Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Devagar, de mansinho e atentos

1 de janeiro de 2017, às 13:25h por Samarone Lima

Sou péssimo em várias situações sociais. Não sei, por exemplo, dar pêsames direito. Sempre me enrolo e digo outra coisa no lugar, e às vezes era melhor ficar no simples “meus pêsames” mesmo, ou “meus sentimentos”, mas isso, na minha boca, soa falso. 

Uma vez morreu o avô de uma amiga minha, que estava bem doente, e fiquei sabendo logo que cheguei à redação do Diário Popular, onde trabalhava loucamente, cobrindo a editoria de Polícia. Soube da notícia e fui tomar o café, e esbarrei na amiga:

“Tô sabendo. Deu zebra com teu avô, né?”

Putz, foi uma das piores da minha vida.

Os amigos comentaram. “Que vacilo, heim?”. “Porra, Deu Zebra é de lascar!”.

Fiquei todo murcho, amuado, caçando uma pauta logo, para sair do jornal. É bem foda magoar uma amiga que adorava o avô. Pior era que minha amiga era vizinha de prédio, quando me encontrasse na padaria, iria virar o rosto contra “aquele troglodita do Samarone”.

No dia seguinte, minha amiga foi para a redação com uma camisa listrada de preto e branco. Me abraçou e disse:

“Vesti para você, que levou a morte do meu avô com tanta leveza. Aquele lance da zebra foi muito legal”.

Glub.

Natal e Réveillon é a mesma coisa. Eu digo “Feliz Natal” porque me desejam, e seria uma indelicadeza seguir calado. Mas não entendo direito o que está acontecendo na véspera, quando todo mundo corre feito louco e, no comércio do Recife, os trabalhadores passam oito horas por dia com aquele chapeuzinho do Papai Noel na cabeça, que é quente pra caramba.

Bom mesmo é quando a gente bota alguma moeda na caixinha, alguém grita “caixinha!” e todos os funcionários repetem algo ao mesmo tempo, quase um coral. Outro dia, o coral foi tão alto, que tomei um susto. 

As obsessões com a chegada da virada, do dia 31 dezembro para o dia 1 do mês seguinte, sempre me comoveram, porque não sinto absolutamente nada. Eu sou um convidado ridículo em qualquer Réveillon. Acho que é por isso que não me convidam. Minha conversa deve dar sono.

No dia 31 de dezembro de qualquer ano, desde que me entendo por gente, a última coisa que me preocupa é o dia seguinte. Não acho ele nada demais. Eu gosto mesmo é quando cai na semana, que dá para curtir mais. Dia primeiro de janeiro em pleno domingo deveria ser proibido.

Acho que é fruto dos anos de solidão na Casa do Estudante, onde eu vivia liso como um gambá. Sem parentes importantes e vindo de Fortaleza, o que me restava mesmo era dormir. Acordava com os fogos, virava para o lado e pensava “opas, chegou 1989″. Isso já faz tempo, já que cheguei ao Recife em 1987, aos 18 anos.

A hora da virada vai chegando, tem aquele frenesí, aquela expectativa todo, mungangas mil, milhões de fogos (fico sempre com pena dos gatos, quem cria os bichanos sabe como eles ficam pensando que estão numa guerra e sofrem de verdade).  Busco alguma emoção diferente, uma alegria revigorante, lista do que vou fazer, mas nada. Nem emoção diferente, nem alegria revigorante, nem lista do que vou fazer. Sequer a “Mega-Sena da Virada” eu jogo, porque sei que não vou ganhar. E se ganhasse, putz, que confusão dos diabos, amanhecer com R$ 200 milhões na conta. Eu compraria um carro novo para minha mãe, que insiste em dirigir aquele velho Fiat todo esculhambado, que quebra toda terça, quinta e sábado.

Geralmente eu curto mesmo é dar uma corridinha na manhã seguinte ao Réveillon, e tomar um bom banho de mar, me esgueirando pelas garrafas vazias, oferendas, copos e meio mundo de coisas que ficaram na areia, durante a madrugada.

De mensagem para esses eventos, sou péssimo. Se me mandam um “Feliz Natal” muito rebuscado, eu desejo o dobro para a outra pessoa. Um ano novo maravilhoso, cheio de conquistas, saúde, amizades, eu desejo o dobro e acrescento algo. Quando pinta uma inspiração, mando logo, para não esquecer.

De ontem para hoje me ocorreu desejar às pessoas que gosto, as que fazer parte da minha pequena constelação amorosa, apenas três coisas:

Vamos devagar, de mansinho e atentos.

Acho que assim, dá para encarar com mais calma as broncas todas, e desfrutar melhor das pequenas, médias e grandes alegrias – ou epifanias.

**

Ps. Estou procurando um lugar para abrir um sebo. Quem tiver alguma dica, agradeço. Uma casa agradável, para encher de livros e botar para vender. Mas tem que ser um espaço meio poético, bucólico, para fazer lançamentos, recitais, rodas de conversa, oficinas literárias etc. Já tenho até um gerente que entende de livros – eu mesmo. E milhares de livros para vender.

Postado em Crônicas | 18 Comentários »

18 Comentários

  1. Pedro Disse:

    Essa ideia do sebo foi ótima! Serei frequentador semanal! Pena que não tenho nenhuma dica…

    Um excelente 2017!!

  2. Samarone Lima Disse:

    Vamos aguardar.
    Quem sabe não aparece um leitor que tenha dinheiro e queira investir?

  3. Tércio Disse:

    Essa coisa de Felicitar quem nem se conhece é um saco. Na verdade, já é um saco para com quem se conhece. Afinal, pelos amigos só os falo por praxe mesmo. O simples e mecanico feliz ano novo. E só. Pra que mais? Quem deseja bem para alguem, deseja de forma intermitente. Pura tolice determinar um dia especifico pra essa baboseira toda.

  4. Tatiana Disse:

    Pensei num local,ao lado da Faculdade de Direito,um imóvel que já tem a Massadelas,o dono desse ponto é Reinaldo,é umm pessoa tranquila,adora clntar estórias, não sei se o imóvel tem algum espaço para alugar,se vc tiver tempo dê uma olhada.Não sei se seria isso que vc pensa.

  5. Pedro Disse:

    Isso Tatiana!

  6. O Analista - DF Disse:

    Esse sebo vai dar muito pano para as mangas.

  7. Samarone Lima Disse:

    Deus te ouça, Analista!
    É um sonho que tenho faz tempo. Já imaginasse? Viver entre, música, amigos e clientes legais?

  8. Pedro Disse:

    Dá essa ideia no facebook, Sama! Chega em mais gente!

  9. Suyene Carvalho Disse:

    Procura no Poço… Tenho tanta saudades de suas crônicas no JC de quando morava no Poço, comprei seu livro por conta dela. Eu moro em Boa Viagem, mas com certeza frequentarei esse sebo. Sucesso… 🍀🍀🍀

  10. samarone Disse:

    Já estou procurando, Suyene…

  11. Antonio Disse:

    Nome para o sebo: Seborone.

  12. Silvan Disse:

    Rapaz, que coisa maravilhosa ler essa crônica. “Devagar, de mansinho e atentos.” – esta eu vou levar comigo em 2017. Sorte com o sebo, Samarone! Abraço!

  13. samarone Disse:

    Seborone.
    Vai para minha lista de possíveis nomes.
    Seboroso. Pode cair bem. Me ocorreu agora. Quem sabe?

  14. Pedro Disse:

    Sama, me dá uma dica: quando você vai ler um livro de um autor que ainda não conhece, você procura alguma referência ou inicia às cegas? Pergunto isso, pois quero ler a trilogia do pós-guerra de Samuel Beckett e fui atrás de algumas opiniões. A maioria foi enfática: são obras difíceis. Não acho ruim porque tenho a opinião que um livro precisa dar e exigir do leitor um pouco de esforço e dedicação. Abraço e bom final de semana!

  15. Pedro Disse:

    Só para situar: “conheci” Samuel Beckett num documentário do canal Brasil Escola.

  16. Samarone Disse:

    Pedro, geralmente vou pelo meu faro, mas é porque sou leitor apaixonado desde sempre. Nas primeiras páginas já sei (ou sinto) o que vai dar. Acabei de ler um livro do Samuel Becket (“O primeiro amor”, salvo engado), e achei bem chato. Mas ele como dramaturgo é espetacular.
    Já fui atrás de autores só por causa de alguma entrevista dele. As respostas eram tão instigantes, que eu pensei – esse cara deve ser um ótimo autor. Foi assim com Roberto Bolaños, o chileno, por exemplo.
    Mas não sou de ficar insistindo, se o livro não me agrada.
    Abração,
    Samarone.

  17. Pedro Disse:

    Ok! Obrigado, Sama!

  18. Silvio Romero Disse:

    Sama,

    Comigo acontece exatamente assim no virada do ano. Esta virada passei dormindo e comentei com minha esposa no momento dos fogos: na guerra deve ser assim.

Conversinhas

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