Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Trata-se de não entregar os pontos

26 de dezembro de 2016, às 16:58h por Samarone Lima

Fazia tempo que eu não viajava, eu que não posso ver uma estrada, seja de terra batida, seja dentro de um ônibus ou qualquer coisa que se mova e me leve para outras paisagens, outras gentes, outras conversas.

E de novo, esbarrei em Minas Gerais. Cheguei por aqui a primeira vez em outubro de 1993, um projeto de gente a tentar se encaixar no mundo, com as garatujas de uma série de reportagens sobre o José Carlos da Mata Machado, militante político da AP, assassinado sob torturas no DOI-CODI do Recife. E aqui, o povo me empurrou para fazer um livro sobre ele. E cinco anos depois, em 1998, sabe-se lá como, o livro foi lançado. O meu queridíssimo “Zé”.

Mas rapaz, que invenção mais doida é essa, de publicar um livro com 29 anos, uma “reportagem biográfica?”

Deu tudo certo, uai. O livro caminhou por estradas as mais errantes, e justo no momento em que estou num trabalho braçal daqueles, cotejando entrevistas, revisando inúmeras passagens, ampliando relatos, cortando passagens ruins, apareceu um edital da UFMG e da Comissão da Verdade de Minas Gerais, para pesquisadores. E hoje vim para a última etapa, uma conversa com os professores, para saber o que andei fazendo, nesses últimos anos, e o que pretendo fazer.

E justo agora, posso ganhar uma bolsa de estudos para pesquisar mais sobre as brutalidades que foram feitas nesta longa noite obscura de nossa história recente. Justo agora que tem gente capaz de pedir “intervenção militar”, como se isso fosse um passeio num parque cheio de flores. Quando entraram, os milicos, era para tirar os comunistas, pare “restaurar a ordem”, essas coisas que repetem sempre, todas as ditaduras, que são todas iguais. Tomaram foi conta de tudo e só saíram em 1985 a muito custo.

Outro dia recebi uma penca de depoimentos que eu tinha feito, entre 1993 e 1998. Umas fitas que estavam guardadas, fora digitalizadas pelo meu amigo Marcus Galindo, na UFPE, e agora me chegaram transcritos. Fui ler. Há um depoimento de Carlucio Castanha, preso que estava no DOI-CODI do Recife, quando o Zé Carlos chegou, preso. É um relato terrível, da longa noite de agonia. Era assim que eliminavam os adversários. Massacrando.

E achei pouco reescrever o Zé por inteiro, incluindo tudo o que a Comissão da Verdade Dom Helder Câmara, de Pernambuco, vem conseguindo levantar sobre a Ação Popular e o assassinato de vários de seus líderes.

Estou agora a escrever uma peça teatral sobre o período. Vai ser uma coleção de pequenas histórias, de coisas que escutei e registrei, ao longo desses anos todos, e coisas que vão saindo também da minha invenção, das minhas andanças, dos meus encontros com este tempo, que é tão marcante na minha alma.

A mulher que relata a dor de chegar ao Recife, pela primeira vez, desde o assassinato do seu companheiro, e viver a “solidão absoluta, irreversível”, de não saber onde estão seus restos mortais. Estão em algum lugar desta cidade. Ao mesmo tempo, em nenhum lugar.

Ou a filha que nunca viu o seu pai, desaparecido, e faz um exercício para imaginar seus gestos, seu sorriso, o que teria herdado dele.

Ou a mulher de um advogado que foi preso pela ditadura, que tive a honra de entrevistar, há muitos anos. Outro dia ela me mandou um email, perguntando se eu ainda tinha a gravação, porque queria simplesmente escutar a voz dele, do seu amor, pois sentia saudades. Ou um filho de um ex-preso político que me encontrou e queria saber como era a voz do pai. Ou lembrar, já que conviveu tão pouco com ele.

Está bem difícil entender o que acontece com este país, neste exato instante. Está feio, careta, pobre, conservador,baixo astral.

Não entrego os pontos. Não vou entrar nesse baixo astral, nesse cinismo desvairado, nesse estado infame que estamos vivendo.

Vou escrever. E breve, duas atrizes estarão com esta peça em cartaz. Elas já concordaram. Quando querem nos fazer esquecer, precisamos lembrar do que fizeram. Vamos à luta. Trata-se de não entregar os pontos.

Se eu não escrever nada até sábado, desejo um ano bem bom e cheio de amigos e amores em 2016. 

Postado em Crônicas | 7 Comentários »

7 Comentários

  1. ana eliza Disse:

    Trata-se, sim, Sama, de não entregar os pontos.
    E de ter você por perto pra restaurar os ânimos.
    Você é massa, man!

  2. Jurandir Disse:

    Excelente Samarone! Isso precisa ser lembrado sempre. Principalmente para que não tenhamos pessoas idiotizadas pelas mesmas ideias “puritanas” que antecederam esse período nefasto. Esse povo precisa pensar de verdade e não “pensar que está pensando”.
    Força na caminhada e sucesso!!!

  3. Pedro Disse:

    É isso mesmo! Avante!

  4. O Analista - DF Disse:

    Isso mesmo, Samarone, “Quando querem nos fazer esquecer, precisamos lembrar do que fizeram.”

    Não tive a honra de ler “Zé”, mas li “Clamor”. E a partir deste, sei que o resultado desse novo trabalho será ainda mais contundente. Vamos à luta!

    Parabéns.

  5. Cristiano Cardoso Gomes Disse:

    Camarada, amplia a fonte do artigo, cuide de nossa acessibilidade.

  6. samarone Disse:

    Cristiano, vou fazer isso já já.
    Desculpe aí, sou um estúpido com essas coisas.
    samarone

  7. Tillys coupon Disse:

    http://newzdealz.com/turkey-hunting-calls-review/

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