Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Simplesmente correr

12 de agosto de 2012, às 15:48h por Samarone Lima

Sou cheio de manias, mas nenhuma delas, creio, causadora de males aos outros. Tive já vária fases e lembro que naquela faixa etária desagradável, entre os 13 e os 16 anos, me torneio corredor. Morava no Monte Castelo, em Fortaleza, acordava cedinho e saía correndo. Uma época, o Neto, nosso vizinho, virou meu comparsa, e certa vez conhecemos um coroa barbudo, de uns quarenta anos, que resolveu ser nosso treinador.

O miserável corria distâncias enormes, nos orientava, dava sugestões, tinha os músculos todos bem divididos. No final de uma longa corrida, ele dizia “vamos ao pique final”. Era uma distância absurda, que ele percorria com uma enorme facilidade. Eu e o Netão chegávamos a muito custo, e nos custava entender como aquele homem tinha tanto fôlego.

Depois eu deixei o sonho de ser maratonista. É um troço que exige dedicação demais, sofrimento demais, fui fazer outras coisas e o tempo passou. Esportivamente, as tradicionais peladas fazem minha alegria, algumas nadadas na piscina do Português e uma corridinha ocasional.

Foram uns trinta anos de espaço, até que a paixão pelas corridas retornou. Voltei a correr, especialmente à noite, neste exuberante pedaço do Recife, que é a Rua da Aurora. Corridas atravessando pontes, vendo o rio, pegando esta brisa. Duas vezes por semana, com a pelada da quarta, e senti que algo foi melhorando. A disposição para a vida, mais animação, melhorei um pouco a alimentação. Até que veio a “Corrida das Pontes”, dia 25 de março. Com o estímulo da minha mulher, me inscrevi, peguei o kit, o chip, para marcar a velocidade, uma garrafinha para botar água etc.

Quando cheguei ao Marco Zero, tomei um susto. Milhares de pessoas que adoram correr já estavam no local, faziam aquecimento, muitos amigos se encontravam. Meu Deus, como tem gente correndo no Recife, foi o que pensei.

Fiz o percurso inteiro (5,6km) com um tempo bem melhor do que o esperado, 32 minutos. Para um coroa de 42 anos (naquele mês), nada mal.

Ao final da corrida, no entanto, vi que tinha forçado um pouco a barra, na empolgação para chegar. O corpo acusou. Vi que precisava ir com mais calma.

Foi muito divertido voltar a treinar com calma, adaptando o corpo, vendo paciências com certos limites, aprendendo as artes dos alongamentos, as preparações todas.

Depois, me inscrevi em duas corridas. “Fila Night Run” (29/08), que achei badalada e desorganizada pacas. Nem o percurso consegui saber, antes da largada, e passamos por várias ruas amontoados em um dos lados da faixa. Por último, a corrida do “Criança Esperança”, que tinha o motivo de ajudar as crianças e adolescentes do Brasil, mas não tiveram nem o cuidado de botar a quilometragem certa. Erraram “apenas” um quilômetro. Foi bom que cheguei inteirinho ao final.

O bom foi que, neste intervalo, fui descobrindo que tem muito mais gente correndo do que eu imaginava. Na “Corrida das Pontes”, encontrei o velho amigo Inácio França. Fizemos aquecimento juntos e sua mulher, Geórgia, tirou fotos. Na “Fila Night Run”, encontreio o amigo Vandeck Santiago. Ao longo desses meses, fui encontrando um monte de gente que se dedica a uma dos esportes mais baratos do planeta – correr.

Enquanto escrevo estas notas, relembro a quarta corrida do ano. Foi hoje de manhã, saindo do “Marco Zero”, o “Circuito de Corridas Caixa”. Desta vez, além do velho e bom Inácio, Vandeck, estavam Bruno Fontes e sua mulher, Clarissa. Vários outros amigos, como o Alexandre, do nosso grupo de estudos budistas, que já corre 10 km sem cansar. Uma animação completa, às 7h de uma manhã de domingo.

Neste intervalo, encontrei um livro do escritor japonês Haruki Murakami, intitulado “Do que eu falo quando eu falo de corrida”.

Uma jóia. Ele conta sua trajetória como ex-dono de bar (meu caso) e as mudanças que ocorreram em sua vida, quando decidiu correr. Ele faz relações entre seus treinamentos, perseverança, concentração, o esforço diário, mudanças internas, bem-estar mental e sua necessidade de silêncio.

“Quando estou correndo, não preciso conversar com ninguém e não tenho que escutar ninguém falando. Tudo que tenho é fazer é olhar a paisagem que passa por mim”, diz.

Ao ser perguntando sobre o que pensa quando corre, Murakami responde assim:

“Não faço a menor ideia”.

Depois prossegue.

“Em dias frios, acho que penso sobre quanto está frio. E nos dias quentes, em como faz calor. Quando estou triste penso um pouco sobre a tristeza. Quando estou feliz, penso um pouco sobre a felicidade”.

“Na verdade”, prossegue o japa, “quando corro não penso em quase nada que seja digno de mencionar. Apenas corro. Corro num vácuo”.

É o meu caso. Estou correndo. Simplesmente correndo.

Na corrida de hoje, tive a oportunidade de fazer uma traquinagem. Na reta de chegada, vi o barulho das sirenes. Era o atleta que corria os 10km, que vinha logo atrás de mim (lembrando que corri que corri os 5km). Mandei uns beijinhos para o público, como se estivesse chegando antes. Vi duas moças segurando a faixa na linha de chegada e cruzei, para desespero dos cinegrafistas e fotógrafos, que aguardavam a chegada do corredor profissional. Ele chegou segundos depois, não sei se conseguiram reorganizar a faixa para as fotos.

Vou lá perder a chance de fazer uma peraltice?

Ps. Animado com o belo livro do Murakami sobre corridas, fui em busca de sua obra como romancista. Comprei o badalado “Norwegian Wood”. Na página 82 (de um total de 329), achei o sujeito um grande corredor. Fui ler outras coisas mais interessantes.

Postado em Crônicas | 5 Comentários »

5 Comentários

  1. tatiana pelinca Disse:

    kkkkkkkkkkkkkkkkk

  2. Tereza Jardim Disse:

    Correr é mesmo uma delícia viciante. Pode até demorar pra você pegar gosto de verdade, mas uma hora pega.

    Já fiz uma corrida de rua de 10km, há 5 anos, e só este ano consegui voltar a me preparar pra ela (considerando uma meningite que interrompeu meus treinos por 15 dias e me tirou boa parte do preparo já adquirido)

    Tenho duas motivações para correr. A primeira, esse tempo de reflexão vazia. Uma chance quase única de ficar a sós, de não ser interrompido em seus devaneios.

    A outra, a superação. Treinar para, a cada corrida, terminar o treino com mais disposição e em menos tempo. Particularmente, o esforço da superação dos limites físicos me impulsiona a superar meus limites em outros aspectos da vida.

    Tens sorte de morar numa cidade tão linda pra se correr! Aqui em Belém é difícil pela segurança, e pela chuva também. Acabo correndo na esteira mesmo =(

    Por fim, não posso deixar de te parabenizar pela peraltice, haha! Jamais eu teria coragem de tal ousadia, mas achei excelente a ideia =)

  3. Tany Disse:

    KKK, Sams,é mesmo muito bom tirar essa casquinha na chegada da corrida, e depois passar algumas horas com roupa suada e medalha no peito (aquela que vem junto com o suco de goiaba e a barrinha de cereal na sacolinha do lanche), sorrindo e recebendo sorrisos de simpáticos estranhos que nos olham interrogativos… a peraltice maior é silenciar todo o barulho desses nossos tempos… essa é mesmo uma grande vitória…

  4. Neto board Disse:

    Olá Sama,
    Fico feliz por ter voltado a correr.O “coroabarbudo”,descobri que ele é médico.Uma figura cumpade,coisa de filme.Te espero
    para aquela velha corridinha a beira-mar.

  5. samarone Disse:

    Netão, breve faremos uma boa corrida na beira-mar, rumo á Leste-Oeste.
    Abraços na turma toda.
    Sama

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