Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Olindezas

17 de setembro de 2017, às 20:05h por Samarone Lima
Isabelitta cuidando das minhas leituras.

Isabelitta cuidando das minhas leituras.

No dia 12, completei seis meses como morador de Olinda. Hoje, enquanto faço essas anotações, a cidade ferve, com maracatus e frevos se espalhando pelas ruas, especialmente no Carmo e imediações. Aqui, na rua 13 de Maio, onde moro, o silêncio quase absoluto só foi interrompido pelo velho e bom John Coltrane. De vez em quando, boto o “mute”, ele deixa de tocar seu saxofone e fico desfrutando do silêncio, este amado amigo de tantos anos.

De minha parte, só vou sair daqui mesmo se me obrigarem. E só saio para morar em Montevidéo. Olhei agora de novo o contrato, esfreguei bem os olhos e está lá a data de vencimento: 15 de setembro de 2019. Como tenho sido um bom inquilino (e a dona da casa é tão tricolor, que o sobrenome é Arruda), creio que a estadia vai prosseguir.

Mas vamos ao momento presente, à vida presente – aqui estou tocando minha vida, tocando “Meu Sebo, Minha Vida”, escrevendo bastante e aprendendo a viver numa cidade cheia de mistérios e surpresas.

Uma das muitas surpresas boas foi a chegada de Isabelitta, a gatinha que eu sempre cumprimentava, quando passava na esquina aqui perto. Ela se derretia com meus carinhos, depois passou a se aproximar e um dia entrou de vez, para nunca mais sair. Foi amor às primeiras patas. Ela foi ficando, ficando, até que tivemos uma conversa franca, vi que ela queria se mudar em definitivo, então comprei ração e botei água. Ela tem se especializado em participar de todos os eventos da casa. Em peças, entra na cena e se instala. Nos lançamentos de livro, pode ser vista em cima da mesa onde está o autor, discutindo sobre sua obra. Na foto que separei para esta postagem, ela se debruçou na obra de Antonin Artaud. E ela gosta de vir deitar na minha barriga, quando estou à rede. Ela é demais mesmo.

Nos três meses iniciais, tive que fazer um intensivão para que minha janela não virasse um ponto de oferta de produtos os mais diversos, pedidos os mais variados, fora os camaradas que tiram fruta-pão dos quintais olindenses (aqui tem dois pés enormes).

Bastou comprar um berimbau de um sujeito (estava bem bonito, e ele pediu R$ 20,00 – comprei mais porque tinha vendido uns livros, e queria dar uma força). Nos dias seguintes, o sujeito apareceu com obra de arte, uns quadros meia-sola, até que chegou oferecendo um videocassete, então chamei ele na grande, expliquei que estava liso e não queria comprar nada. Ele tentou ainda outras vezes, mas quando é para ser chato, eu capricho.

Os dois sujeitos que foram aprovados para tirar fruta-pão acabaram depois barrados. O primeiro, um sujeito parrudo, incapaz de esboçar um sorriso até num descuido, tirou umas duas sacas de fruta-pão, depois veio com o filho e o tratava quase a pauladas. Queria vir quase toda semana. Não gosto de gente que é bruto com os outros. Abri a vaga com um sujeito mais velho, humilde, que vinha com dois filhos.

Era o contrário. O filho tinha ódio de alguma coisa e transferiu para mim. Entrava com o pai, queria passar a manhã inteira rapando o pé inteiro, tirando até os fruta que estavam verdes. Um dia o pai chegou com ele, eu disse que não podia, porque tinha que sair, escutei quando ele ficou me esculhambando, junto ao pai.

Depois desses breves problemas, a época do futa-pão acabou e acabou sendo bom pra mim. Além disso, eles, por mais brutos que sejam, têm que subir numa altura imensa, eu fico preocupado com algum acidente.

Mas já fiz a minha base. Já tem o mercadinho da minha preferência, no Largo do Amparo. Lá tem também a ração que Isabelitta gosta, a “Max Cat”. Não sei o motivo, mas toda ração acha que nossos amados animais falam inglês. Ao lado, tem um restaurante com uma sopa que se garante, bem quente. No caminho entre o Amparo e a minha casa, tem uma vendinha improvisada, numa casa, que você pode comprar até 22h, basta apenas tocar uma campainha.

Quando estou melhor de grana, vou comprar o pão integral na Chiviteria, da amiga Chivi, na rua de São Bento. Tem meio mundo de coisas deliciosas que ela faz. Na Gráfica Rápida do Varadouro, imprimo as minhas coisas para fazer as correções, porque só consigo ler coisas de verdade se elas estiverem no papel. Mas papel de verdade, daqueles que a gente pega e sente o papel, e risca em cima de trechos ruins, corta poemas ruins, depois encaderna, leva pra todo canto etc. O dono se chama Galego. Perto de Galego tem um restaurante com almoço a R$ 10,00 – generosamente servido. Ao lado do restaurante, tem a barbearia do seu Lula, onde cortei os cabelos há uns quatro meses, mas o negócio foi tão brutal, que ele cortou o próprio dedo.

Mas o que me encanta mesmo, além da cidade, é a beleza do povo de Olinda. Há uma forte presença negra, uma alegria diferente, que é daqui. Um riso mais aberto, mais livre, eu não sei o que é direito – e essas coisas a gente não precisa entender mesmo, só sentir. Muitas vezes fico com uma mesinha na parte inicial da casa, escuto as pessoas passarem conversando. É cada diálogo incrível. É meio difícil não encontrar inspiração por aqui. Tenho escrito menos no Estuário porque é um trabalho danado, mantes a Casa Azul organizada e limpa para os eventos.

Outro dia, um corretor de imóveis veio falar comigo. Era para “alugar no Carnaval”. Contou as vantagens, as loas e boas, que eu iria ganhar tanto, e eu só olhando. Falou uma meia hora e eu pensando comigo – mas rapaz, eu passei a vida toda vindo para Olinda como visitante, para alguns jantares na Creperia ou cervas ocasionais, no Carnaval era sempre aquele sujeito a mais que entupia as ruas da cidade com sua imensa cabeleira, e agora que estou morando na cidade, que vou poder passar um Carnaval aqui, como morador, eu vou simplesmente sair e deixar uma galera ficar aqui?

E meus livros, e o cuidado que estou tendo com a casa? E o jardim, que estou começando a plantar no quintal? E Isabelitta? Pra onde vai tudo isso?

Deixei ele falar, falar, falar. Já passei por tanto aperto na vida, nunca me movi por essa gana por grana, perdão pelo trocadilho infame, vou é ficar por aqui mesmo, para ver a loucura passar pela rua. Como sei que até dezembro a conversa vai ser a mesma, acho que vou botar uma placa logo – “Não aluga-se esta casa para o Carnaval”.

Outro dia lembrei de dois detalhes interessantes. Um dos meus primeiros trabalhos como estagiário foi no jornal “O Farol”, aqui de Olinda. Fiz algumas matérias, creio. E quando voltei de São Paulo, em 2000, após seis anos, cheguei a apalavrar uma casa em Olinda, não lembro direito onde. Mas a dona farrapou e acabei indo morar no Poço da Panela, que foi uma coisa maravilhosa.

Então, 17 anos depois, eu cheguei. Eu sou assim mesmo, sem pressa com as coisas. Meu objetivo na vida é ir cada vez mais devagar (apesar de gostar de correr, de manhã). Estou chegando mansamente, amorosamente.

Como nas sextas-feiras à noite temos tido recitais de poesia aqui no Sebo, tomei uma decisão meio ousada – na próxima vou fazer uma leitura dos originais do meu novo livro de poesias. Mas eu não sou homem de recitais. Só sei ler meus poemas, e às vezes me engasgo, quando me emociono. Vamos ver no que vai dar essa leitura.

Eu tinha outra coisa para escrever, mas esqueci agora. Fica para outra crônica.

Postado em Crônicas | 9 Comentários »

9 Comentários

  1. Arabela Morais Disse:

    Sama, que delícia de texto! Sinto-me assim também. Cheguei há 7 anos em Olinda e não pretendo mais sair. Bonsucesso tem sido minha parada. Também frequento o Mercadinho do Amparo. Olinda me encantou desde o início e me proporcionou uma sensação de pertencimento que não sentia há muito tempo.
    Qualquer dia chego na Casa Azul, numa sexta feira dessas… Quem sabe não me arvoro de ler uns poemas meus também? Além de, enfim, termos aquela conversa tão procrastinada… abraços.

  2. George Guedes Disse:

    Execelente, Samarone.
    Pouca gente tem olhos e ouvidos treinados como os seus. Que maravilha de texto. E o título -Olindezas? Maravilha!
    Isabellita sabe das coisas, escolheu muito bem seu lar.

  3. Caio Disse:

    Muito bom!!

  4. Amaro Disse:

    Pura poesia.

  5. Fernando Chaves Disse:

    Sama, soube da grande noticia que teras um herdeiro!! Parabens! Chaves.

  6. roberto Disse:

    Poxa! Parabéns!

    Pena que agora não terás tanto tempo pra escrever no estuário.

    Tenho três e sei muito bem como é isso. Te prepara.

    Adeus silencio e quietude.

    Já verás.

    Mas… vale a pena!

    Abraços e boa hora pra mamãe.

    Roberto

  7. Caio Disse:

    Fase nova a caminho! Parabéns!!!

  8. Digão Disse:

    Boa Sama, grande texto, como sempre!

    abraços,

  9. Zeca Disse:

    “Não aluga-se esta casa para o Carnaval”.
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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