Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Olinda e os mistérios da vida

23 de abril de 2017, às 10:09h por Samarone Lima

O mistério age na vida da gente e não há como entender. Na verdade, é uma petulância tentar entender certas coisas.

Começou com um tarô. A amiga Eunice, eu já sabia, é boa nessa parada das cartas, e me ofereceu algo cada vez mais precioso, nesses dias de tanta pressa e tantas agendas superlotadas – seu tempo e seu conhecimento e sua intuição. Eu, que sou um sincrético de norte a sul, topei na hora. Era uma segunda-feira, quando tudo começou a mudar.

As cartas não mentem. Meu filho, é mudança de tudo que é jeito, não vai sobrar nada, foi só o começo do belo entardecer, já nas primeiras observações. Foi tanta coisa linda, importante, muitas dicas, as mudanças, o início de um novo ciclo, até que, no final, surgiu o tema da casa, que eu vinha imaginando, há um certo tempo, uma casa grande, arejada, com quintal, onde eu pudesse botar meu sebo e tocar a vida mais lentamente. Uma casa improvável, por sinal, diante das broncas financeiras, já que eu vivo neste país que está desmoronando, chamado Brasil.

As cartas que puxei fizeram uma mistura tão precisa, que a casa já estava a caminho. Bastava eu fazer um movimento mais decidido, que o resto se resolveria.

E eu fiz.

No dia seguinte, uma terça-feira, creio, liguei para Chivi, amiga argentina que tem um sítio em Olinda. Perguntei se ela sabia de alguma casa para alugar. Justo neste dia, ela tinha percorrido a cidade de norte a sul, procurando uma casa para alugar.

“Ah, Samarone, tem uma casa azul, linda, com um quintal enorme, mas é muito grande pra mim e as crianças, acho que você vai gostar dela, vou te passar os contatos do corretor”.

Naquarta-feira, entrei na casa, com Paulo, 0 corretor. Era exatamente como eu vinha imaginando. Grande, com um piso belíssimo, um quintal enorme, com dois pés de Fruta-Pão, a lembrança mais remota que tenho do meu retorno ao Recife, em 2000 – os Fruta-Pão caindo numa casinha que morei no Poço, ao lado da casa de André.

Pensei – é aqui mesmo, que vou ficar, e recomeçar minha vida. Eu e esta errância tão antiga, refazendo meus mapas interiores.

Talvez seja por isso que eu esta fé particular – imaginar é mais forte que pedir. Ou imaginar pode até ser uma forma de pedir, só que eu não fico passando para os deuses e guias qualquer responsabilidade. Eles já são muito ocupados, com tantos pedidos, rezas, promessas. Eu acredito no que imagino e sigo quase como um cego a minha intuição.

Dois dias depois, pelos mistérios da vida, o contrato foi assinado e as chaves estavam nas minhas mãos.

Mistério porque eu estava, pelos meus próprios cálculos, quebrado. Sem dinheiro, sem discurso, sem tudo, como diz o poema. Com a chave na mão, eu finalmente tinha uma porta para abrir, e a casa era azul, infinitamente azul, milagrosamente azul. Um azul Carlos Pena Filho. Um desmantelo azul, de tanta beleza.

Foi um domingo, meu primeiro dia aqui. E cancelei tudo. Fiquei na casa vazia, olhando com a delicadeza possível, e fui limpando e pedindo licença, avisando da minha chegada, e providenciei umas velas, acendi uns incensos, rezei, porque rezar é bom, avisei que vinha para o que fosse de bom e belo, que iria cuidar dela, da casa, e que trazia meu silêncio para Olinda e minha vontade de seguir vivendo e escrevendo e tentando, cada vez mais e sempre, não incomodar ninguém e toca a vida com calma, com delicadeza.

E vieram os muitos livros, algumas estantes, minha mesa, a segunda mudança em pouco mais de um ano. E vieram os amigos, que me ajudaram em tudo, que trouxeram presentes e incensos, e tantas outras coisas, tanto cuidado, tanta gentileza, tanta bondade amorosa, e foram tantos, como Lúcia, que separou muitas horas dos seus dias para me ajudar a montar as primeiras estantes do sebo, que ganhou o nome de “Casa Azul”. Como Barthô, esse amigo que agrega tanta gente linda ao seu redor, morador dos Quatro Cantos, que me deu boas vindas, como bom olindense. Ou como o amigo Esequias Pierre, incansável na ajuda, na amizade, na disponibilidade. Ou Naná, sempre ele, com sua Kombi de mil e uma utilidades.

Ontem, por esses caminhos da beleza, fui com o velho amigo Inácio França (que é perigosamente meu fiador), sua Geórgia e o filho Bruno, conhecer a artista plástica Tereza Costa Rego. Na verdade, Inácio foi levar a novela que escreveu sobre parte da vida dela, “Terezas”, que será lançado na quinta-feira.

Sobre o encontro e o livro (que é maravilhoso), terei que escrever outro texto.

Mas antes de sair, Tereza fez questão de pedir vinho, e brindamos.

Brindamos à vida, à arte, à beleza, aos encontros.

Minha alma tem uma geografia tão intensa, já vivi em tantas terras, já morei em tantas casas, que a cada começo, sinto a mesma alegria inocente de quem vê o mar pela primeira vez.

Estou ainda tomando os primeiros goles de um vinho especial, guardado há tantos anos: Olinda.

 

Para Chivi, que vai ser minha vizinha.

Postado em Crônicas | 7 Comentários »

7 Comentários

  1. Zeca Disse:

    Muito massa, Sama. A Casa Azul é linda e transpira o silêncio secular de Olinda. Desejando (imaginando) tudo de bom para você nesse novo ciclo. E muito sucesso e rios de vinho.

  2. Arabela Morais Disse:

    Seja muito bem vindo a essas paragens, Sama! Onde fica tua casa azul? Me conta pra eu poder passar pra uma visita de boas vindas! Moro no Bonsucesso. Olindemos, pois.

  3. O Analista - DF Disse:

    Fico feliz por você ter encontrado essa casa azul, Samarone. Já Deus abençoe sua nova morada e empreitada. Quando estiver em Recife viu conhecer o novo sebo”Casa Azul”.

  4. samarone Disse:

    Arabela, a casa fica na rua 13 de maio, 121, ao lado da Casa do Cachorro Preto (mas o cachorro é branco).
    Abro todo dia, às 17h09, exceto na segunda.
    Nesta quinta, especialmente não abrirei, por causa do lançamento do livro do amigo Inácio, em Casa Forte.
    Beijos e apareça.

    Sama

  5. Eurico Neto Disse:

    Olá, Samarone.

    Primeiramente, meus parabéns pelo blog e pelo sonho realizado.
    Sou leitor há algum tempo deste Estuário (e do blog do santinha) e já tive a feliz oportunidade de ler seu “Viagem ao Crepúsculo”, que me despertou uma imensa curiosidade de ir à Ilha.
    Você por acaso teria em seu acervo o livro “Nossos anos verde oliva”, de Roberto Ampuero, disponível para aquisição?

    Agradeço a atenção, desde já. Sucesso na sua nova fase!

    Eurico

  6. samarone Disse:

    Eurico, tenho este livro, mas está encaixotado em muitas caixas, vou ver se desenrolo para ti.
    Samarone

  7. Eurico Neto Disse:

    Valeu, Samarone!

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