Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Ferreira Gullar: uma pequena homenagem

5 de dezembro de 2016, às 9:47h por Samarone Lima

ferreira gullar

Há mortes que se entrelaçam. É uma crença minha.

Ferreira Gullar, que morreu ontem (4), no Rio de Janeiro, aos 86 anos, tinha um grande amigo aqui no Recife, que também foi meu grande amigo, o inesquecível Arsênio Meira de Vasconcellos Júnior.

Em nossos muitos encontros, ao longo de cinco anos, Gullar fez parte das conversas. Certa vez, Arsênio mandou uns poemas meus ao velho poeta maranhense. Eram os originais de “A praça azul”, meu primeiro livro, que só foi publicado porque Arsênio foi o responsável pela seleção e organização e prefácio. Quebrando um protocolo dos dois, Arsênio me repassou a resposta, que guardo comigo com extremo carinho. Na verdade, uma honra. Sempre achei que teria a felicidade de um entardecer no Rio de Janeiro, tomando um café com Gullar e Arsênio, em Copacabana, onde o poeta morava. Não deu.

Arsênio morreu em 18 de outubro de 2015, aos 40 anos. Foi uma pancada. Eu e Inácio, amigos “literários”, por assim dizer, ficamos arrasados. Tenho uma foto de Arsênio aqui no meu mural, dando um sorriso bom, manso. Ele me faz falta mesmo, mas a vida é assim mesmo, cheia de mistérios, quebras e perdas, além de felicidades não acontecidas, mas que a gente realiza na imaginação mesmo.

Pois acho que desde domingo os dois se encontraram.

Esta é minha pequena homenagem à poesia, aos poetas e a quem ama a poesia sem escrever, como foi o caso de Arsênio, meu velho e bom amigo que jamais esqueço.

**

Estou tocando um projeto literário que se intitula, por enquanto “Biografias Poéticas”, onde faço uma homenagem aos poetas que são da minha legião estrangeira. Vai um trechinho da parte que cabe ao Ferreira Gullar. Mas ainda está incompleta (falta ampliar e revisar). Acho que até janeiro termino este projeto. Arsênio, por sinal, já tinha lido esta parte.

**

O poeta maranhense Ferreira Gullar

Passou dez meses clandestino

No Rio de Janeiro

Após o golpe militar de 1964.

 

Não era guerrilheiro, não conhecia armas

Era apenas mais um comunista na hora da caçada.

 

Sentia saudades das noites do Rio de Janeiro

Das conversas nos bares

Das manhãs de sol na praia

da cerveja gelada,

da casa

dos filhos, livros

da poesia

e do seu gatinho Camilo.

 

Fugiu para Moscou.

 

No Intituto Marxista-Leninista

Passou a ser chamado de Claudio.

Teve aulas de Revolução

Aprendeu a metodologia de “O Capital”

O materialismo dialético

O materialismo histórico

Mas nada daquilo o interessava.

 

No intervalo de uma das aulas

Deparou-se com dois olhos verdes, oblíquos

Uma mulher ruiva, com os cabelos presos à nuca

E um sorriso que o incendiou por dentro.

 

Elôina, era seu nome, soube depois.

 

Quando o viu, ela teve um susto.

“Meu Deus, que homem estranho é esse?”, pensou

(acreditava que Mefistófeles

Acabara de chegar a Moscou).

 

Uns amigos tinham avisado, dias antes

Que chegaria em breve

Poeta brasileiro.

 

Quando avistou aqueles olhos

Ela adivinhou

“Este é o poeta”

(mas achava que ele tinha a aparência

do diabo).

 

A primeira frase que ele disse, em russo

Foi “ótin craciva”

(que a achava muito linda)

E seu rosto perdeu a cor.

 

Se amaram loucamente

Certos de que haveria uma data

Para acabar.

 

No dia de ir embora

Ela pediu que ele prometesse

Que um dia voltaria.

 

Ele prometeu

E desceu as escadas de sua casa

na gelada Moscou

como um autômato.

 

Na rua, escutou o grito:

“Já começo a te esperar!”

 

Ele apressou o passo

Dentro da noite veloz

E logo escutou sues passos

(ela vinha correndo e se jogou em seus braços e passou a beijar sua boca, seus olhos, repetindo que o amava).

Depois ela disse

“Vai, vai embora!”

 

Ela ficou, ele apressou o passo.

“Estou cada vez mais longe dela”, pensava.

“Como pode? Estou caminhando deliberadamente

Na direção contrária à minha felicidade!”.

 

Na última curva da alameda

Ele olhou para trás e já não a viu.

Sabia que nunca mais a veria.

 

Na manhã seguinte, como um autômato

Estava em um avião, rumo à Itália.

 

Em Roma, na cama de uma pensão ordinária

O poeta tirou os sapatos

e ainda vestido

disse a si mesmo, numa explosão de lágrimas e soluços:

“Eu nunca mais vou vê-la”.

E repetiu o que o tempo tornaria verdade:

“Nunca mais”.

 

Ao acordar, de madrugada

Era um homem vazio, morto, conformado.

 

Quando retornou ao Brasil, anos depois

Os amigos o aguardavam em festa.

Entre os tantos abraços, soluços

Perdeu a bolsa de viagem.

 

Entre outras coisas

Estava o único retrato de Elôina.

Postado em Crônicas | 4 Comentários »

4 Comentários

  1. Sirley Disse:

    Que lindo… Que eles estejam tomando um café, numa esquina celestial.

  2. Pedro Disse:

    Muito triste isso…

  3. O Analista - DF Disse:

    “Eu nunca mais vou vê-la”.
    E repetiu o que o tempo tornaria verdade:
    “Nunca mais”

    Essa bênção chamada vida, quase nunca transcorre sem trancos e solavancos, mas, para alguns, ela reserva situações muito difíceis.

    Valeu, Samarone.

  4. Henrique Disse:

    Que troço lindo Samarone!

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