Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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“Poesia você tem que aproveitar agora, plenamente, porque ela não volta”.

22 de janeiro de 2017, às 10:27h por Samarone Lima

(Garimpagem poética – volume 2*)

Acho que é por causa de certos encontros que a vida ganha mais sentido. Especialmente se as pessoas que encontramos estiverem absolutamente fora do nosso território pseudonormal.

Moro no Recife, tenho 47 anos, sou jornalista desde 1994, mas a possibilidade de encontrar, neste começo de 2017, os poetas Adeilzo Santos, de 53 anos, o Del Poeta, como ele se define, e Quitéria Maria dos Santos, a Teté, de 54, era remota.

Eles vivem em Lajedo, e não sabia que eles existiam. E que são poetas. Se fizeram poetas.

Ele mora às margens da BR 423 – que corta a cidade no meio, com a mulher e o filho, trabalha na secretaria de Finanças da cidade. Aprendeu a amar a cultura do cordel nas feiras, acompanhado do pai.  Na escola, começou a dobrar folhas e a improvisar histórias, fazendo rimas como sabia, e com sua voz de trovão, começou a declamar coisas que já tinha decorado, fora as que inventava.

quiteria 2 Adeilzo Santos

No final da década de 1980, começou a cantar suas próprias composições, a participar de festivais, impressionando públicos e maestros. Quando se preparava para gravar o primeiro disco, a carreira decolava, começou a ter dificuldade de acompanhar os músicos. Não ouvia direito os acordes. Foi operado, perdeu 90% da audição e teve que encerrar a carreira. Hoje, sua vida está cercada de silêncio.

Teté mora no conjunto residencial Santa Quitéria I, onde vivem outras 12 Quitérias, com os dois filhos (Douglas e Milena), cercada de gatos, plantas no quintal, galinhas e um cachorro.

Chega de mansinho, vinda de uma fábrica de bonecos artesanais, onde trabalha, depois da aposentadoria. Faz a revisão do “produto final”. Significa ter que esticar os dedos do Pateta, ajeitar a orelha do Pato Donald, ver se as pernas do Chaves estão cheias de isopor, se tem fios soltos na cabeleira da Mônica ou da Magali, essas coisas.

Ela recebe os convidados com uma voz suave, delicada, amorosa. É uma negra bela, altiva, que passou por tantas coisas duras na vida, mas exala tanta dignidade, que só o fato de tê-la conhecido, valeu à pena ter colocado as patas e ouvidos na estrada.

Da vida, ela já provou de quase tudo. Morou em São Paulo dos 15 aos 22 anos, foi casada com um marido alcoólatra. Teve os filhos, foi se virando como dava. Os dois tiveram graves problemas de saúde. Teve época que precisava viajar três vezes por mês para o Recife, para que eles fossem atendidos no IMIP.

Num intervalo de três anos, Teté  viveu um turbilhão pessoal, que resistiu porque é mesmo forte. Separou-se, a mãe morreu, a irmã morreu, e descobriu que tinha Hanseníase. Até a contagem do tempo passa por referências marcantes:

“Minha mãe faleceu tem nove anos, a Hanseníase surgiu há oito”.

Chegou a fazer 28 exames, até “descobriram” que a doença que ela tinha, era Hanseníase. A demora lhe custou várias sequelas, e uma aposentadoria precoce da escola em que trabalhava, como merendeira. Não era o que queria. Gosta de trabalhar.

Sim, mas ela tinha uns cadernos, onde anotava “coisas que lhe ocorriam”. Não sabia que era poeta. Só mais recentemente, ao fazer amizade com o poeta Wilson China, descobriu que suas anotações de sentimentos, suas coisas da alma, eram poesias. China, que também conhecemos, fez questão de nos apresentar Teté. Gracias, meu velho.

Ela escreve há mais de trinta anos. Um dia, roubaram seus três cadernos cheios de poemas. Ficou desgostosa, passou uns quinze sem escrever. Nada. A fonte parecia ter secado.

Mas voltou. O grosso caderno de matérias está repleto deles. Faz questão de ler, pausadamente, cheia de sentimento.

“Já aconteceu de estar dormindo e acordar, no meio da noite, com aquela vontade de escrever. Se deixar passar, depois as palavras se perdem e não voltam”, diz.

Num final de tarde, na porta da casa de Del Poeta, escutamos os versos, as conversas, nos emocionamos com a vida, o baque, a superação, um homem cheio de vida, que tem vocação para o riso, a amizade, a ironia com a própria surdez, mas que chegou a ver, no cangote, o fantasma da depressão. Chegou a receber umas pílulas antidepressivas, mas jogou o pacote no lixo e se virou com ajuda da poesia, da família e da vida.

“Dizem que não estou perdendo nada, por não escutar essas músicas-lixo que estão tocando por aí”, diz, rindo.

Mas foi ao final da conversa, já à noite, que ele diz o motivo de ser fiel aos seus sentimentos, ao estilo de poesia, aos temas que gosta de escrever.

“Eu não posso fugir de mim”.

O pai de Teté foi embora de vez quando ela tinha cinco anos. Nunca mais o viu. Terminou o ensino médio aos 48 anos.

Foi também numa tarde, em sua casa, que escutamos uma breve definição de poesia, mas que também serve para a vida:

“Poesia você tem que aproveitar agora, plenamente, porque ela não volta”.

**

* A “garimpagem poética” é minha participação no projeto “Diário Corporal”, criado por Silvia Góes, a Silvinha, e aprovado pelo Funcultura, em 2016. Ao final da viagem, todo este material vai virar um produto final, mas ainda não sabemos qual. No Facebook, tem um evento com o nome “Diário Corporal”, com vídeos e mais fotos e os textos de Silvinha.

Próximo destino: Jupi.

Postado em Crônicas | 1 Comentário »

1 comentário

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Conversinhas

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