Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Errâncias literárias e outras derivações

10 de fevereiro de 2015, às 11:06h por Samarone Lima

Sempre que encontro alguém com o sonho de se tornar escritor, me pergunto se ele vai mesmo topar a parada, porque viver do que se escreve é algo que começa bem antes da decisão, é uma vida inteira. Mais que isso, implica numa relação extrema e íntima com a solidão. Num mundo cheio de demandas e estímulos, o escritor luta com unhas e dentes para conseguir ficar só. Ou seja, é uma luta para conseguir tempo. Pelo que sei, é bem difícil escrever no supermercado, nos engarrafamentos, ou trabalhando em alguma coisa (para sobreviver), que não tenha nada a ver com a escrita.

Agora mesmo, estou mergulhado num livro que venho perseguindo há anos. Ele não me larga, nem eu o abandono. Consegui fazer umas economias e, se tudo der certo, até julho estarei concentrado só nele. Nessa longa jornada, outros projetos foram surgindo, e fui dando conta. Vai uma pequena autobiografia literária:

“Zé – José Carlos da Mata Machado, reportagem biográfica” (1998), nasceu do meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, na Universidade Católica de Pernambuco, em 1993. No ano seguinte, me mudei para São Paulo e continuei a pesquisa. Escrevi o livro lutando braçalmente pelas manhãs livres. Primeiro como free lancer, depois na animadíssima redação do Diário Popular, onde trabalhava na editoria de Polícia. Levei cinco anos para concluir, e quando mandei os originais para algumas editoras, a mineira Mazza se antecipou. Eu estava com 29 anos e nem nos meus sonhos mais ousados, imaginaria ter um livro publicado antes dos trinta.

“Clamor” (2003) foi, certamente, o livro em que tive mais sorte. Primeiro, porque passei no mestrado da USP (1999), depois de ter sido rifado na Unicamp e na PUC. Segundo, porque consegui uma bolsa de pesquisa da Fundação Ford para pesquisar sobre as ditaduras do Chile, Uruguai, Argentina e Brasil. Com o dinheiro para a pesquisa, que durou um ano, pude conhecer -e bem – a América Latina. Além disso, a minha co-orientadora, Cremilda Medina, uma das grandes mestras do jornalismo, me deu aquele empurrão rumo ao desconhecido, permitindo que eu escrevesse a dissertação do jeito que eu queria. Nunca olhei sequer as normas da ABNT. Quando terminei o trabalho e fui aprovado pela banca, mantive o ritual do “Zé” – imprimi cinco volumes, encadernei e mandei para cinco editoras.  A Objetiva deu um retorno rápido e graças à maestria editorial da Isa Pessoa, o livro ficou mais encorpado. Trabalhei duro uns quatro meses para ampliar alguns capítulos e refazer outros, aproveitando o dinheiro da demissão da Católica (valeu, Fradique!), onde ensinava “Técnicas de Reportagem”.

Foi um período e tanto. Morava no Poço, trabalhava duro de manhã e depois encostava na venda de Seu Vital perto do almoço. Muitas vezes, o almoço que dona Severina me servia se tornava o tira-gosto, compartilhado com o gordinho Naná. Escrevia minhas crônicas à noitinha e voltava para o mesmo lugar à noite. O livro foi lançado em 2003 e é bem fácil encontrá-lo nos sebos e na estante virtual.

Como eu já tinha um bom traquejo com as crônicas, publiquei “Estuário”, em 2005. Foi um livro bem caseiro, feito com a ajuda de amigos, especialmente o Edelry Júnior. Primeiro, pela “Livro Rápido”, de Tarcísio Pereira, depois uma edição mais caprichada, pela Bagaço, após a insistência do amigo Ricardo Melo. As duas edições venderam fácil e não tem mais nem para remédio. Como esta postagem é a de número 856, dá para fazer uma seleção e tanto, para um novo livro.

Mas alto lá. Se você quer ser escritor, não adianta sentar e escrever qualquer coisa ou “de tempos em tempos”. O leitor não é nada besta. Se ele perceber que você está enrolando, não volta mais. Quantos sites e blogs fui deixando, ao longo dos anos, quando via que o autor estava ficando relapso ou repetitivo? Muitos. É preciso também cuidado com nossa língua. Escrevo, publico, depois leio para ver se tem erro. Se sai algum errinho, a turma dá logo uma cacetada.

O livro sobre Cuba (“Viagem ao Crepúsculo”) foi o mais inesperado. Nasceu de uma viagem à Ilha, entre 2008 e 2009. Fiquei tão impressionado com tudo o que vi e vivi, ficando hospedado nas casas dos cubanos, que fui enchendo meus cadernos de histórias e situações. Na volta, ofereci à Objetiva, que recusou (a Isa estava de férias, creio). Mandei os originais para outras editoras, que não deram a menor bola, diziam que se Fidel Castro morresse, o livro perderia a validade, então publiquei pela pequena e modesta Casa das Musas, dos meus amigos Gustavo de Castro e Florence Dravet, de Brasília. Fidel segue vivo até hoje.

Foi um barato. Gustavo me mandava lotes do livro, pela Itapemirim Cargas, eu pegava com Naná e levava para a livraria Cultura. Eles ficam com 50% do valor da venda (que acho um exagero), mas como têm lojas em várias capitais, era uma forma de fazer o livro circular. Virei figurinha carimbada na Livraria Cultura daqui. Vendemos inacreditáveis 2.000 exemplares. Depois fiz outro lote (de 500) pela Paés, que também esgotou.

Neste caso, o livro foi o resultado de uma viagem (que fiz na raça), da decisão de ficar na casa dos cubanos, também à sorte de ter conhecido o Martin (brasileiro) e o Pedro (venezuelano), que estudavam Medicina por lá. Eles me abriram portas e janelas de uma Cuba que dificilmente eu teria acesso, sozinho. Depois conheci Celeste, uma figura admirável, que todos os leitores comentam até hoje.

Mais que isso, eu tive fé no livro, acreditei nele, e joguei minhas forças. Eu queria mostrar uma Cuba bem diferente do que muita gente fantasiava. A realidade dos cubanos me acertou em cheio. Estou com planos de voltar, para ver o que mudou, após cinco anos. Pelo que sei, dos poucos contatos que mantenho, quase nada.

Bem, mas havia um problema interno, de enormes proporções. Escrevo poesias desde os 13 anos. Meus diários estão repletos de poemas ruins, péssimos, ridículos, alguns razoáveis. No meio desse vendaval de cadernos, poemas que me pareciam dizer algo. Fui publicando meio na surdina num blog (www.quemerospoemas.blogspot.com).

O problema era terrível. Eu nunca acertava a mão na seleção dos poemas. Imprimia, lia numa noite e achava uma maravilha. No dia seguinte, cortava boa parte deles e achava uma parte horrível, e desistia. E cá entre nós – não há nada tão desagradável, do ponto de vista literário, que a má poesia. Se for de um amigo, eu sofro ainda mais.

Eu já estava quase beijando a lona, quando surgiu a figura inesperada de um leitor que era amante da poesia, o velho em bom Arsênio Júnior. Graças a ele, que topou ler e selecionar tudo o que tinha no blog, surgiu, no final de 2012, um livro duplo – “A Praça Azul” e “Tempo de Vidro”, novamente pela Paés, num esquema de co-edição. No final de 2013, fruto desta pareceria e com o olhar da editora Karla Melo, nasceu “O Aquário desenterrado”, pela editora Confraria do Vento.

Já estou com um novo lote de poemas e devo lançar outro livro no segundo semestre. Não sei nem de onde surgiu esta ideia de falar sobre os meus livros. O texto ficou até grande demais. Inicialmente, pretendia falar sobre o trabalho do escritor, e que estou muito animado com este momento. Que continuo escrevendo, que minha escolha é esta mesmo, que assim sou mais feliz. Essas coisas desaprumadas que costumo compartilhar com meus leitores. Agora mesmo, são 12h36 e nem pisei na calçada, aqui engalfinhado com meus escritos.

Outro dia, uma amiga me contou que, após ler o poema “O elefante azul”, passou a ter mais cuidado com o que diz para as crianças.

Ganhei dois prêmios literários ao longo da vida, mas esta pequena e singela confissão valeu muito mais.

Até porque já fui criança e sei bem que os adultos, às vezes, dizem coisas devastadoras.

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