Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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A história de um engasgo

3 de março de 2017, às 13:27h por Samarone Lima

Foi em algum dia misterioso, acho que em 2007.

Eu morava numa bucólica casa azul, de primeiro andar, no Poço da Panela, ensinava Literatura para jovens de 11 bairros com o pior IDH do Recife e fazia uns frilas, para tocar a vida.

Até que minha tia-avó, Flocely, que morava no Cabo de Santo Agostinho, começou a ter problemas de saúde. Não tinha filhos e morava com Rosa, sua eterna cuidadora, e Renato, seu filho.

Eu era a ligação da família com tia. Seus irmãos já tinham morrido, as sobrinhas estavam espalhadas. Ela era a irmã de minha avó, Zeneuda, do segundo casamento da mãe, uma história longa demais para contar. O fato é que não dava para ficar fazendo, diariamente, o trajeto Poço-Cabo-Centro (onde ficava a escola que eu ensinava, a Kabum!)-Poço.

Então falei com Tia e voltei a morar com ela. Devolvi a casa do Poço (onde hoje é o bar Fuê) e fui morar no primeiro andar de uma rua sem saída.

Voltei a morar é porque já tinha morado com a mesma tia, entre 1993 e 1994, quando encerrei meu ciclo na Casa do Estudante Universitário da UFPE, entre 1998 e 1992.

Toda a família dizia que não iria dar certo, porque sou desorganizado demais, e tia sempre gostou de suas coisas bem direitinhas. Foi um período maravilhoso, que acabou em maio de 1994, quando pedi demissão do Diário de Pernambuco e fui para São Paulo. No almoço de despedida, vi quando umas lágrimas silenciosas escorriam na comida. Tia era contida em seus afetos.

Pois bem. Agora estamos em 2007, tia estava caminhando para os 80 anos, teve que entrar em Hemodiálise, era um negócio puxado. Dava aulas, voltava, tinha que levar para uma clínica em Candeias, ela tinha um problema na vértebra, qualquer buraco que o Fiat dela passava, era um gritinho de dor. Voltava pra casa moída, tinha só um dia para se recuperar. Isso três vezes por semana.

Olhando hoje, não sei de onde me saía tanta energia, envolvendo tantas distâncias, quilômetros, calor, eu que não sou muito desse mundo do carro. Hoje, quando penso em alguma atividade profissional no Cabo, me dá logo uma moleza no organismo. Parece a outra ponta de Pernambuco. Mas no amor, a gente não cansa.

Os afetos e memórias se misturavam intensamente. Por conta de uma queda, tia passou a dormir no quarto do térreo, que era o meu reduto, em 1993/94. Nesta volta, passei a dormir no primeiro andar, que era o dela.

Um dia, peguei minha máquina de datilografia, botei papel e pensei em escrever um poema que falasse da minha vida. Eu tinha 38 anos.

A primeira imagem que saiu foi esta:

                                 I

Nasci o terceiro

na linhagem dos homens.

 

Os seios de minha mãe

estavam gastos de outras bocas

e de longe

mamei no tempo.

 

Confesso que tomei um susto. Era uma imagem, um portal, uma mandala, tudo junto. Era como se um mundo estivesse se abrindo. Como muitas coisas importantes da minha vida, eu não sabia de onde vinha aquilo, mas abri os braços – ou o coração. Quem abre os braços deixa o coração escancarado. E o fluxo seguiu.

De fato, sou o terceiro homem. Antes, vieram Paulo e Antônio. Estranhamente, não ganhei nome de apóstolo, mas de jogador de futebol: Samarone.

Sim, mas… de onde vinha aquela palavra “linhagem”?

Poderia ter feito só a frase simples: “Nasci o terceiro”. Mas creio que não seria poesia, seria uma informação, como já bem definia o mestre Ariano.

A palavra “linhagem” me remetia a uma genealogia, uma estirpe, uma procedência, como se eu quisesse, naquele momento, fazer um mergulho na origem da família, mas também naquele ponto da minha vida. Onde eu estava no mundo, e o que queria fazer da minha jornada.

E depois veio a segunda parte, onde me referia aos seios da minha mãe, que já tinham alimentado dois homens. E como pode, um sujeito mamar no tempo?

Tudo vinha por outro caminho, completamente misterioso.

Mas havia uma verdade atravessando tudo. O primeiro ano de minha vida foi nos braços da minha avó, Zeneuda Viana – irmã de tia Flocely. Minha mãe, meu pai e meus dois irmãos viviam em Brejo Santo, cidade a uns 80 quilômetros do Crato.

Creio que eu fazia uma conexão de tempos e vidas.

E o poema foi brotando:

 

Nasci com o sangue de minha mãe

espargindo em meu corpo

a dor da vida.

 

Minha avó foi a cativa

a me dar o pó da Via-Láctea

dissolvendo-a a colheradas

em copos de geléia.

 

Nada passava pelo racional. Fui tomado por uma energia misteriosa, uma febre. Datilografava uma página, terminava e colocava outra. Tudo saía como se estivesse esperando o momento de brotar. Era um poema diferente de tudo o que eu tinha feito. E não cabia a mim resistir ou não seguir. Era uma força.

Foram surgindo outros personagens, cenários, situações. Meu pai, as ruas do Crato, Brejo Santo, meus irmãos. Os objetos que fizeram parte da minha infância, a adolescência, até que cheguei ao Recife.

No poema, defino minha chegada a esta cidade, em 1987, em poucas linhas:

 

Fui para outros mundos

Criar força nos olhos.

Fiz dos ombros meu coração.

 

O poema me consumiu semanas. Datilografava, corrigia, retomava. O fluxo seguiu, incansável. São 25 versos.

Andei com esses originais na minha algibeira durante um bom par de anos, algumas pessoas queridas leram, deram sugestões importantíssimas, especialmente o querido Ronaldo Correia de Brito.

Em 2009, minha tia morreu.

Lembro que ela estava sofrendo muito, numa UTI, entubada. De manhã a visitei e me despedi ao seu ouvido. “Vá, tia, vá em paz, sem medo”, repeti várias vezes ao seu ouvido. À noite, ela morreu. Como a clínica era depois de Olinda, e estávamos próximos do Carnaval, liguei para os parentes mais próximos para informar da morte, enquanto uma troça passava, com o frevo rasgando a noite, celebrando a vida.

O longo poema, intitulado Tempo de Vidro, foi publicado somente em 2012, junto com A praça azul, pela Editora Paés. Está esgotado.

Nunca consigo fazer a leitura completa sem engasgar de emoção. Mas sou um taurino teimoso, como já me alertaram vários guias. Vou tentar de novo, sei que vou me emocionar de novo, vou pedir desculpas de novo e vou seguir de novo. Se todo engasgo fosse poético, a vida seria tão mais simples…

Amanhã (4/03), no espaço Toca, estarei no espaço Toca, com o poeta Fred Caju, a partir das 20h. Vou ler meu Tempo de Vidro, ele vai ler seu Estilhaços.

Depois vamos conversar sobre poesia e memória, publicações e futuro. O microfone vai estar aberto para quem quiser recitar seus poemas e falar o que quiser.

O Espaço Toca fica na rua Santa Cruz, 84. Boa Vista

Informo que o senhor Rodrigo Acioli, da editora Titivillus, estará com uma edição novinha do Tempo de Vidro, artesanal, numerada. São 40 exemplares.

Postado em Crônicas | 3 Comentários »

3 Comentários

  1. Pedro Disse:

    Que lindo… é por isso que sempre venho aqui! Isso me faz viver melhor.

  2. Sirley Disse:

    Sama,
    O Rodrigo Acioli, da editora Titivillus, aina está vendendo a edição novinha do Tempo de Vidro?
    Se sim, onde posso comprar?
    Abraços.

  3. Silvan Nunes Disse:

    Que maravilha de leitura, Samarone.
    Confesso abertamente que lê-lo foi um afago em minha alma.
    Nunca mais fico tanto tempo sem vir aqui.

    Forte Abraço!

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