Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Hoje, somente hoje…

21 de junho de 2017, às 14:05h por Samarone Lima

Hoje, somente hoje, alguém foi a um cartório tirar a segunda via do registro para casar;

Hoje, alguém cantarolou uma música antiga e lembrou de uma certa pessoa;

Hoje, alguém olhou para uma foto de um dia tão especial, e sentiu algo como o perdão;

Hoje, alguma mulher grávida pensou com um sorriso – “eu vou ser mãe”;

Hoje, alguma mulher pensou muito e decidiu que nunca será mãe;

Hoje, somente hoje, alguém muito rico resolveu comprar uma Land Rover à vista;

Hoje, alguém que não conheço entrou definitivamente na linha da pobreza

Hoje, alguém lembrou do Raul ao vender seu Corcel 73;

Hoje, alguém foi ao banco cheio de esperanças, mas nada havia em sua velha conta;

Hoje, alguém armado roubou uma pessoa desarmada na rua;

Hoje, alguém foi morto a tiros;

Hoje, alguém visitou um parente no hospital e sentiu que ele está próximo de partir;

Hoje, alguém saiu de casa somente para comprar uma lâmpada para a sala de leitura;

Hoje, e somente hoje, alguém desistiu de um trabalho angustiante e resolveu mandar tudo às favas;

Hoje, alguém foi ao primeiro dia de estágio numa grande empresa, e não sabia sequer onde sentar;

Hoje, alguma mãe lembrou saudosa do filho distante;

Hoje, a filha percebeu que a mãe está próxima da morte e se sentiu tão desamparada que ligou para o irmão no exterior;

Hoje, alguém que está vivendo há tempos no exterior se perguntou – “mas o que diabos estou fazendo neste fim de mundo?”;

Hoje, alguém escutou uma canção de Gilberto Gil, possivelmente “Drão”, enquanto dirigia, e pensou nas belezas do mundo;

Hoje, alguém rompeu a barreira do autocontrole e mandou um email dizendo “oi, eu errei, e quero voltar”;

Hoje, alguém olhou a caixa de email e não tinha nada especial, e isso doeu muito;

Hoje, alguém respondeu depois de uma semana dizendo “mas ninguém está mais lendo email, meu amor…”;

Hoje, alguém pensou pela milésima vez em começar a ler Dom Quixote, pelo gosto de ter lido ao menos um clássico;

Hoje, algum adulto ensinou uma criança a dizer pela primeira vez “água”;

Hoje, alguém comprou o vinho mais caro, porque o jantar com aquela pessoa merece;

Hoje, alguém tomou uma dose de cachaça para começar o dia;

Hoje, alguém que precisava muito, acertou na milhar;

Hoje, alguém olhou para o mural de fotos e resolveu tirar a foto dele, porque é o momento de olhar para outras pessoas;

Hoje, em meio a uma discussão patética, ela disse furiosa “ora, vá pra casa do caralho, você e sua grosseria!”, e ele ficou perplexo;

Hoje, ao ver o noticiário na TV, alguém comentou “esse país está uma podridão só”;

Hoje, alguém comentou com um amigo que conheceu uma certa pessoa;

Hoje, algum amigo cumprimentou o outro dizendo “fala, miséria, por que tu não fosse à pelada do domingo?”;

Hoje, alguém tirou a carteira de motorista, mas ainda não tem carro;

Hoje, alguém descobriu que está com câncer mas decidiu enfrentá-lo;

Hoje, alguém recebeu do médico a notícia que terminou a radioterapia, e que deu tudo certo;

Hoje, alguém pensou – “é hoje, que eu encho o caneco”, esfregando as mãos;

Hoje, alguém sentou na calçada e ficou pensando no nome do filho que ainda vai ter com a mulher que ama;

Hoje, e somente hoje, o dia que cabe todas as coisas…

Recife, 15 de setembro de 2005 e 21 de junho de 2017.

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Ainda existe gente assim

11 de junho de 2017, às 20:41h por Samarone Lima

Parece que certas pessoas existem só para nos lembrar que a humanidade tem salvação.

Sorte tem que as encontra, nessas lutas da vida, onde as palavras “corrupção” (ativa e passiva, uma coisa bem sexual, por sinal) é verbalizada quase como um mantra, nos meios de incomunicação.

O fato é que precisei de gente para botar dois pares de armador de rede, aqui na Casa Azul, em Olinda, onde vivo e toco meu sebo. Não sei se o certo seria “dois pares de armadores de rede”, no plural, mas é domingo à noite e estou cansado. Não vou ligar para Flávia Suassuna uma hora dessas. O principal é que eu precisava voltar a dormir em rede, porque durmo o sono dos justos.

Posso passar 12 horas arrumando livros, montando estante, limpando a casa, passando rodo, lavando prato, capinando mato, mas não tenho a menor paciência com esse negócio de furadeira, broca, bucha. Sei, por antecipação, que faria a marcação dos lugares com um lápis, usaria a furadeira com uma certa nobreza, mas, ao final, os buracos estariam em desarmonia com o armador, teria que fazer tudo de novo, eu ficaria irritado e sem minha rede à noite. Isso se eu não furasse logo um belo de um cano.

Bastou uma conversinha com os vizinhos, e apareceu o senhor Mago. Sem camisa, simpaticíssimo, disse que isso era “bronca besta”, foi buscar sua furadeira e voltou dois minutos depois com seu comparsa, o senhor China, que de China não tem nada, com um eterno boné montado no cocoruto e uma cara de zombeteiro. Isso, creio, era um domingo, antes das 9h.

Mostrei o local da rede, aqui no quarto, eles marcaram o local e mandaram ver. Como a casa aqui é bem grande, peguei um ônibus Rio Doce-CDU e desci 15 minutos depois, na sala de casa. Toquei a arrumação de alguns livros. Fiquei só escutando os “zuuuuammmmuuuuummmmôôôôô”  da broca na parede.

Uns 15 minutos depois, Mago gritou um “professor” a plenos pulmões, e quando cheguei no quarto, ele já tinha botado a rede no armador. Estava sentado nela, com um sorriso maroto:

“Já fiz até o teste”.

Isso só pode dar certo, foi o que pensei.

Nos dias seguintes, a dupla foi sendo chamada sucessiva vezes, de acordo com as necessidades e o orçamento.

Os dois têm uma característica em comum que é bem rara em muita gente que eu conheço, e que se acha a própria Crush gelada: chegam sempre na hora certa, fazem o serviço tirando onda com a cara um do outro, são perfeccionistas, o resultado é excelente, e cobram sempre um preço absolutamente justo.

Foi assim com as goteiras. Até o cimento que compraram, trouxeram a nota. Ajeitaram todas as portas num piscar de olhos. Depois botaram as prateleiras. Me indicaram uma lavadeira de confiança. “Eu não iria dar o nome de uma pessoa que não conhecesse bem”, me disse o Mago. Hoje, os chamei e perguntei se poderiam cortaram um pedaço da parede de gesso para entrar mais luz na cozinha.

“Ôx, só se for agora”, respondeu o Mago.

Em pouco mais de uma hora, o serviço estava feito.

“Só precisa de umas buchas para botar nos buracos do gesso, mas isso eu desenrolo amanhã”, me informou China.

E eu sei que amanhã ele vem com essas buchas, sem falta. Essa é outra coisa foda – se eles prometem algo, fazem.

Como geralmente trabalham nos dias de folga (os dois são vigilantes), após receber o pagamento, vão a um supermercado aqui perto e compram algo para beber juntos. Outro dia, China passou levando uns produtos para botar água para passarinhos. Deve ser um desses sujeitos apaixonados por pássaros, mas tão apaixonados, que os aprisiona. Cada um com seu cada qual.

Quando estão fazendo um serviço aqui, vejo como são absolutamente precisos. Fazem as coisas com um rigor quase irritante. O Mago é carpinteiro de ofício e marceneiro, mas domina vários outros aspectos do fazer humano. É outro tipo de inteligência.

Quando tenho alguma ideia maluca, ele fica em silêncio e depois vai ao ponto:

“Professor, isso não vai dar certo”.

Eu desisto na hora.

Enquanto escrevo, olho para o corte que eles fizeram no gesso de manhã. Está quase uma obra de arte. Michelângelo e Velázquez estiveram por aqui, logo cedo.

A frase parece exagerada, mas é isso mesmo o que sinto, quando encontro criaturas dessa espécie – eu fico num júbilo, numa alegria enorme, por saber que ainda existe gente assim.

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Ermira

4 de junho de 2017, às 18:05h por Samarone Lima

Ela fez 71 anos hoje, a minha mãe. Ela mora em Fortaleza, de onde saí, aos 18 anos, no distante ano de 1987.

Ou seja, vivo distante da minha mãe há trinta anos. Hoje sou um jovem senhor de 48 anos e muitos cabelos brancos.

Recife, São Paulo, Recife novamente, centenas de viagens, países os mais diversos, trabalhos os mais diferentes, amores, dores, casas, mudanças, bairros, quedas e novas realidades, a vida como lâmpadas, queimando e acendendo, ou velas resistindo aos ventos, ou nada. A vida, ardendo, simplesmente sendo.

E sempre estivemos misteriosamente próximos, em telefonemas, cartas, pelo segredo mais intenso do amor – ele, o amor, independe da distância, do tempo. Nunca deixei de senti-la perto de mim, do mesmo modo que piscava o olho para mim, quando eu era pequeno, nos momentos mais difíceis. Aquilo me acalmava como um abraço.

Encontrei uma foto para fazer uma homenagem. Ela está entre o querido mestre Ariano (numa aula que ele deu em Fortaleza) e sua amada irmã, a nossa também amada tia Beta, que morreu ano passado (a tia fazia aniversário exatamente um dia antes da minha mãe).

Fui ver nos meus livros de poesia alguns poemas que cito minha mãe.

Compartilho um que gosto muito, que está no livro A invenção do deserto (Confraria do Vento, 2013):

**

Os Olhos da minha mãe

Os olhos da minha mãe

sempre foram verdes

antes do mar.

Como tudo nela, o excesso contido

o turbilhão povoado de sorrisos

o silêncio batendo nas pedras.

 

Alguns olhares

curtos com um clarão

nos salvam

de alguma morte.

 

Os olhos da minha mãe

me salvaram muitas vezes

quando eu não tinha, ainda

armas, palavras, delicadezas.

**

Com o amor de sempre, povoado de saudades plenas.

ermira e ariano

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