Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Uma bela festa comunitária

23 de fevereiro de 2017, às 19:13h por Samarone Lima

Ando tão lento nas minhas publicações internauticas, que nem adianta muito falar sobre a prévia da troça Os Barba, dia 18, e d’Os Barbinha, dia 19.

Foi mesmo uma bela festa. Por estranho que seja, faltando um mês para a realização da festa, quase nada estava organizado. A junção de várias pessoas da comunidade, sob a liderança afetiva e espiritual do querido Naná, fez com que tudo desse certo.

Teve decoração, banheiro químico, segurança de apoio, a própria comunidade organizou a eterna confusão da dezena de vendedores de cerveja (todos foram cadastrados), as camisas da troça foram vendidas (e leiloadas) por Iramarai, Jorge Bandeira encaminhou ofícios a vários órgãos da prefeitura. Com isso, tivemos uma orquestra da Prefeitura do Recife, que tocou duas horas e a promessa de um pequeno contingente policial, de 19 homens. No total, compareceram ao evento três PMs. Houve a coroação do novo rei, o médico argentino Edgar Navarro, que tornou Marco Careca um ex-rei, coisa que ele não achou nada engraçado.

No domingo, dei uma volta pelo Poço constatei que a comunidade ribeirinha do Poço “se armou”, como o ditado popular. Quem botou barraquinha com comida e bebida, vendeu tudo. “Antes tivesse botado mais”, disse uma mulher, que tem dois filhos pequenos e realmente precisa muito dessa grana. Nesses 15 anos de folia, a troça nunca perdeu o vínculo comunitário. A prioridade para botar barraquinha no largo do Poço é sempre dos moradores.

No domingo, foi a festa dos meninos do Poço, com Os Barbinha, também sob o comando de Naná, que improvisou diversas negociações de última hora. Como duas empresas caseiras chegaram para botar pula-pula, ele conversou e pediu algo em troca para a comunidade. Com a conversa rápida, a criançada ganhou uma hora de acesso grátis, em seis pula-pula. Não sei como se escreve o pula-pula. Pulas-Pulas? Pula-Pulas? Flávia Suassuna, por favor, me ajude.

Os Barbinha se juntou ao Panelinha de Pressão e foi menino até umas horas. Teve picolé, biscoito, pipoca e guaraná para a meninada. Infelizmente, a máquina de fazer algodão doce quebrou, mas estava tudo tão beleza, que ninguém sentiu falta.

Aos foliões, bom Carnaval. Aos que vão descansar, bom descanso.

Ah, nos dois eventos, que contaram com a participação de milhares de pessoas, não registramos quaisquer cenas de violência ou confusão. Creio que o envolvimento da comunidade no processo faz muita (ou toda) diferença. Eles trabalham no evento e se sentem parte. Dos 19 policiais prometidos, chegaram apenas três, que foram embora à tardinha.

O Carnaval que vai batendo à nossa porta é, de fato, preocupante. Falo da violência.

**

Nota: Hoje acordei com aquela música, “Sonho Meu” circulando no juízo. Com a ajuda do velho amigo Esequias Pierre, meu Assessor para Avanços Tecnológicos (AAT), vai o link. Um presentinho pré-Carnaval:

https://youtube.https.co/watch?v=Ly6Vq1-rMGs

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Anticomunicado sobre “Os Barba” 2017

15 de fevereiro de 2017, às 9:18h por Samarone Lima

Confesso que não acreditei quando lio título da matéria:

Fundador de Os Barba recomenda chegar cedo e diz: “Mauricinhos e patricinhas não são nosso público”; entenda

http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cidades/jc-na-folia/noticia/2017/01/27/bloco-os-barba-do-poco-da-panela-da-uma-guinada-e-volta-as-origens-268433.php

Pensei que algum de nossos fundadores (ou rei, eleito a cada ano) tinha enchido a cara, em Seu Vital.

A matéria surgiu depois de um “comunicado” que o senhor Jorge Bandeira fez, ontem, em seu Facebook. Fala em nome de um coletivo, usando o “Nós que fazemos a Troça Os Barba”, “preocupados”, e termina com um “resolvemos que”:

“- não vamos permitir som mecânico de qualquer espécie. 
- não será permitida a entrada de automóveis no espaço delimitado.
- apenas os comerciantes

Como um dos fundadores da Troça, achei o comunicado patético, equivocado e autoritário.

Primeiro porque parece que somos uma Troça Carnavalesca organizada, estruturada, com diretoria (e, agora, assessor de imprensa). Pior: parece que temos uma mania de grandeza de tal monta, que viramos uma SWAT do Poço da Panela, uma mistura de fiscais da Dircon, agentes da CTTU e batalhão da Policia Militar.

No sábado de manhã, portanto, Naná não vai estar suado, correndo de um lado para o outro, para concluir a preparação dos dois panelões de feijão com charque e outros condimentos, nem finalizando a mesa de frutas, para a galera usar como tiragosto da Pitú que servimos (tudo gratuitamente). Isso com a ajuda de várias pessoas da comunidade.

Deverá estar com coletes padronizados, na entrada da Poço, apitos e um talão de multas, e fazendo um sinal negativo com a mão.

“Aqui é da diretoria d’Os Barba, senhor. Este ano, em nossa Assembléia Semestral, , decidimos que a partir deste trecho, o senhor não pode circular. Em caso de insistência, criamos já nosso próprio talão de multa, para reforçar nossa verba de segurança do Carnaval 2018, já que estamos crescendo a olhos vistos”.

Outro grupo nosso vai estar com aqueles medidores de altura de som, usados pela Dircon, em rondas ostensivas pelo Poço da Panela. Ao avistar um “som mecânico de qualquer espécie”, aferição e nova multa.

Por último, como agora a troça define quem pode e não pode trabalhar “no espaço”, nossa “Diretoria de Fiscalização do Chão do Poço” terá que aumentar o número de integrantes.

Não bastasse o ridículo desta nota, vem o arremate. Vejam esta preciosidade antropológica:

“IMPORTANTE: O horário do bloco será das 10 da manhã até às 16 hs. portanto, SE QUISER PARTICIPAR DA NOSSA FESTA, chegue cedo. Depois disso, chegam os Mauricinhos e Patricinhas que NÃO É O NOSSO PÚBLICO”.

Será a primeira vez que a Troça Os Barba vai funcionar com cronômetro. Às dez horas, nosso Diretor de Horário vai acionar seu relógio, soprar um apito e gritar:

“Tá valendo! Já podem começar a beber, pular e cantar!”

A partir das 15h, o mesmo Diretor de Horário vai circular pela comunidade, dando apitaços a cada vinte minutos, usando  um megafone e alertando:

“Às 16h estaremos encerrando oficialmente nosso Carnaval 2017! Por favor comecem a se organizar para voltar para casa. Este ano, estaremos oferecendo uma plataforma para chamar Uber, desde que tenham se cadastrado em nosso site oficial e brincado dentro do horário oficial de folia, divulgado em nosso site”.

O arremate do comunicado nos levará a um impasse existencial de enorme proporções.

Depois de ter proibido som mecânico “de qualquer espécie”, de proibir a “entrada de automóveis no espaço delimitado” e atuar no controle de vendas durante uma festa de Carnaval, a Troça (segundo o comunicado) vai dividir o Poço em duas áreas geográficas – “Nosso público” e “nosso não-público”.

Como o autor da nota diz que “Mauricinhos” e “Patricinhas” não fazem parte do nosso público, terá que ser criada uma comissão, até sexta-feira, de especialistas nos tipos citados, para o fenômeno da exclusão. Eles, pelo que entendi, só podem participar da festa a partir das 16h01.

Aos amantes do Carnaval, da alegria, da festa, da ironia, aos que conhecem a história dos Barba, uma troça nascida na Venda de SeuVital, há 15 anos, só me resta pedir desculpas e dizer – nada disso é o que acreditamos.

Jorge Bandeira, que ajuda pontualmente em alguns encaminhamentos de ofício e outras burocracias (que não são mesmo nosso forte), não pode falar como fundador dos Barba, porque não é  fundador e tem seu próprio bloco, o Boi do Poço.

Fazer alguns acordos como comerciantes, mandar ofício aos órgãos competentes (Dircon, PM, CTTU), informando da festa, como sempre é feito, é uma coisa, mas publicar um comunicado com esse grau de arrogância, é nos tornar um bando de barbudos ególatras, capazes de fazer do Poço da Panela quase nosso território, durante um dia.

Se hoje vão milhares de pessoas, acho que é o contrário – cabe aos órgãos responsáveis, do Estado e da Prefeitura, organizar o trânsito, o comércio de bebidas e comidas, e zelar pela segurança das pessoas e do Sítio Histórico, que é o Poço, como fazem (quando querem) em outros espaços da cidade. No mesmo sábado dos Barba, por sinal, outra penca de troças e blocos fazem seu carnaval no Poço.

Minha sugestão é simples.

Vá quem quiser, chegue a hora der na telha, vista a fantasia calhar, esqueça essa bobagens que escrevem sobre nossa modesta troça, que apenas virou a alegria de tanta gente.

Divirta-se, ame, tome todas, encontre seus amigos, leve um pandeiro, um violão, uma flauta doce, vá liso, com dinheiro, pegue nosso estandarte e se amostre para quem você quer beijar, dance, sem saber dançar, encontre sua colombina, seu pierrô, reencontre algo que você nem sabe o nome, deixe o barco correr, deixe o ria raiar, que a vida brasileira já está tão dura, tão feia, seja você quem for, seja o que Deus quiser, seja você quem flor, seja o que você quiser.

Samarone Lima é jornalista e escritor, e um dos fundadores da Troça Carnavalesca Mista, Etílica e Anárquica “Os Barba”.

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