Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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As muitas Ítacas do caminho

26 de janeiro de 2017, às 10:44h por Samarone Lima

 “Não se caminha  para chegar depressa, caminha-se para ficar com os sentidos despertos e para fazer o ar circular pela mente e pela alma”.

(Adriano Labbucci)

O dia amanheceu suave, com aquele ventinho frio de Garanhuns, mas com o sol já se espalhando pelo belo quintal de Seu Manu e dona Jó, onde estou hospedado. E agora, com sossego, cercado de flores e plantas, posso finalmente escrever com calma sobre esta longa caminhada, que começou há dez dias no Recife (de ônibus até Cachoeirinha), e mudou de forma quando passamos a caminhar a pé, eu e Silvinha.

Foram três longas caminhadas. Cachoeirinha-Lajedo (22 km). Depois, Lajedo-Jupi (13 km) e ontem, a parte mais puxada, porque envolvia grandes subidas, a jornada final, de Jupi e Garanhus (20 km). Com outras caminhadas paralelas, fizemos uns 65 quilômetros com as patas no chão.

Dentro das demandas do projeto (Diário Corporal, vejam no Facebook as postagens dela), Silvinha deu oficinas gratuitas de sensibilização corporal. Enquanto isso, me encarregava de procurar os poetas de cada cidade, garimpar os que estavam nas intocas, quietos, anônimos, fazendo suas coisas no mais miúdo, trocar idéias, pegar depoimentos. Uma garimpagem da alma, por assim dizer.

Tudo isso vem sendo feito com uma rara felicidade. As oficinas estão tendo um retorno maravilhoso (em Jupi, eram 54 pessoas, a maior delas mulheres idosas, que ficaram exultantes com dança, poesia, vivências). De outro lado, os poetas que foram surgindo merecem várias páginas de louvação e júbilo. Grande figuras, como Adeizo Santos, Wilson Chine, Dona Quitéria, a Teté, em Lajdeo, o grande poeta popular José Raimujndo Alves, em Jupi.

Como o resultado final do projeto será apresentado no Recife, creio que em março, terei tempo de mostrar melhor estas criaturas, que foram presentes da estrada.

Mas há algo também grande e generoso, que foi a marca do caminho. As longas e silenciosas caminhadas. Os encontros. As chuvas, que surgiram generosamente, em cada amanhecer, antes de sairmos (ou a grossa chuva que caiu em Lajedo, antes de sairmos, adiando nossa caminhada em mais de uma hora).

E o meu entendimento pessoal cada vez mais profundo – nasci mesmo para andar.

Este caminhar sem pressa, por longos caminhos. Sem horário certo para chegar. Se for o caso, nem chegar. Uma mochila com água, algumas bananas, algum caderno para tomar notas, um celular (para alguma emergência imagens) e o corpo, disposto a seguir.

Caminhar com os sentidos despertos, aberto a qualquer imprevisto, improviso, aos menores sinais da jornada, às pessoas que vão surgindo na estrada.

“Se a pé não chegares aonde queres, não verás o que queres encontrar”, diz um ditado Sadhu, da índia.

Pouco antes de sair, botei na mochila o livro “Caminhar – uma revolução”, de Adriano Labbucci. Um livrinho lindo, onde ele fala sobre este “gesto mais humano”, que é o caminhar, e como ele pode nos fazer mais livres, talvez uma pequena contribuição a este mundo veloz, onde tudo precisa ser “para ontem”, e as demandas são tão intensas, a cada minuto, a cada toque do WhatsApp.“Faz zarpar o teu sonho, enfia-te dentro dos teus sapatos”, diz o poeta Paul Celan.

Foi o que fiz, nos últimos dias. De certa forma, é o que venho fazendo desde um tempo incerto, já que minha mãe disse, outro dia, que eu simplesmente fui embora de casa, aos três anos, quando vi a porta da casa aberta, quando morávamos em Brejo Santo, interior do Ceará. Acho que é minha vocação, até o derradeiro passo – andar pelo mundo.

Mas após tantos dias de jornada, tantos silêncios, encontros, desencontros, tantas coisas vividas de forma tão intensa, encontrei um poema que parece sintetizar tudo o que tenho vivido e sentido.

“O Retorno a Ítaca”, do maravilhoso poeta grego Konstantivo Kaváfis:

“Quando saíres para empreender a viagem para Ítaca,

Pede que seja longo o caminho,

Pleno de aventuras, pleno de acontecimentos.

Os lestrigões e os ciclopes,

O irado Poseidon, não temas!

 

No teu caminho jamais os encontrarás,

Se tiveres teu pensamento altivo, se nobres

Emoções achegas ao teu espírito e corpo.

 

Os lestrigões e os ciclopes,

O selvagem Poseidon, não encontrarás,

Se não os levares contigo, na tua alma,

Se a tua alma não os erguer diante de ti.

 

Pede que seja longo o caminho.

Muitas sejam as manhãs de verão

Nas quais – com que felicidade, com que alegria! –

Entrarás nos portos que verás pela primeira vez,

Demora-te nos mercados fenícios,

E belos produtos adquiras, madrepérolas e corais,

Âmbares e ébanos,

E voluptuosos perfumes de todo tipo, quanto puderes,

Abundantes e voluptuosos perfumes,

A muitas cidades egípcias vai,

Aprende e aprende dos sábios.

 

Sempre em teu espírito tenha Ítaca.

O desembarque, esse é o teu destino.

Mas não apresses absolutamente a viagem.

É melhor que dure muitos anos;

E já velho atraques à ilha;

Rico com tudo o que tiveres ganho pelo caminho,

Sem contar com a riqueza que Ítaca te dará.

 

Ítaca te deu uma bela viagem.

Sem ela não te terias colocado a caminho.

Mas há de dar-te além.

 

Se também a achares pobre, Ítaca não te enganou.

Tendo tu ficado tão sábio, e com tão grande experiência,

Não foi senão porque agora sabes o que são as Ítacas”.

**

Da minha parte, ainda não sei o que são as Ítacas.

Mas peço sempre que o caminho seja longo, e que muitas sejam as manhãs de verão.

E que eu sempre tenha este espírito.

E que o desembarque seja o meu destino.

Postado em Crônicas | 4 Comentários »

4 Comentários

  1. Luiza Disse:

    Sama, como sempre adoro seus textos, mas este…Que delícia caminhar pela tua história de caminhar.

  2. recifense nos eua Disse:

    Sama, voce tem medo da violencia do brasil nessas caminhadas, tao isolados, no meio do mundo? Ou voce acha que pelo seu aspecto de “pe rapado” (sem desrespeito) voce ta imune da violencia urbana/brasileira. Me preocupo com voces.

  3. samarone Disse:

    Recifense, caminho há muito tempo, mas não fico andando à noite sem rumo e tomo meus cuidados. Neste caso, fomos sempre pela beira de estradas com movimento e só andamos durante o dia.
    Quanto ao aspecto de “pe rapado”, tu achas mesmo que bandido vai se preocupar com a aparência dos outros, quando quer fazer maldade? Na verdade, quem é de raça ruim e vê um andarilho caminhando com um reles cajado deve ter até simpatia.
    Tudo certo.
    Abração,
    Samarone

  4. Diógenes Disse:

    Sama, tua dúvida no face: custa em média R $8.000,00 e as maiores notas para entrar na residência é em cirurgia plástica. Não posso responder por lá.

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