Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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O poeta e o que restou da Revolução Cubana

19 de fevereiro de 2015, às 13:43h por Samarone Lima

Já escrevi sobre Cuba aqui no Estuário, mas volto ao tema por causa de uma entrevista do grande cantor e compositor cubano Pablo Milanês ao jornal “El País”, no sábado passado, quando eu iniciava minha maratona carnavalesca. Vai o link:

http://brasil.elpais.com/brasil/2015/02/13/cultura/1423851530_536670.html

A decepção do artista, que durante muito tempo foi um dos defensores da Revolução Cubana, é enorme. Aos 72 anos, tendo passado por graves problemas de saúde (recebeu um rim de sua mulher), o criador da Nova Trova Cubana, ao lado de Silvio Rodriguez, parece ter se dado ao direito de falar abertamente sobre tudo o que viveu e sente.

Uma das partes mais terríveis é quando o jornalista o pergunta sobre as UMAP – conhecidos campos de trabalho forçado, ainda no início do novo regime:

“Nunca me perguntaram tão diretamente sobre as UMAP (ironicamente, Unidades Militares de Ajuda à Produção). A imprensa cubana não se atreve e a estrangeira desconhece a nefasta transcendência que aquela medida repressora de caráter puramente stalinista teve. Estivemos ali, entre 1965 e finais de 1967, eu e mais de 40.000 outras pessoas, em campos de concentração isolados na província de Camagüey, realizando trabalhos forçados desde as cinco da madrugada até o anoitecer, sem nenhuma justificativa nem explicações, e muito menos o perdão que estou esperando que o Governo cubano peça. Eu tinha 23 anos, fugi do meu acampamento — e me seguiram mais 280 companheiros que estavam presos no mesmo território que eu — e fui a Havana para denunciar a injustiça que estavam cometendo. O resultado foi que me enviaram por dois meses à prisão de La Cabaña, e depois fui transferido para um acampamento de castigo pior que as UMAP, onde permaneci até que essas unidades fossem dissolvidas devido à pressão da opinião internacional.

Quando ainda estava lá, após ler Um dia na vida de Ivan Denisovich, de Aleksander Solzhenitsyn, que um amigo me enviou, me dei conta de que as ideias de um revolucionário não se desviam por causa dos erros cometidos pelos dirigentes. Então, saí mais revolucionário. A UMAP não foi um fato isolado. Antes de 1966, Cuba se alinhou definitivamente à política soviética, incluindo procedimentos stalinistas que prejudicaram intelectuais, artistas e músicos. Segundo a história, em 1970 começou o que era chamado de o quinquênio cinza, e eu defendo que esse período começou em 1965 e que foram vários quinquênios”.

**

Agora falo um pouco de mim, enquanto escuto o CD “Silvio Rodriguez/Pablo Milanes en vivo en Argentina”.

Fui a Cuba no final de 2007 e voltei no início de 2008 com um esboço de livro na mochila. Ganhou o título de “Viagem ao Crepúsculo” após a delicada leitura de Flávia Suassuna.

O livro trata, essencialmente, do cotidiano do povo cubano. Eu já tinha escutado alguns relatos, de pessoas que viajaram em outras épocas, mas não imaginei um país tão devastado. Não imaginava a fome cotidiana, ao me hospedar na casa dos cubanos. Muito menos o medo que os cubanos têm de falar sobre o regime que, naquele momento, caminhava para os 50 anos. Quando você conhece um lugar em que as pessoas reclamam baixinho, disfarçando, é porque o medo está enraizado. Vi isso inúmeras vezes.

“Se prepare para levar um pau grande da esquerda”, me avisou Homero Fonseca, após ler os originais.

O livro foi publicado em 2009, pela Casa das Musas, e comecei a participar de debates. Era comum ver dedos apontados, uma gente com muita raiva do que eu tinha vivido escrito, fora os comentários irônicos sobre “quem deveria ter financiado a viagem e o livro”, essas coisas.

A comparação com a realidade brasileira era o recurso mais óbvio. Aquela lorota de que “neste instante, não há uma criança cubana com fome”. Eu respondia que era um brasileiro que tinha escrito um livro sobre a vida cotidiana em Cuba, e que não via motivo nenhum para citar aquela realidade como exemplo. O livro é o relato de uma decepção profunda.

Também não gostavam nada quando eu falava dos presos políticos, do jornal único (na verdade são dois), da TV estatal repetindo “Viva la Revolución” a cada intervalo, da absoluta falta de expectativa dos cubanos sobre o futuro, além de uma frase de Fidel Castro, que me causou um engasgo, pintada no muro de um órgão do governo:

“Que somos e seremos, a não ser uma só história, uma só ideia, uma só vontade, para todos os tempos”.

O livro está esgotado e vinha pensando em fazer uma nova edição, atualizada, retornar a Havana para rever os muitos amigos que fiz, ver o que mudou, após seis anos, embora saiba que nada de importante para a liberdade e a vida cotidiana tenha acontecido. As filas devem continuar intermináveis, para buscar a comida racionada com uma carteirinha individual.

Muita gente me pergunta onde encontrar o livro, quando sairá outra tiragem, mas não sei responder. Eu já lutei demais com meus livros. Às vezes dá menos trabalho escrever do que publicar. Vou ver se disponibilizo o conteúdo na Internet.

A entrevista do Pablo Milanes me fez pensar muito sobre essas coisas que nos dizem ser exemplo, mas que muitas vezes são apenas ideologia grosseira e mesquinha. Há quem defenda com unhas e dentes o regime. Eu respeito, mas Cuba, para mim, vive debaixo de uma ditadura brutal, que perseguiu poetas, romancistas, músicos, pensadores e qualquer tipo de oposição, como as “Damas de Branco”, mulheres simples que lutam por liberdade.

“Arrependido não é, precisamente, a palavra. Estou mais decepcionado – e acho que os que pensam como eu também – com dirigentes que prometeram um amanhã melhor, com felicidade, com liberdades e com uma prosperidade que nunca chegou em 50 anos”.

É Pablo Milanes quem fala. Pode ser que aqueles que me apontavam o dedo, um pouco ferozes, escutem.

Pare Celeste, em Havana. Quem leu o livro sabe o motivo.

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