Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Ainda existe gente assim

11 de junho de 2017, às 20:41h por Samarone Lima

Parece que certas pessoas existem só para nos lembrar que a humanidade tem salvação.

Sorte tem que as encontra, nessas lutas da vida, onde as palavras “corrupção” (ativa e passiva, uma coisa bem sexual, por sinal) é verbalizada quase como um mantra, nos meios de incomunicação.

O fato é que precisei de gente para botar dois pares de armador de rede, aqui na Casa Azul, em Olinda, onde vivo e toco meu sebo. Não sei se o certo seria “dois pares de armadores de rede”, no plural, mas é domingo à noite e estou cansado. Não vou ligar para Flávia Suassuna uma hora dessas. O principal é que eu precisava voltar a dormir em rede, porque durmo o sono dos justos.

Posso passar 12 horas arrumando livros, montando estante, limpando a casa, passando rodo, lavando prato, capinando mato, mas não tenho a menor paciência com esse negócio de furadeira, broca, bucha. Sei, por antecipação, que faria a marcação dos lugares com um lápis, usaria a furadeira com uma certa nobreza, mas, ao final, os buracos estariam em desarmonia com o armador, teria que fazer tudo de novo, eu ficaria irritado e sem minha rede à noite. Isso se eu não furasse logo um belo de um cano.

Bastou uma conversinha com os vizinhos, e apareceu o senhor Mago. Sem camisa, simpaticíssimo, disse que isso era “bronca besta”, foi buscar sua furadeira e voltou dois minutos depois com seu comparsa, o senhor China, que de China não tem nada, com um eterno boné montado no cocoruto e uma cara de zombeteiro. Isso, creio, era um domingo, antes das 9h.

Mostrei o local da rede, aqui no quarto, eles marcaram o local e mandaram ver. Como a casa aqui é bem grande, peguei um ônibus Rio Doce-CDU e desci 15 minutos depois, na sala de casa. Toquei a arrumação de alguns livros. Fiquei só escutando os “zuuuuammmmuuuuummmmôôôôô”  da broca na parede.

Uns 15 minutos depois, Mago gritou um “professor” a plenos pulmões, e quando cheguei no quarto, ele já tinha botado a rede no armador. Estava sentado nela, com um sorriso maroto:

“Já fiz até o teste”.

Isso só pode dar certo, foi o que pensei.

Nos dias seguintes, a dupla foi sendo chamada sucessiva vezes, de acordo com as necessidades e o orçamento.

Os dois têm uma característica em comum que é bem rara em muita gente que eu conheço, e que se acha a própria Crush gelada: chegam sempre na hora certa, fazem o serviço tirando onda com a cara um do outro, são perfeccionistas, o resultado é excelente, e cobram sempre um preço absolutamente justo.

Foi assim com as goteiras. Até o cimento que compraram, trouxeram a nota. Ajeitaram todas as portas num piscar de olhos. Depois botaram as prateleiras. Me indicaram uma lavadeira de confiança. “Eu não iria dar o nome de uma pessoa que não conhecesse bem”, me disse o Mago. Hoje, os chamei e perguntei se poderiam cortaram um pedaço da parede de gesso para entrar mais luz na cozinha.

“Ôx, só se for agora”, respondeu o Mago.

Em pouco mais de uma hora, o serviço estava feito.

“Só precisa de umas buchas para botar nos buracos do gesso, mas isso eu desenrolo amanhã”, me informou China.

E eu sei que amanhã ele vem com essas buchas, sem falta. Essa é outra coisa foda – se eles prometem algo, fazem.

Como geralmente trabalham nos dias de folga (os dois são vigilantes), após receber o pagamento, vão a um supermercado aqui perto e compram algo para beber juntos. Outro dia, China passou levando uns produtos para botar água para passarinhos. Deve ser um desses sujeitos apaixonados por pássaros, mas tão apaixonados, que os aprisiona. Cada um com seu cada qual.

Quando estão fazendo um serviço aqui, vejo como são absolutamente precisos. Fazem as coisas com um rigor quase irritante. O Mago é carpinteiro de ofício e marceneiro, mas domina vários outros aspectos do fazer humano. É outro tipo de inteligência.

Quando tenho alguma ideia maluca, ele fica em silêncio e depois vai ao ponto:

“Professor, isso não vai dar certo”.

Eu desisto na hora.

Enquanto escrevo, olho para o corte que eles fizeram no gesso de manhã. Está quase uma obra de arte. Michelângelo e Velázquez estiveram por aqui, logo cedo.

A frase parece exagerada, mas é isso mesmo o que sinto, quando encontro criaturas dessa espécie – eu fico num júbilo, numa alegria enorme, por saber que ainda existe gente assim.

Postado em Crônicas | 2 Comentários »

2 Comentários

  1. Pedro Disse:

    Gosto muito desses seus textos que relatam o cotidiano, as pessoas que você encontra… Fico aqui viajando! Obrigado, Sama!

  2. Kátia Rejane Disse:

    Estive sem ler seus textos por algum tempo, mas a saudade vai apertando e é quase impossível resistir.
    Muito me encanta esse seu jeito peculiar de retratar o dia a dia.
    Parabéns!

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