Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Um lugar para viver

6 de março de 2017, às 15:14h por Samarone Lima

Se eu pudesse escolher um lugar para morrer, seria num sebo.

Mas depois fiquei pensando – iria simplesmente estragar o dia de venda de livros do proprietário. Não é nada agradável o sujeito estar no seu canto, naquele sossego que é um bom sebo, e se deparar com um cadáver.

Como sou alto, daria trabalho para as pessoas passarem por cima. Além disso, um cadáver chama a atenção. Fora a chegada do carro do IML, os primeiros amigos falando ao celular do meu padecimento, justo num sebo, essas chateações todas do pós-morte nos domínios alheios.

Então refaço a frase.

Se eu pudesse escolher um lugar para viver, seria dentro de um sebo.

Juntaria algumas das minhas obsessões. Leitura, livros, morar numa casa e encontrar diariamente com pessoas que gostam de livros. E o arremate – viver da compra, venda e troca de livros. Nos intervalos, eu faria outra coisa por demais auspiciosa – seguiria escrevendo minhas coisas.

Tenho feito esse teste já há algum tempo, quando botarmos nossa barraquinha de livros da Biblioteca Comunitária do Poço da Panela, no primeiro domingo de cada mês, na Feirinha do Poço.

Posso estar chateado com o que for, que já começo a melhorar o astral só no ato físico de pegar os livros das caixas, organizar na mesinha, ver o que separei, das doações que chegam aos montes, quase diariamente ao projeto coletivo que existe há cinco anos no Poço.

A venda desses livros têm ajudado a completar o orçamento da nossa Biblioteca, que tem como fonte principal de recursos a doação mensal de 11 padrinhos. E se não escoarmos o que chega, não tinha lugar nem para entrar gente.

E tem aquela hora ótima, que é quando a pessoa chega, perguntando por um autor que gosta muito – e que, por acaso, gosto muito também. A conversa fica uma maravilha. Amós Oz, Roberto Arlt, Roberto Bolaño, As Mil e uma Noites, Sêneca, Tolstoi, o velho e bom Guimarães Rosa, todos os bons poetas que já passaram pela minha leitura, é uma festa, então eu percebo que tenho uma vocação enorme para ser vendedor de livro, e só a exerço uma vez por mês.

Já tem duas semanas que encafifei com isso – vou ter um sebo.

Botei na cabeça e sou teimoso, mas teimoso de verdade, não esses teimosos de meio tijolo, digo, de meia tigela, que cansam logo na primeira viagem, na primeira queda, no primeiro revés.

Quando viajo para qualquer lutar do mundo, ficou num pé e noutro, até achar os sebos. Montevideo, que é minha pátria, tem vários, umas casinhas charmosas, sempre com boa música, gente interessantes, livros lindos. Fora aquela feita que tem aos domingos, que atravessa vários quarteirões. Em Buenos Aires é a mesma coisa.

Só não entendo o motivo de quase não ter sebos legais no Recife. Não, amigos, a Praça do Sebo não é motivo de orgulho literário para a cidade.

Mas voltando ao assunto – já defini até a  geografia dele.

Meu sebo vai ser no Poço da Panela ou no Bairro do Recife, ou em Olinda.

Sim, porque tem que ser num lugar lindo.

E já começo a imaginar a cena. O dia vai amanhecendo, tomo o café, vou abrir as portas. O que terei para negociar? Livros. O que terei que responder, ao telefone? Se tenho o livro tal. E nos casos de encomenda, ir aos Correios, postar, coisa que faço desde meu primeiro livro, de 1998.

Dentro deles, os livros, histórias magníficas, contos, crônicas, poemas.

Nas paredes, meus autores prediletos, emoldurados. Alguns livros meus, que ninguém é de ferro.

Uma vez por semana, um encontro para leituras, recitais, lançamentos. Uma máquina de café simples, para as conversas mais demoradas. Um vinhozinho não custa nada, que ninguém é de ferro, e se Lula Terra aparece. Ou se meu amigo Gustavo Monteiro, o Gugu Bicicleta, chega por lá. Ou se chega meu velho irmão, Gustavo de Castro, com aquela conversa mole.

Quem tiver alguma dica de espaço, por favor me avise aqui.

Estou pensando em chamá-lo de Seborone.

Ou Seboroso.

Aceito sugestões.

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A história de um engasgo

3 de março de 2017, às 13:27h por Samarone Lima

Foi em algum dia misterioso, acho que em 2007.

Eu morava numa bucólica casa azul, de primeiro andar, no Poço da Panela, ensinava Literatura para jovens de 11 bairros com o pior IDH do Recife e fazia uns frilas, para tocar a vida.

Até que minha tia-avó, Flocely, que morava no Cabo de Santo Agostinho, começou a ter problemas de saúde. Não tinha filhos e morava com Rosa, sua eterna cuidadora, e Renato, seu filho.

Eu era a ligação da família com tia. Seus irmãos já tinham morrido, as sobrinhas estavam espalhadas. Ela era a irmã de minha avó, Zeneuda, do segundo casamento da mãe, uma história longa demais para contar. O fato é que não dava para ficar fazendo, diariamente, o trajeto Poço-Cabo-Centro (onde ficava a escola que eu ensinava, a Kabum!)-Poço.

Então falei com Tia e voltei a morar com ela. Devolvi a casa do Poço (onde hoje é o bar Fuê) e fui morar no primeiro andar de uma rua sem saída.

Voltei a morar é porque já tinha morado com a mesma tia, entre 1993 e 1994, quando encerrei meu ciclo na Casa do Estudante Universitário da UFPE, entre 1998 e 1992.

Toda a família dizia que não iria dar certo, porque sou desorganizado demais, e tia sempre gostou de suas coisas bem direitinhas. Foi um período maravilhoso, que acabou em maio de 1994, quando pedi demissão do Diário de Pernambuco e fui para São Paulo. No almoço de despedida, vi quando umas lágrimas silenciosas escorriam na comida. Tia era contida em seus afetos.

Pois bem. Agora estamos em 2007, tia estava caminhando para os 80 anos, teve que entrar em Hemodiálise, era um negócio puxado. Dava aulas, voltava, tinha que levar para uma clínica em Candeias, ela tinha um problema na vértebra, qualquer buraco que o Fiat dela passava, era um gritinho de dor. Voltava pra casa moída, tinha só um dia para se recuperar. Isso três vezes por semana.

Olhando hoje, não sei de onde me saía tanta energia, envolvendo tantas distâncias, quilômetros, calor, eu que não sou muito desse mundo do carro. Hoje, quando penso em alguma atividade profissional no Cabo, me dá logo uma moleza no organismo. Parece a outra ponta de Pernambuco. Mas no amor, a gente não cansa.

Os afetos e memórias se misturavam intensamente. Por conta de uma queda, tia passou a dormir no quarto do térreo, que era o meu reduto, em 1993/94. Nesta volta, passei a dormir no primeiro andar, que era o dela.

Um dia, peguei minha máquina de datilografia, botei papel e pensei em escrever um poema que falasse da minha vida. Eu tinha 38 anos.

A primeira imagem que saiu foi esta:

                                 I

Nasci o terceiro

na linhagem dos homens.

 

Os seios de minha mãe

estavam gastos de outras bocas

e de longe

mamei no tempo.

 

Confesso que tomei um susto. Era uma imagem, um portal, uma mandala, tudo junto. Era como se um mundo estivesse se abrindo. Como muitas coisas importantes da minha vida, eu não sabia de onde vinha aquilo, mas abri os braços – ou o coração. Quem abre os braços deixa o coração escancarado. E o fluxo seguiu.

De fato, sou o terceiro homem. Antes, vieram Paulo e Antônio. Estranhamente, não ganhei nome de apóstolo, mas de jogador de futebol: Samarone.

Sim, mas… de onde vinha aquela palavra “linhagem”?

Poderia ter feito só a frase simples: “Nasci o terceiro”. Mas creio que não seria poesia, seria uma informação, como já bem definia o mestre Ariano.

A palavra “linhagem” me remetia a uma genealogia, uma estirpe, uma procedência, como se eu quisesse, naquele momento, fazer um mergulho na origem da família, mas também naquele ponto da minha vida. Onde eu estava no mundo, e o que queria fazer da minha jornada.

E depois veio a segunda parte, onde me referia aos seios da minha mãe, que já tinham alimentado dois homens. E como pode, um sujeito mamar no tempo?

Tudo vinha por outro caminho, completamente misterioso.

Mas havia uma verdade atravessando tudo. O primeiro ano de minha vida foi nos braços da minha avó, Zeneuda Viana – irmã de tia Flocely. Minha mãe, meu pai e meus dois irmãos viviam em Brejo Santo, cidade a uns 80 quilômetros do Crato.

Creio que eu fazia uma conexão de tempos e vidas.

E o poema foi brotando:

 

Nasci com o sangue de minha mãe

espargindo em meu corpo

a dor da vida.

 

Minha avó foi a cativa

a me dar o pó da Via-Láctea

dissolvendo-a a colheradas

em copos de geléia.

 

Nada passava pelo racional. Fui tomado por uma energia misteriosa, uma febre. Datilografava uma página, terminava e colocava outra. Tudo saía como se estivesse esperando o momento de brotar. Era um poema diferente de tudo o que eu tinha feito. E não cabia a mim resistir ou não seguir. Era uma força.

Foram surgindo outros personagens, cenários, situações. Meu pai, as ruas do Crato, Brejo Santo, meus irmãos. Os objetos que fizeram parte da minha infância, a adolescência, até que cheguei ao Recife.

No poema, defino minha chegada a esta cidade, em 1987, em poucas linhas:

 

Fui para outros mundos

Criar força nos olhos.

Fiz dos ombros meu coração.

 

O poema me consumiu semanas. Datilografava, corrigia, retomava. O fluxo seguiu, incansável. São 25 versos.

Andei com esses originais na minha algibeira durante um bom par de anos, algumas pessoas queridas leram, deram sugestões importantíssimas, especialmente o querido Ronaldo Correia de Brito.

Em 2009, minha tia morreu.

Lembro que ela estava sofrendo muito, numa UTI, entubada. De manhã a visitei e me despedi ao seu ouvido. “Vá, tia, vá em paz, sem medo”, repeti várias vezes ao seu ouvido. À noite, ela morreu. Como a clínica era depois de Olinda, e estávamos próximos do Carnaval, liguei para os parentes mais próximos para informar da morte, enquanto uma troça passava, com o frevo rasgando a noite, celebrando a vida.

O longo poema, intitulado Tempo de Vidro, foi publicado somente em 2012, junto com A praça azul, pela Editora Paés. Está esgotado.

Nunca consigo fazer a leitura completa sem engasgar de emoção. Mas sou um taurino teimoso, como já me alertaram vários guias. Vou tentar de novo, sei que vou me emocionar de novo, vou pedir desculpas de novo e vou seguir de novo. Se todo engasgo fosse poético, a vida seria tão mais simples…

Amanhã (4/03), no espaço Toca, estarei no espaço Toca, com o poeta Fred Caju, a partir das 20h. Vou ler meu Tempo de Vidro, ele vai ler seu Estilhaços.

Depois vamos conversar sobre poesia e memória, publicações e futuro. O microfone vai estar aberto para quem quiser recitar seus poemas e falar o que quiser.

O Espaço Toca fica na rua Santa Cruz, 84. Boa Vista

Informo que o senhor Rodrigo Acioli, da editora Titivillus, estará com uma edição novinha do Tempo de Vidro, artesanal, numerada. São 40 exemplares.

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