Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Diários de Olinda (Volume dois: perambulações)

8 de maio de 2017, às 11:28h por Samarone Lima

Aos poucos, vou descobrindo Olinda. Sair de casa é bem simples – para um lado, tem beleza, para o outro, a mesma coisa.

Ontem à noitinha, fui à casa da artista plástica e extraordinária Tereza Costa Rego, para confirmar a participação dela numa boa conversa com Inácio França, sábado que vem (13), aqui na Casa Azul, onde moro e tenho um sebo. Era noitinha, hora boa para não incomodar.

Toquei a campainha, nada. Toquei mais uma vez, nada. Fica para a próxima.

Saio chutando pedrinhas e encontro um ótimo café, nos Quatro Cantos. Melhor – praticamente vazio e silencioso. Hoje, ao meu redor, uma das coisas mais importantes é silêncio. O silêncio ao redor. No mínimo, não ter tanto barulho.

Apenas duas mesas. Uma bela moça, concentradíssima em suas anotações, e um pessoal conhecido, já de saída. Como estou com meu Rilke na algibeira, peço um café (sempre um pequeno, porque o Cappuccino agora está mais caro que um almoço comercial), puxo minha caneta e toco minhas leituras. Eu só leio rabiscando, sublinhando, tomando notas.

Foram bons quarenta ou cinquenta minutos de silêncio e boa leitura. O livro em questão é uma jóia, que eu tinha guardado, uma minibiografia de Rilke, cheia de fotos, em espanhol, publicada em Frankfurt, em 1975. É bem capaz de Luzilá ter.

Estava no capítulo “Años de gran creación y largos viajes (1907 -1914)”, um momento realmente espetacular na vida do grande poeta, quando chegou uma moça, sentou na mesa ao lado. Quando a garçonete veio, percebi que falava bem alto. A garçonete teria escutado o pedido da cozinha da casa dela.

Pedido feito, ela puxou seu velho amigo – o celular, e ligou para alguém.

Falando alto, disse que tinha vindo não sei de onde, e queria encontrar a outra pessoa, para abraçar, beijar e amar muito.

Nesse momento, era 1908, e Rilke se tornara um dos habitantes do velho e belo “Palais Biron”. Um de seus vizinhos era Rodin, com quem já tivera uns entreveros, mas agora já estava tudo bem.

A minha vizinha de mesa desligou do convite, mas seguiu de olho na palma da mão. Acho que começou a zapear seu Facebook. Se aparecia música, vídeo, discurso de algum deputado, manifestação, eu imediatamente era notificado, porque o volume era alto como sua voz. Passei a ler acompanhado de ruídos. De gritos de criança a trechos de música. De sonos que eu não entendia a trechos de filme. Ela se recusava a levantar a cabeça, para ver se tinha alguém ao redor.

Mas sou persistente, e segui.

“Paris significou para Rilke quatro anos de trabalho cuja intensidade não voltaria nuca mais a viver novamente”, seguia Ingeborg Schnack, autora do livro, doutora em Filosofia.

Pensei em pedir para ela baixar um pouco, mas as pessoas andam bem centradas em si, e qualquer coisinha pode virar uma confusão. Eu não estou afim de confusão com ninguém, especialmente num domingo à noitinha, em Olinda, tomando um café e lendo sobre meu querido poeta.

A Rita Lee cantava algo, acho que era “Lança Perfume”, e segui lendo até que a cantora chegava àquela parte em que diz “me deixa de quatro no ato”, então a moça emendou um “me deixa de quatro no ato” com todo o seu vozeirão, sem tirar o olho do celular. A moça bastante bela, que estava no começo desta crônica, aproveito a deixa, amarrou sua cadernetinha e deu no pé.

Segui lendo, acompanhando o Facebook alheio e tomando algumas notas, quando alguém ligou. Estava chegando.

Chegou. A vizinha de mesa levantou, deu um longo abraço, alguns beijos estridentes e sentaram.

A pessoa que chegou era conhecida minha, mas fazia uns bons anos que não nos víamos. Acho que ela não me reconheceu ou fingiu que não me reconheceu, acho que fiz algo parecido, não queria muita conversa àquela altura do campeonato.

Para minha surpresa, começaram a falar quase pela linguagem dos sinais, de tão baixo. A outra pegou o celular para mostrar uma imagem, parece que era de alguém que tinha dado um vexame, sei lá, o mundo está mesmo bem esquisito. Quando escuto que o Zap vai acabar acho que seria uma maravilha.

Aproveitei este momento tão íntimo para puxar meu velocípede. Iria começar o período da Guerra Mundial (1914-1919), e estava bem curioso para saber o que tinha acontecido com meu poeta.

Paguei o café e dei no pé.

Fui para o Cashbar, que estava uma delícia, silencioso e calmo. Delícia para mim, já que para o dono, Rafael,  isso não é nada legal.

Li um bocado, depois apareceu o velho e bom Guga Marinheiro, que pediu uma cana e sentou para conversar sobre as broncas do Brasil, os vacilos da esquerda etc. A vantagem é que ele é sincero, queria desabafar e a conversa não tinha um celular no meio. Depois chegou o próprio Rafa, procurando uma música do João Gilberto para tocar.

Por essas coisas da vida, a moça que atendia no balcão perguntou se eu escrevia, algo assim, eu estava com um livro que tinha levado para Tereza, mostrei, ela mostrou para uma amiga, que é caixa do mesmo café, do início da história. A amiga gostou, e emprestei o livro, mas não vou pedir de volta.

Fiquei mais um pouco e voltei para casa, com meu Rilke.

Bastou deitar na rede, que a chuva começou.

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