Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Os corpos dos que sofrem são os que mais incomodam

26 de julho de 2017, às 1:20h por Samarone Lima

Sou jornalista e escritor, agora vivendo em Olinda, depois de uma longa temporada no Recife, primeiro no Poço da Panela, depois na rua da Aurora. Sempre andei de ônibus, a pé e eventualmente de táxi. Tive um Fusca 68, mas depois da primeira e única batida num Honda Civic, vendi o que sobrou do meu azulzinho e voltei a ser como a maior parte dos habitantes das grandes cidades brasileiras – um usuário do transporte público ou das calçadas públicas.

Ou seja, todos os dias pego ônibus, saindo de Olinda para algum canto do Recife. Conheço quase como um camundongo as rotas dos ônibus, as conexões, os melhores horários de não pegar ônibus, os melhores lugares para descer. Sei que camundongo não pega ônibus, mas ele sabe se mover em qualquer canto. E a palavra camundongo é bem simpática.

Todos os dias, a humilhação desfila generosa nas paradas de ônibus feitas por algum engenheiro com cérebro de camundongo. Quando chove, todos se molham. Quando faz sol, a sombra fica do lado de fora do abrigo. O material é feito de ferro. Nas horas de calor, não tente sentar.

É comum (e natural) que às 7h da manhã você tenha que enfrentar um ônibus que saiu da garagem imundo. Ou com um barulho horrível, cada vez que o motorista pisa no freio – e isso vai acompanhar todos os usuários durante a viagem, e o motorista e cobrador, durante todas as viagens que fizerem.

Os idosos, como não pagam mais a passagem, ficam empoleirados na parte da frente do ônibus, antes da catraca, onde estão seis cadeiras. Alguns motoristas aceitam que o idoso mostre a carteirinha e entre pela porta traseira, para não aumentar aquele aglomerado na entrada. Outros motoristas sequer olham para eles.

Nessas horas, dá para ver duas coisas – como o Brasil está com uma população visivelmente mais velha, e como eles são maltratados pelo simples fatos de terem o direito a não pagar passagem.

Não, eles não recebem um cartão para passar na roleta e se acomodar onde quiser, como o restante dos passageiros. Eles entram, mostram a identidade e ficam confinados ali na frente. Por ali entram, por ali saem. Muitos têm problemas para subir os degraus, que parecem ter sido feitos para atletas olímpicos. Já é comum um idoso dar uma das cadeiras disponíveis para outro idoso com mais problema de saúde.

Nos últimos meses, as empresas do Consórcio Grande Recife inovaram. No lugar de seis cadeiras, os ônibus agora têm apenas três cadeiras para os idosos. É um escândalo. Algum promotor poderia se interessar por isso, mas transporte coletivo não interessa a ninguém – só a governos e donos de empresa – e à Imprensa, quando tem greve, para mostrar o “sofrimento do trabalhador”.

Eu tenho uma teoria que deve ter dono, mas eu não sei quem é – maltrate um povo, humilhe ele diariamente, obrigue-o a esperar no sol ou na chuva para conseguir entrar num ônibus sujo, barulhento, caro e quente, faça isso todos os dias, durante meses, anos – que este povo, aos poucos, vai sendo dominado e vai se acostumar a sofrer calado.

Ele não terá mais força para lutar por nada, sequer para reclamar. Seu sonho diário é apenas um: chegar no trabalho no horário de bater o cartão, e chegar em casa após as oito horas de luta.

Não queira estar dentro de um coletivo caso surja alguma manifestação nas ruas. Logo surgirão frases como “isso não dá em nada”, “lá vem essa merda de protesto de novo”.

Uma viagem simples, aqui do Carmo, na parte histórica de Olinda, até o Derby, um ponto central de cruzamento de ônibus de todo o Recife, custa, em média, R$ 4,40, valor do passe B. A distância é de 7,6 km.

Ser dono de empresa de transporte coletivo, nas grandes metrópoles, é um negócio milionário, envolve milhões de pessoas todos os meses, mas é uma terra de ninguém.

Ninguém sabe o nome dos donos das empresas, nem seus vínculos políticos. Nunca vi um fiscal do Estado dentro de um ônibus, tomando nota da quantidade de lâmpadas queimadas, registrando os ônibus que circulam lotados, na semiescuridão, sujos, velhos. Um motorista pode queimar vinte paradas durante o dia, que não acontece nada, a não ser nossos tradicionais muxoxos ou comentários irritados com o vizinho. Ou a reles indiferença, que é soberana.

Outro dia,os motoristas paralisaram quase toda a fronta de ônibus da Região Metropolitana para conseguir um aumento. Foram três dias de caos, confusão, mais sofrimento, até porque estava chovendo muito. Os motoristas conseguiram 6% de aumento.

Qualquer dia desse, vai ter uma reunião do Consórcio Grande Recife para discutir o aumento das passagens. Ela vai aumentar de novo, mas a frota vai continuar velha e suja e quente.

Quem decide, não anda de ônibus. Se for idoso, quem decide deve ter no seu carro aquela autorização para garantir sua vaga em qualquer estacionamento. Não vai importunar ninguém com seu corpo. Um carro não incomoda tanto quanto um corpo dentro de um ônibus, na área destinada aos idosos.

Os corpos dos que sofrem são os que mais incomodam.

Postado em Crônicas | 5 Comentários »

5 Comentários

  1. André Tricolor Virtual Disse:

    Grande Sama,

    Excelente texto, relatando esse problema que atinge nosso cotidiano. E faltou relatar os inúmeros assaltos ocorridos dentro dos coletivos, que assustam,matam e tornam nossas viagens ainda mais sinistras! Enquanto isso, os donos das empresas de transporte públicos que não sabemos os nomes, desfilam em alguma avenida da cidade em seus carrões de luxo.

  2. George Guedes Disse:

    Samarone,

    “Ou a reles indiferença, que é soberana…”

    Digo mais, Samarone, junte indiferença e egoísmo e não precisamos de mais nada para explicar porque este mundo em que vivemos é tão injusto.

  3. Pedro Disse:

    Transporte público no Brasil é uma piada de muito mau gosto.

    Muitas pessoas sequer dinheiro têm para pagar 02 passagens por dia, que dirá energia e consciência para reinvidicar algo…

  4. Pedro Disse:

    Nossa situação é muito difícil, não sei como poderemos mudar algo se somos tão passivos e quando conseguimos lutar contra alguma injustiça, somos massacrados… eu, verdadeiramente, não sei como iremos sair dessa situação.

    Tenho 35 anos e sei que no período do Sarney-Collor/Itamar-FHC era muito pior, mas não tem como ainda não encontrar tantas injustiças diárias.

  5. Josias Damião Disse:

    adorei o comentario do senhor Andre Tricolor.

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