Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

Apresentação


Oficinas


Livros


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

março 2014
D S T Q Q S S
« fev   abr »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

Arquivos


Usuários online

6 Usuários Online
Leitores:

4 Caranguejos
2 Escafandristas

Exercício prático de contradição

26 de março de 2014, às 11:50h por Samarone Lima

É engraçado isso. Gosto de lentidão e de correr. Gosto de silêncio, quietude, e adoro estádio de futebol. Fico feliz da vida quando passo vários dias sem beber, parece que estou no Nirvana, e adoro tomar uns pileques, quando chamo urubu de meu louro. Posso ir a um bom churrasco e me esbaldar nas maminhas e picanhas, mas uma das minhas comidas prediletas é arroz integral com azeite de oliva e molho Shoyo. Amo as viagens, mas detesto aquela coisa que voa, chamada avião. Ou seja, sou mesmo um exercício prático (e ambulante) de contradição.

No domingo passado, vivi isso de forma tão intensa, que quase fui para o beleléu.  Explico.

É que gosto de correr já faz tempo, mas só há três anos, com a Corrida das Pontes, resolvi participar de corridas organizadas, com todo o aparato, percurso organizado etc. Achei ótimo, mas vi como estava enferrujado. Terminei a primeira prova de 5,6 km aos trancos e barranco. Tem até foto minha com Inácio França, meu velho amigo, antes e depois da prova.

Então peguei gosto, corri outras. Algumas são bem divertidas, outras são chatas, porque botam a entrega do kit para o Shopping Recife, em Boa Viagem, e acho Boa Viagem um país longe pacas. Ano passado, pasmem, ganhei a Corrida das Pontes nos 5,6 km na categoria Jornalistas, com direito a troféu no pódium, foto e tudo o mais. Foi ótimo, mas o bom mesmo foi curtir o final da corrida, encontrar amigos e  conhecer o organizador do evento, o grande sujeito que é o José João da Silva.

Nesse intervalo (2012-2014), o Recife conheceu uma verdadeira febre de corridas. Como moro na Rua da Aurora, palco ideal para esse tipo de eventos, passaram pela minha janela, ao longo desses anos, milhares de sujeitos correndo, de todas as cores, idades, tamanhos, pesos, com suas indefectíveis camisas coloridas (de cada corrida), o número no peito e o chip amarrado ao cadarço, para marcar o tempo.

Já tinha experimentado duas corridas de 10km e foram legais. Nada anormal. Gosto de correr. Vou meditando, esqueço das coisas, respiro mais fundo, lembro dos amigos, faço umas meditações meio malucas, mandando energia para pessoas que acho que precisam, essas doidices.

Este ano, me inscrevi nos 10km da Corrida das Pontes, categoria Jornalista. Saí de casa feliz da vida, lembro da concentração, alguns amigos, o aquecimento, mas não vi o amigo Inácio na concentração, o que não foi bom sinal.

A largada foi às 7h, fui no meu pique normal, virei os 5 km numa boa, fui sem exagero, até que resolvi dar o meu pique final, inspirado num corredor que admiro muito, o Emil Zatopeck. Faço isso sempre nos dois últimos quilômetros, mas acho que calculei mal. O pique acabou sendo numa distância muito maior.

O certo é que cruzei a linha de chegada, me escorei num ferrinho e a cortina desceu. Sumiu o som e a imagem.

Acordei às 9h45, creio, numa maca. Olhei para o teto e vi as luzinhas passando. Fazia o frio do ar-condicionado. Silvia, minha mulher, que trabalho na assessoria da Corrida, acompanhou tudo desde o início. Passei mal, piorei. Fomos de ambulância para a UPA de Nova Descoberta, depois chegamos à UPA da Caxangá. Eu estava sem o cartão da Camed, e como o Plano de Saúde está em franca decadência, com uma penca de médicos se desfiliando, talvez tenha sido até melhor.

Na verdade, tive um atendimento da melhor qualidade. Fiquei impressionado. Não sei se pelo meu estado semi-vegetativo tive prioridade, mas não faltou nada, em nenhum momento, aproveito para agradecer a todos os funcionários da UPA da Caxangá.

Silvinha disse que foi uma Ódisséia. Se aperreou pacas. Disse que tive delírios. Comecei a me despedir, certo da morte. Dessa parte, eu me lembro.

A primeira frase que escutei, quando voltei, foi:

“Meu amor, você ganhou a corrida na categoria Jornalista”.

Era uma espécie de consolo, para tentar me animar.

Fizeram uma penca de exames. Eletro, aquele do coração, que esqueci o nome, depois fiquei num quarto, tomei aquelas bolsas de soro e finalmente fui liberado.

Só mais tarde vou buscá-los, para saber o que aconteceu. O certo é que quase não bebi água durante toda a corrida e que não tenho nenhum corredor na família, muito menos parentes no Quênia.

Posso dizer que vi bem de perto o beleléu. As cucuias. Uma luzinha escura que vai afunilando, afunilando, até não ter quase nada. Eu só escutava as pessoas conversando ao meu lado, e não tinha reação. Já posso dizer – “no ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”.

Mas abri os olhos de repente e voltei.

Estava pensando muito sobre tudo isso, quando o velho e insuperável amigo Arsênio me mandou um email. Resume tudo em poucas palavras.

“A poesia também é deixar-se inerte, abandonando-se no meio da pista, carregado sem macas, Upas, Ambulâncias, para sentir o peso do esquecimento, carregado para longe do pódio, para longe de todo e qualquer lugar”.

A vida, que belo exercício prático de contradição…

Postado em Crônicas | 7 Comentários »

7 Comentários

  1. dançadeira Disse:

    havia um menino correndo e mulheres com as pernas em transe, talvez ausência de afetos, talvez outros excessos… havia gritos infantis e sangue, sim, muito sangue… havia a estrada cortada em tantos becos e esquinas que as horas caminhavam para trás… havia uma homem cansado, recostado em sua sombra como um cochilo de fim de tarde numa casa aberta… mas não lembro de ter ouvido exatamente vozes em volta naquela visita ao mundo reservada com zelo para o dia que passava, acenando e sorrindo… só me cabia ouvir um coração latindo como louco, todo o resto calado… ainda não descobri se o cão se chamava vida ou silêncio… havia os mistérios e o sol e havia muitas árvores também, plantadas como um canto ausente, onde todos os espíritos cativos dos corpos doentes dançariam suas chamas ao amanhecer… e a morte indiferente, palitava os dentes festejando a sorte da comédia humana…

  2. Eduardo Disse:

    Samarone, falando em meditação durante a corrida, tem uma que é assim: Enquanto se corre (ou caminha), você conta quantos passos dá enquanto inspira e depois conta quantos passos dá enquanto expira. É bem legal e te ajuda a viver o momento presente. Chama-se meditação andando (ou correndo). Pode-se também recitar um mantra encaixando uma palavra para cada passo. Recomendo a todos, é muito prazeroso!

  3. Antonio Gueiros Disse:

    Pô, Sama, que barra. Espero que tudo esteja bem. Abração!

  4. Tércio Disse:

    Samarone, meu fisico ta sempre variando entre gordo e mais ou menos magro. O chamado “efeito sanfona”. Entrei na academia por motivo de saúde. Lá encontrei e me enturmei com o grupo de corrida. Voltei a emagrecer. Quando estava em evolução, eis que tive a primeira lesão. Distensão abdominal. Parei de correr.Voltei tempos depois, e outra lesão. Desta vez, tendinite aquileana. Mas enfim, acabei por fugir do prpopsito deste comentario. Quando entrei no grupo, aprendi que não seo deve treinar sempre aquela distancia que se pretende fazer, isto é, estabelecer uma meta por semana. Assim, se se treina 3 vezes por semana, divida-o em 8km, conforme sua necessidade. E assim vai. Entendesse neh?

  5. sama Disse:

    Tercio, entendi mais ou menos.
    samarone

  6. Michaels free shipping Disse:

    Some have complained about the subtitles being within the movie rather than in the black bars below.

  7. Jet free shipping Disse:

    La numéro 5 est fausse. Le vrai fan n’utilise ni cuillère, ni couteau mais possède un Tarti’nutella !

Conversinhas

Nota: A moderação de comentários está ativada e isto pode retardar a publicação do seu comentário. Por favor, não envie o seu comentário novamente.