desconfortos, insatisfações e desprazer pela vida que levam.
    É uma lógica perversa.

  5. Ana Silva Disse:

    Samarone, o Recife está cheio de câmeras, se for solicitado judicialmente a gravação desse momento vai se ver com certeza a guarda falando, fazendo jestos, pro cara pegar a contramão. Aí sim quero ver dizer que não fez o que fez!
    PS: Sou Como vc, detesto injustiças

  6. Patricia Carvalho Disse:

    Valeu a corrida, o apoio ao motorista e o texto.obg

  7. Magna Santos Disse:

    Estes comentários estão virando depoimentos, testemunhos. E venho para acrescentar mais um: entrei com o chamado recurso, ou como eles dizem: recorri. O resultado? Esperei mais de ano a resposta; para vender o carro, tive que pagar a bendita.
    Abraço.
    Magna

  8. O Analista - DF Disse:

    É só recorrer e………pagar.

Conversinhas

Nota: A moderação de comentários está ativada e isto pode retardar a publicação do seu comentário. Por favor, não envie o seu comentário novamente.