Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Anotações de um dono de sebo em Olinda

11 de julho de 2017, às 9:13h por Samarone Lima

Acordo sempre muito cedo, a primeira coisa que faço é abrir as duas grandes janelas e as janelinhas da porta, para entrar sol e aquecer um pouco os livro, já que as duas primeiras salas da casa são destinadas ao sebo Casa Azul.

Mas a impressão que tenho, desde que cheguei, é que estou em Macondo, não lembro direito se é a cidade inventada por Gabriel Garcia Márquez, onde começou a chover e não parou mais. O fato é que acordo, está chovendo. Quando dá uma trégua, boto as roupas para pegar sol, volta a chover. Saio de casa, está chovendo.Volto, está chovendo. Enquanto escrevo esta crônica, chove. Quando não está chovendo, o céu está carregado.

Os moradores de Olinda é que são safos. Em qualquer comentário nas ruas sobre o possível “excesso” de chuvas, a frase que mais escuto resume tudo:

“É o tempo dela”.

Quanta simplicidade e sabedoria em apenas uma frase.

Como é um sebo e as janelas estão sempre abertas e tem uma placa dizendo “para entrar, bata palmas – se eu não aparecer, é porque não estou”, aparece todo tipo de gente.

Nos primeiros dias aqui (amanhã completo quatro meses), houve uma batalha em torno dos dois pés de Fruta-Pão que tem aqui no quintal. Como são vendidos nas feiras por valores entre R$ 3,00 e R$ 5,00 e os pés estão carregados, entrar aqui no quintal com um ajudante (geralmente o filho), sair com 40 unidades (não sei como se escreve Fruta-Pão no plural) em uma manhã deve dar um bom dinheiro.

A coisa complicou porque todo dia aparecia um candidato a ser o “coletor-mor”. Deixei um senhor entrar, mas teve uma hora que eu estava aqui no quarto, escrevendo, olhei para o pé, o homem estava no cocoruto da árvore, uma altura que me deu calafrios, sem proteção alguma, só com uma vara e uma faquinha, enquanto o filho ficava com um saco, aparando a bolinha verde, para não machucar.

Como faço estudos sistemáticos de engenharia, sei que um andar tem, em média, três metros. Ele, o homem, estava a uns seis, sete andares de altura. Bastaria um movimento em falso e estaria estatelado aqui no quintal. Só sosseguei mesmo quando ele desceu.

Tentei dar uma chace a outro senhor, mas foi como abrir concorrência para um cavalo batizado. Um homem rude, que trouxe o filho adolescente para ajudar. Acho que só não trouxe um chicote para ficar açoitando o menino porque percebeu que eu não deixaria. Rapou o pé, depois foi grosseiro comigo e acabou demitido. Vou ficar com o primeiro. Dá pena ver os frutos caírem no quintal, sabendo que pode dar uma renda para alguém, e que é um alimento.

É normal passar, todos os dias, um sujeito que não sei o nome ainda, mas o apelidei de “Tuita”. No meu tempo, era aquele auto-falante dos sons. Negro, estatura de media para alta, cara de gente boníssima, anda mais de bermuda e passa o dia caminhando por Olinda, falando sozinho.

Tuita tem assunto pacas. Às vezes estou na sala da frente, arrumando preços dos livros, ele encosta na janela falando, eu tomo um susto. Fala sobre vários assuntos sem ponto ou vírgula. Isabelita, que de manhã dorme no sofá da frente, levanta a cabeça, se espreguiça, olha pra mim como quem diz “é ele de novo, né?” e volta a dormir.

Ontem à tardinha uma moça bateu palmas, perguntou se era verdade que eu estava dando livros. Expliquei que era um sebo, eram livros com preços mais em conta, perguntei se ela queria entrar para ver. Ela, meio constrangida, perguntou se eu tinha algum alimento, porque a mãe estava desempregada, a situação estava braba mesmo. Abri a porta, pedi para ela entrar, perguntei se ela estava estudando, ela disse que iria fazer o ENEM, perguntei para que, ela quer fazer Letras.

“Dê uma olhada nos livros, que vou ver se tenho algo”.

Uma vergonha, minha despensa. Era para ter feito compras domingo, mas uma virose braba me deixou na lona, com febre e uma coisa que quase nunca tive na vida, a tal da sinusite, então só encontrei um pacote de pão de milho e uma fatia grande de um bolo de chocolate, que Flávia trouxe para o lanche do curso de Filosofia do sábado.

“Só tenho isso mesmo, desculpe. Gostasse de algum livro?”

Ela, para minha surpresa, estava com um livro de Maquiavel.

“Pode levar, é presente”.

Ela saiu com um pouco mais animada, creio.

Outro dia, à noite, chegou um sujeito com cara de agoniado. Cabelos brancos, agitado, tinha quatro livros, queria trocar ou vender, expliquei que estava no começo, não trabalhava com troca ou compra, ele não me deixava falar direito, abri a porta, ele foi olhar o acervo, perguntou pelo segundo volume de Xogum, putz, fazia tempo que eu não escutava sequer o nome do livro. Ele ficou cutucando tudo, não gostava de nada. Meu modesto sebo, cá entre nós, tem um acervo que não é fraco não.

“Quero dar um presente para uma amiga”, sugeri dois bons livros, ele pegou um sem nem olhar direito, quando fui dizer o preço ele me entregou o saco de livros que tinha trazido. Estranhamente, entre quatro livros péssimos, tinha “O homem e seus símbolos”, do Jung. Peguei esse em troca dos dois que ele levou.

Antes de sair, ele falou umas coisas como “eduque, para não construir presídios”, insistiu para que eu encontrasse Xogum, depois pediu que eu anotasse seu número, porque está rodando no Uber e depois saiu, com a mesma pressa que chegou.

Todos os dias passa gente por aqui, algumas figuras bem legais, que adoram livros. Outro dia, dois rapazes vieram e ficaram um tempo enorme. Um deles, que estuda letras, comprou cinco exemplares daquela coleção do Oto Maria Carpeaux. Deu para perceber que ele tinha guardado um dinheiro para isso, e que ficou bem feliz.

Lembrei da história do amigo Inácio França, que durante vários meses, em alguma fase da sua vida, ficou guardando o dinheiro da merenda, digo, do lanche (merenda é minha herança cearense), para comprar a coleção “Tesouros da Juventude”. Imagino a felicidade no dia em que, finalmente, chegou em casa com ela.

Ontem encontrei, num almoço aqui perto, a Lorena e o filho Francisco. Ele tem oito anos, creio. Disse que está separando uns livros que já leu para levar para o sebo.

Por essas e muitíssimas outras está valendo muito à pena ter aberto este espaço em Olinda.

Está sendo mesmo um Sebo Azul. Vertiginosamente azul. Azul.

Postado em Crônicas | 6 Comentários »

6 Comentários

  1. Pedro Disse:

    Toda vez que vejo que você publicou um novo texto, fico uns dois dias para lê-lo… feito quem não quer gastar algo precioso num momento que não será 100% apreciado!

    É estranho, mas sempre sinto isso!!

    Abraço!

  2. Pedro Disse:

    Vi agora, mas estou muito cansado. O lerei amanhã após o almoço, quando estiver quieto num canto!

  3. Julio Vila Nova Disse:

    Desconfio que o sebo vai render logo logo um volume de crônicas do azul olindense.

  4. André Tricolor Virtual Disse:

    Grande Sama,

    Excelente crônica, o lugar é formidável e agora se tornou mais interessante com sua presença e o seu trabalho sempre feito com amor

  5. André Tricolor Virtual Disse:

    … você é uma pessoa que sabe olhar para as pessoas …

    sucesso e saudações corais

  6. Recife, Olinda & arredores Disse:

    […] Estuario, é possível ter uma amostra disso – das crônicas mais recentes, leia, em especial, “Anotações de um dono de sebo em Olinda“, relato de coisas simples que acontecem no seu dia a dia na Casa […]

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