Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Anotações sobre a morte e a vida, ou vice-versa

23 de fevereiro de 2015, às 11:32h por Samarone Lima

O título da crônica de hoje tem uma relação com a leitura de dois textos, coisas boas, que não consigo ler nos jornais do Recife, obcecados pelos fatos, crimes e redundantes coberturas políticas.

O primeiro foi uma entrevista bem surpreendente, com o médico britânico Richard Smith, publicada na Folha de São Paulo, sábado passado. A manchete chega dava um susto:

Não há melhor forma de morrer do que de câncer - Doença permite se despedir, refletir e fazer pela última vez o que quiser”, afirma médico.

A foto mostra um sujeito de 62 anos, com um largo e bom sorriso, cabelos que parecem ter levado um banho de talco e aqueles dentes amarelados dos ingleses.

Claro que fui ler. Teve gente da minha família que morreu de câncer, pessoas amigas, e a doença é bem dolorosa para quem a vive na pele.

A tese dele (publicada no início do ano), é a de que “você pode dizer adeus, refletir sobre a vida, deixar mensagens, visitar lugares especiais pela última vez, ouvir as músicas favoritas, de acordo com suas crenças, para encontrar seu criador ou curtir o esquecimento eterno”.

Ou seja, o câncer ataca essencialmente pessoas sempre bem de vida, que podem reunir amigos, viajar, sem dores brutais, impedimentos, remédios devastadores, têm à disposição hospitais e ótimos médicos, e a palavra “Dor” sequer aparece.

Segundo o Smith, nós partimos desta para outra viagem de quatro maneiras: morte súbita, demência, falência dos órgãos e câncer, “que ocorre ao longo de semanas, dando tempo para despedidas e toda sorte de preparativos”.

É mesmo algo bem idealizado, mas o que ele diz, ao longo da entrevista, é que devemos nos preparar (ou pensar a respeito) para a morte.

“Os filósofos estóicos, como Sêneca, mostraram claramente que contemplar a própria morte não só leva a uma morte melhor como uma vida melhor. Uma aceitação por inteiro da morte significa uma vida plena. Para mim, a morte dá significado à vida. É um ciclo natural”, a  diz.

Respeito as ideias do médico, mas esse câncer que ele cita é diferente do que eu já vi de perto. Eu prefiro mesmo a morte súbita, sem tempo para despedidas, sem viagens para lugares especiais pela última vez, nem me preparar, pois acho que estar vivo, hoje, batucando esta crônica quase médica, é um verdadeiro milagre. Todo dia, na minha filosofia do desaviso, é o último.

Mas no dia seguinte à entrevista do britânico, a mesma Folha de São Paulo publicou uma bela profunda carta de despedida do neurologista e escritor Oliver Sacks, também britânico. Se intitula “Minha vida”. Vai na linha do “tempo para fazer os acertos”.

Ele tem 81 anos, e até outro dia, nadava 1.600 metros todo dia, tinha o que ele mesmo denomina de “uma saúde de ferro”. Há algumas semanas, descobriu que tinha “múltiplas metástases no fígado”. Há nove anos, já tivera um raro câncer no olho, fez tratamento (que o deixou cego de um olho), e conseguiu seguir a vida. Até que ele retornou, “Estou entre os 2% desfavorecidos pela sorte”, diz.

Agora, ele está cara a cara com a morte. O avanço desse tipo particular de câncer não pode ser impedido.

E agora, Oliver?

“O que me cabe agora é decidir como viverei os meses que me restam. De vive-los da maneira mais rica, profunda e produtiva que puder”, diz o neurologista, encorajado pelas palavras de um de seus filósofos favoritos, David Hume, que teve uma morte por doença, mas seguiu com o espírito elevado. “Possuo o mesmo ardor de sempre pelos estudos, e a mesma alegria na companhia de outras pessoas”, escreveu Hume.

Sacks diz os seus planos para o tempo que lhe resta:

“Sinto-me intensamente vivo, e quero e espero que, no empo que resta, eu possa aprofundar minhas amizades, dizer adeus aos que amo, escrever mais, viajar, se tiver força para tanto, alcançar novos graus de entendimento e de discernimento”.

“Isso vai requerer audácia, clareza, franqueza: é uma tentativa de acertar as contas com o mundo. Mas haverá tempo, também, para diversão (e até mesmo para um tanto de tolices)”.

E talvez este seja o parágrafo que me fez escrever esta crônica quase médica:

“Sinto uma súbita nitidez de foco e de perspectiva. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso me concentrar em mim, no meu trabalho, nos meus amigos. Não vou mais assistir ao noticiário na televisão toda noite. Não darei mais atenção alguma à política ou ao aquecimento global”.

Hoje, no café da manhã, comentei com a Sílvinha sobre o artigo do Sacks, que ela também tinha lido.

“Mas é preciso estar perto da morte, para que isso aconteça?’

Concordei inteiramente.

É muito bacana ter uma saída poética, com despedidas, poder viver a própria vida e morrer a própria morte, como diz o Sacks, mas isso pode acontecer sem aviso prévio.

Outro dia eu estava num perrengue triste com uma amiga. Começou com uma discussão infeliz, descambou para uma troca de email desafortunada e resultou em hematomas dos dois lados. Depois de uns dias, veio um email gelado, que nos levaria a uma amizade desamparada, triste, quando algo se quebra e não faz mais “clic”, como as melhores caixinhas. Lembrei que a vida é curta para ficar com besteiras. O tal do “orgulho ferido” é um troço triste. Respondi noutro tom, afetuoso e acolhedor. E tudo se desmanchou.

Marquei de tomarmos um bom vinho para conversarmos sobre a vida, que é breve e pede cuidado, e a plantinha da amizade já começou a esverdear.

“Viver é distrair-se da morte”, já dizia o velho e bom Macedônio Fernandez. Não por acaso, uma das frases que mais repito, em momentos diversos, é a do poeta Paulo Leminsky:

“Distraídos venceremos”.

Essas minhas crônicas, realmente, não levam a lugar nenhum, mas vamos em frente…

**

Nota.

Abriram um Facebook com meu nome (Samarone Lima), com foto e tudo o mais. Não sei quem tomou a decisão. Só espero que não coloquem por lá coisas que não escrevi ou  disse. Se algum leitor passar por lá, favor me avise se esse Samarone está se portando bem no “Face”…

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