Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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No instante em que se vive (texto que não termina nunca…)

13 de agosto de 2017, às 8:21h por Samarone Lima

Largo do Varadouro,  Olinda, domingo à tarde

Venho do Recife, fui ver umas coisas da Biblioteca Comunitária do Poço da Panela, com Gerrá. Desço na parada antes do Varadouro, onde tem um bom galeto assado na brasa, aos sábados, domingos e feriados. Custa R$ 12,00 e ainda dá direito a um saquinho com farofa.

Chega um sujeito malamanhado, sem camisa, a dona do negócio desenrola pra ele duas toscanas assadas. Ele puxa um pão sabe-se lá de onde, aperta aquelas maioneses de saquinho e começa a comer com avidez. A filha da mulher (acho que é a filha) pergunta se ele andou “se metendo em treta”. Creio que já se conhecem de outras estradas.

“Matei um cara ontem”, diz ele, enquanto mastiga. “Só me liberaram para comer, porque minha família está na Delegacia”.

A delegacia fica a trinta metros de onde estamos.

“Tu vai descer?”, segue a moça.

Descer é sair direto para o presídio, especialmente o Cotel.

“Tão vendo lá”.

“Tu já tem passagem?”

“Eu já tenho uma queda lá”.

“Qual foi a bronca com o cara”?”, pergunto, enquanto a mulher corta meu galeto.

“Um safado. Aquilo era um safado. Merecia”.

Estava com a mão direita ralada. Tentou fugir, quando a polícia chegou.

“Livrasse o flagrante?”, sigo.

“Sei não”.

“Olha seu galeto, bênção”, diz a mulher.

Pago, ele limpa a boca e volta para a delegacia.

**

Largo da Encruzilhada, Recife, 16h30.

Espero o Rio Doce/Dois Irmãos ou Rio Doce/CDU, para voltar a Olinda. O horário é meu limite. A partir das 17h, os ônibus só passam lotados. A parada de ônibus, de tão precária, fica sendo na avenida mesmo. Há muitos velhos esperando.

Um deles, com uma sacolinha de supermercado, está impaciente, irritado. Seu ônibus não passa. Ele então solta um desabafo irritado:

“Tenho nojo do Brasil. Nojo!”

Silêncio geral.

“Tenho nojo deste País! Se eu pudesse, me mudava pra qualquer lugar, mas não tenho dinheiro. Tenho é nojo!”.

O silêncio é profundo. Era algo visceral.

Meu ônibus aparece e não sei como seu desabafo terminou.

**

Ônibus Rio Doce/CDU, rumo a Olinda. Noitinha.

Uma mulher gorda, de voz potente e conversadeira, conta à amiga como foi a morte do marido, num acidente de moto, uma curva malfeita, a queda num descampado. O ônibus todo acompanhava, tal era a riqueza de detalhes.

Viúva, ela passou por inúmeras dificuldades, porque não tinha nada assinado com ele, com quem viveu um ano.

“Nessa hora, o que faz falta um papel com uma assinatura… No começo foi difícil. Qualquer barulho na porta, eu achava que era ele voltando pra casa. Isso é o psicológico da pessoa, que fica imaginando. Eu sentia o cheiro dele dentro de casa. O psicológico da pessoa é muito forte”.

Voltou a falar do acidente.

“Eu vivia dizendo pra ele ter cuidado com aquela moto, mas ele era daquele jeito dele. Eu sei que tem aquele velho ditado, que todo mundo tem o seu dia, mas as pessoas, às vezes, apressam a morte”.

**

Onibus Rio Doce/Dois Irmãos, voltando para Olinda, umas 22h.

Sento ao lado de uma senhora. Deve ter uns 55 para 60 anos, tem uma roupa simples, florida, uma leve olhada para seu rosto revela um profundo cansaço, uma quase exaustão, como grande parte das pessoas que trabalham o dia inteiro e dependem de transporte coletivo.

Ela cochila, mas acorda ao toque do celular. Alguém fala sobre sair para algum lugar, pelo que percebi, e também é sexta-feira.

“Ah, minha filha, a gente não tem mais esse negócio de dinheiro para sair não. Esse negócio de passear é coisa do passado. Não é para a gente não, é pra quem pode”.

Ela escuta a pessoa falar, possivelmente insistindo,

“Não dá pra gente. Sem dinheiro, a gente vai pra onde, Adelaide?”

**

Rua 13 de maio, 121, defronte à minha janela.

Tuite, um camarada que passa o dia andando pelas ruas de Olinda e falando sozinho, veio aqui à janela e pediu uma camisa. Ele fala assim, direto:

“Ei, me arranja uma camisa!”

Eu já vinha separando umas roupas para doar, peguei uma preta que é bem legal e protege no frio.

Ele agradeceu e no dia seguinte vi que estava usando.

Ontem de manhã bateu palma.

“Tem alguma comida?”

“Rapaz, por enquanto só tem fruta”.

“Ôx, fosse ao menos uma fava com um guisado”, respondeu, e foi embora, visivelmente contrariado.

**

Ônibus Alto Santa Isabel, vindo do Poço da Panela para a “cidade”, como se diz popularmente.

“Mas também, minha filha, só podia estar com depressão mesmo”, diz a cobradora, com uma amiga, que está ao lado da borboleta. Sei que o nome é catraca, mas borboleta é mais poético.

“A pessoa ser assaltada oito vezes nessa cadeirinha aqui, não é fácil não”.

“Oito?”

“Ou foi oito ou foi nove. Tá em casa, com depressão, a coitada”.

“É lasca…”

“O pior é que todo assalto levavam o celular dela. Celular eu sei que foram oito”.

“Misericórdia…”

**

Postado em Crônicas | 10 Comentários »

10 Comentários

  1. Monica Disse:

    Esse rapaz se chama Welington ele são com cada história as vezes gosto de ficar prestando atenção nele.

  2. O Analista - DF Disse:

    “Ôxi,fosse ao menos uma fava com um guisado…” HAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHA HAHAHAHAHAHAHA!!!

  3. Pedro Disse:

    Meu Deus, como gosto desse tipo de texto, de suas histórias tão ricas!Muito obrigado, Sama. Por conta deles, hoje sou mais atento com os detalhes o dia a dia.

  4. Samarone Lima Disse:

    Isso mesmo, Wellington. Ontem ele pediu um cigarro, eu disse que não fumava, mas ele não reclamou, ainda bem.

  5. Amanda Machado Disse:

    Que lindo isto tudo, Samarone! Uma beleza de crônica-poesia. Deu para ouvir daqui as vozes, a musicalidade nas palavras, as batidas dos corações…muito humano, muito generoso este olhar. Obrigada.

  6. DANIEL TABOSA Disse:

    Samarone,
    Seus textos nos lembram, olindenses, do quão é linda nossa cidade. Além disso são textos para serem lidos no silêncio e na calmaria da noite. Parabéns!!

  7. Samarone Lima Disse:

    Oba, meus leitores estão voltando, como aves migratórias.
    Leio sempre essas mensagens. Obrigado Amanda, obrigado Daniel.

  8. Silvio Romero Disse:

    Parabéns Samarone.
    Morei 20 anos em Olinda. Exatamente em Rio Doce e Jardim Atlântico. Lembro de muitas histórias no Rio Doce/CDU e Rio Doce/Dois Irmãos. Pegava um ou outro para ir ao Arrudão com meu Pai. Os jogos aquela época eram sempre aos domingos à tarde e ele sempre cochilava nos ônibus após passar a manhã tomando umas. Tinha que acordá-lo pois senão passaríamos da parada. Ótimos tempos!!!!

  9. recifense nos eua Disse:

    Nojo do brasil eu nao tenho nao. Adoro ir ao recife visitar o resto da familia por 20 dias, mas voltar de vez, MAIS NUNCA. Eh sim um pais que desrespeita o cidadao. Tenho pena do velhinho da sacola. Tenho pena da cobradora deprimida e sem opcao de um trabalho digno e seguro. Imagina a depressao da pessoa saber que o unico trabalho disponivel a ela implica em ter um revolver na cara a qualquer minuto. Ate eu ficava deprimido. Povo sofrido.

  10. renato silva Disse:

    gostei muito do texto.

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