Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Diários de Olinda (Volume 1)

29 de abril de 2017, às 18:16h por Samarone Lima

Esta cronica deve ser lida ao som de Belchior.

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O Sebo ainda não pegou. Calhou de ter inaugurado justo no momento que o vizinho, Raoni, teve que encerrar as atividades da Casa do Cachorro Preto, por pressão da Prefeitura. Sempre dava muita gente. O cachorro, todavia, é branco. Raoni me emprestou quatro mesas verdes, que são um charme.

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Todos os dias, ela vinha e passava um pedaço aqui, a gatinha linda da vizinha. Foi ficando mais tempo, então passou a dormir. Carinhosa, não sai de junto de mim. Batizei-a de Isabelita. A vizinha disse que o nome dela é Talita, e não acha ruim que ela fique por aqui. É uma gatinha que se adotou. Me ajudou um pouco com a saudade de Azeitona.

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Os ônibus que circulam para Olinda, especialmente da Cidade Alta, são péssimos, imundos, calorentos. Não sei como um empresário não tem a dignidade de lavar os veículos, antes de saírem para levar milhares de pessoas. Os motoristas estão sempre com uma cara de exaustos, fodidos. E quando dou bom dia ou boa tarde, os cobradores tomam um susto.

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A poesia brota. Algo misterioso está acontecendo. Eu agradeço. Já vem outro livro de poesias. Por enquanto, vai se intitular “O céu nas mãos”.

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Escritor do momento: Albert Cossery. Egipcio. Escreve filhadaputamente bem. Já li “Mendigos e Altivos”, agora vou com “As cores da infâmia”. Seu lema é perfeito: “Uma frase por dia”. Neles, o submundo do povo egipcio, o populacho.

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No ônibus, o sujeito entra vendendo água e “cremosinho” (que é uma delícia, por sinal). Um calor de doer.

“Olha a água!”

Silêncio.

“E vocês não bebem água não, é? Faz mal para a saúde não beber água!”.

Uma mulher levanta a mão e pede uma garrafinha.

Ele olha para mim e comenta:

“O povo esquece das coisas. Eu lembro”.

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“A Venda de Seu Biu”. A 82 metros de casa. Ventilador no três, Brahma a R$ 5,00 e ótimo atendimento de Luís, o garçom. A música poderia ser melhor, mas aí também é pedir demais.

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Ainda encantado com “Terezas”, a novela publicada pelo senhor Inácio França.

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Agendei com Inácio uma conversa com Tereza Costa Rego dia 13, aqui no sebo. Vai ser lindo.

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Zeca lança “A tempestade” dia 6 de maio. E estamos preparando um curso de Filosofia Livre. Uma vez por mês, sábado de manhã. O cara é sabido todo. Vou dar um curso de poesia também, aos sábados. Vamos ver o formato.

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Frases que chegam:

“Quando você me entendeu, chovia?”

“A alma dele enguiçou”.

“Durante muito tempo

eu não tinha um lugar

para amarrar minha solidão”.

“Agora sei onde dói. Onde manco. Onde mora minha cartomante”.

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Dominguinhos e João Donato. “Triste”. Lindo. A tristeza tem, sim, beleza.

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Aniversário dia 3 de maio. Chego aos 48 anos, quem diria que fosse tão longe. Como tem jogo do Santa, vou trabalhar. Nunca sei o que fazer no meu aniversário. A falta de vocação para a autofesta é antiga. Penso num encontro de poetas, no dia cinco de maio. Encontro para ler poesias, aqui na Casa Azul.

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O empobrecimento do país é uma coisa dolorosa. Todos os que conheço estão apertados. “Nunca estive tão quebrado”, disse Naná, hoje de tarde. Sua Kombi, que nunca parava, agora está morgada.

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A TV Globo tem uma vocação golpista. Acho que demorou a perceber que isso vai lhe render muitos infortúnios. O William Waack chega a ser desagradável com sua raiva ancestral. Mas sou vesgo para isso. Quase não vejo mais TV.  A Globo virou um império contra o povo brasileiro.

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Maria Lúcia Alvim. Que grande poeta, meu deus.

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Morreu Belchior. Neste domingo, só dá ele aqui em casa.

“Eu era alegre como um rio”

“Não sou feliz mas não sou mudo/Hoje eu canto muito mais”.

“Mas não se preocupe comigo, isto é apenas uma canção, a vida é realmente muito pior…”

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Olinda e os mistérios da vida

23 de abril de 2017, às 10:09h por Samarone Lima

O mistério age na vida da gente e não há como entender. Na verdade, é uma petulância tentar entender certas coisas.

Começou com um tarô. A amiga Eunice, eu já sabia, é boa nessa parada das cartas, e me ofereceu algo cada vez mais precioso, nesses dias de tanta pressa e tantas agendas superlotadas – seu tempo e seu conhecimento e sua intuição. Eu, que sou um sincrético de norte a sul, topei na hora. Era uma segunda-feira, quando tudo começou a mudar.

As cartas não mentem. Meu filho, é mudança de tudo que é jeito, não vai sobrar nada, foi só o começo do belo entardecer, já nas primeiras observações. Foi tanta coisa linda, importante, muitas dicas, as mudanças, o início de um novo ciclo, até que, no final, surgiu o tema da casa, que eu vinha imaginando, há um certo tempo, uma casa grande, arejada, com quintal, onde eu pudesse botar meu sebo e tocar a vida mais lentamente. Uma casa improvável, por sinal, diante das broncas financeiras, já que eu vivo neste país que está desmoronando, chamado Brasil.

As cartas que puxei fizeram uma mistura tão precisa, que a casa já estava a caminho. Bastava eu fazer um movimento mais decidido, que o resto se resolveria.

E eu fiz.

No dia seguinte, uma terça-feira, creio, liguei para Chivi, amiga argentina que tem um sítio em Olinda. Perguntei se ela sabia de alguma casa para alugar. Justo neste dia, ela tinha percorrido a cidade de norte a sul, procurando uma casa para alugar.

“Ah, Samarone, tem uma casa azul, linda, com um quintal enorme, mas é muito grande pra mim e as crianças, acho que você vai gostar dela, vou te passar os contatos do corretor”.

Naquarta-feira, entrei na casa, com Paulo, 0 corretor. Era exatamente como eu vinha imaginando. Grande, com um piso belíssimo, um quintal enorme, com dois pés de Fruta-Pão, a lembrança mais remota que tenho do meu retorno ao Recife, em 2000 – os Fruta-Pão caindo numa casinha que morei no Poço, ao lado da casa de André.

Pensei – é aqui mesmo, que vou ficar, e recomeçar minha vida. Eu e esta errância tão antiga, refazendo meus mapas interiores.

Talvez seja por isso que eu esta fé particular – imaginar é mais forte que pedir. Ou imaginar pode até ser uma forma de pedir, só que eu não fico passando para os deuses e guias qualquer responsabilidade. Eles já são muito ocupados, com tantos pedidos, rezas, promessas. Eu acredito no que imagino e sigo quase como um cego a minha intuição.

Dois dias depois, pelos mistérios da vida, o contrato foi assinado e as chaves estavam nas minhas mãos.

Mistério porque eu estava, pelos meus próprios cálculos, quebrado. Sem dinheiro, sem discurso, sem tudo, como diz o poema. Com a chave na mão, eu finalmente tinha uma porta para abrir, e a casa era azul, infinitamente azul, milagrosamente azul. Um azul Carlos Pena Filho. Um desmantelo azul, de tanta beleza.

Foi um domingo, meu primeiro dia aqui. E cancelei tudo. Fiquei na casa vazia, olhando com a delicadeza possível, e fui limpando e pedindo licença, avisando da minha chegada, e providenciei umas velas, acendi uns incensos, rezei, porque rezar é bom, avisei que vinha para o que fosse de bom e belo, que iria cuidar dela, da casa, e que trazia meu silêncio para Olinda e minha vontade de seguir vivendo e escrevendo e tentando, cada vez mais e sempre, não incomodar ninguém e toca a vida com calma, com delicadeza.

E vieram os muitos livros, algumas estantes, minha mesa, a segunda mudança em pouco mais de um ano. E vieram os amigos, que me ajudaram em tudo, que trouxeram presentes e incensos, e tantas outras coisas, tanto cuidado, tanta gentileza, tanta bondade amorosa, e foram tantos, como Lúcia, que separou muitas horas dos seus dias para me ajudar a montar as primeiras estantes do sebo, que ganhou o nome de “Casa Azul”. Como Barthô, esse amigo que agrega tanta gente linda ao seu redor, morador dos Quatro Cantos, que me deu boas vindas, como bom olindense. Ou como o amigo Esequias Pierre, incansável na ajuda, na amizade, na disponibilidade. Ou Naná, sempre ele, com sua Kombi de mil e uma utilidades.

Ontem, por esses caminhos da beleza, fui com o velho amigo Inácio França (que é perigosamente meu fiador), sua Geórgia e o filho Bruno, conhecer a artista plástica Tereza Costa Rego. Na verdade, Inácio foi levar a novela que escreveu sobre parte da vida dela, “Terezas”, que será lançado na quinta-feira.

Sobre o encontro e o livro (que é maravilhoso), terei que escrever outro texto.

Mas antes de sair, Tereza fez questão de pedir vinho, e brindamos.

Brindamos à vida, à arte, à beleza, aos encontros.

Minha alma tem uma geografia tão intensa, já vivi em tantas terras, já morei em tantas casas, que a cada começo, sinto a mesma alegria inocente de quem vê o mar pela primeira vez.

Estou ainda tomando os primeiros goles de um vinho especial, guardado há tantos anos: Olinda.

 

Para Chivi, que vai ser minha vizinha.

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