Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Vida de escritor

10 de outubro de 2017, às 4:49h por Samarone Lima

Fui fazer as contas literárias, deu três livros-reportagem (Zé, Clamor e Viagem ao Crepúsculo), quatro de poesias (A praça azul, Tempo de Vidro, O aquário desenterrado e A invenção do deserto) e quatro de crônicas (A “Trilogia das Cores”, em parceria com o amigo Inácio França e “Estuário – Crônicas do Recife”, em parceria comigo mesmo). Total 11 livros, por diferentes editoras, umas melhores, outras piores.

Francamente, está bom demais, para quem sempre escreveu em meio a redações de jornais, revistas, ou dando aulas, ou trabalhando para diversos projetos, desde sistematizador de tudo que é de encontro, especialmente de ONGs, a consultorias para o Unicef, e mais um monte de coisas que já fiz na vida, que de previsível não tem nada.

Aquele negócio idílico, do sujeito acordar, tomar seu café da manhã, dar uma caminhada, voltar para escrever, no sossego, dia após dia, para ir “construindo sua obra”, como se diz por aí, é bem diferente. Pelo menos no meu caso, só uma vez tive uma boa colher de chá, que foi quando fiz o mestrado, tendo o Clamor como tema da pesquisa, e consegui uma bolsa da Fundação Ford.

Era uma maravilha. Morando em São Paulo, estudando na USP, recebia U$ 750,00 a cada três meses. Na época, para mim, era uma pequena fortuna. Hoje, continuaria sendo.Tinha dinheiro para viajar, fazer pesquisas, não precisava me preocupar com eventuais cortes de água, luz, que costumam ser bastante inoportunos. Parece que em todo lugar do Brasil tem uma Celpe e uma Compesa, esperando aquela sexta-feira, às 16h49, para cortar sua luz ou água.

Os demais livros foram surgindo aos poucos, nunca houve planejamento. Eu vou escrevendo, escrevendo, escrevendo, e tem hora que aquele volume de anotações começa a se empolgar, achando que pode se tornar um livro. Agora mesmo, estou já com um calhamaço de novos poemas e todo dia fico dando uma namorada, penteando os cabelos, ajeitando, botando perfume. Quem sabe.

Como há seis meses virei dono de sebo, aqui em Olinda, pensei que a coisa ficaria mais mansa. Abrir o sebo, organizar livros, receber a clientela, fazer umas vendas e tocar o barco literário. Qual o quê!

É uma luta. Primeiro, porque muita gente olha, acha o sebo lindo, elogia o acervo, mas as vendas ainda estão bem baixas.

O que está compensando é que a casa é enorme, e tem aparecido um monte de coisas interessantes. Lançamento de livros (já foram três), leituras dramáticas de peça teatral (duas), peças de teatro (três), o Curso de Filosofia e Estética, do amigo e filósofo J.C.Marçal (daqueles com PhD e tudo o mais, amigo intimíssimo de Heidegger), e minha Oficina de Leitura Criativa e Escrita, aos sábados. Ah, teve também o encontro do grupo de leitura de mulheres, que discutiu a obra do Paulo Leminski.

Por enquanto, nada de aniversário, batizado, chá de fraldas, bodas de prata, de bronze, de isopor. Com a aproximação do Carnaval (aqui em Olinda, a doideira já começou), a turma da Minha Cobra já trouxe o estandarte e agendou a primeira festa. Seja o que Deus quiser.

Quando tem algum evento, tenho que divulgar, acertar os detalhes, ver se tem água para o povo beber, se paguei em dia as contas, para não faltar água na casa, nem energia. Faxina, eu mesmo faço. Gosto de ver a casa ficando bonita, cheirosa, botar flores, organizar o livro de visitas, dar umas cipoadas boas nas traças e terminar tudo com um incenso. É uma espécie de “faxinação”. Depois, exausto, tomo um banho, um café, à rede, e tudo fica bem bom para as bandas de cá. Quando o negócio aperta, vem o amigo Lucas e dá uma força.

Sim, mas onde eu estava mesmo?

Esse negócio de escrever sem um tema definido, deixa o sujeito meio distraído.

É que isso é uma mitologia, o “tempo para escrever”.  Quando quer, o sujeito escreve até em pé, dentro de um ônibus, vai anotando fragmentos. Eu mesmo já escrevi uma peça de teatro, na época da UFPE, no banheiro da Casa do Estudante Universitário (CEU), usando minha velha Remington. Para escrever, vontade é mais importante que o tempo. Inácio, meu velho amigo, escreveu a novela “Terezas” em meio a 12 mil trabalhos, 789 zaps por dia e outras demandas familiares.

A não ser que o camarada tenha pai ou mãe ricos (que não é o meu caso), ou tenha recebido uma fortuna de herança (que não é o meu caso), a vida de escritor é bem parecida com a de todo mundo. Paga contas na lotérica, compra comida para o gato, limpa o quintal. Se for vendedor, vender, se for motorista, dirigir, se for professor, dar aulas. Ir ao supermercado, pegar ônibus, receber uma penca de zap nada a ver (“Bom dia!”, “hoje e o aniversário da Lorena!”, aquela chateação toda), e seguir. Só mesmo quem tem muita grana e tem gente para fazer isso é que tem tempo de sobra. Mas geralmente, quem tem muita grana e tempo de sobra não tem muito esse problema existencial de querer escrever romances, fazer teatro, pintar quadros etc.

A diferença é que, como eu vinha dizendo, de vez em quando, sai um livro novo, e a pessoa que ficou um tempão tomando suas notinhas secretas, sente aquela alegria antiga no coração. Se os leitores gostarem, então o céu fica bem pertinho, dá até para encostar os dedos nele.

Pelo menos comigo, é assim. Não é por acaso que minha nova coleção de poemas se intitula “O céu nas mãos”.

Postado em Crônicas | 7 Comentários »

7 Comentários

  1. Amanda Machado Disse:

    Que maravilha de crônica, Samarone! O poeta exibe a beleza absoluta do ordinário. Para seus leitores, certamente, sua luta é gloriosa. É muito bom lê-lo. Avante!

  2. samarone Disse:

    Amanda, você é que escreve bem pacas.
    Volte sempre, já que o estuário renovou por mais um ano.
    Beijos.

  3. recifense nos eua Disse:

    Oxe, pensei que ja eras e que depois do filho mais nunca voltarias aqui.
    Quanto ao futuro do sebo-de-boi (ou sebo pros mais intimos), nao esta na cultura do brasileiro, quem dira na cultura do nordeste do brasil. Nao vai vingar nunca como um nascedouro de dinheiro. Infelizmente. Tu vais ter que arrumar algo diferente pra expremer a grana verde.

  4. Samarone Lima Disse:

    Rcifense no eua, já vingou, visse?
    O povo aqui em Olinda lê até umas horas.
    Tem cuidado com esse Trump não, visse…

  5. recifense nos eua Disse:

    nao me leve a mal. Tou torcendo pelo sebo-de-boi. Minha impressao era q brasileiro nao lia. Mas talvez olinda seja um ponto fora da curva. Boa sorte. Fora Trump. Fora Dilma. Cadeia em Lula. Tiririca pra presidente. Eduardo Campos ja era gracas a deus, mas seu filho vai chegar pois a mamadinha nas tetas governistas nao pode parar. Brasil, o pais do futuro brilhante. Pode acreditar!!!!

  6. Antonio Gueiros Disse:

    Sama, fiquei feliz pela volta do estuário. Ele sempre reaparece. Estou devendo uma visita, apareço por aí antes do final do ano. Abraço!

  7. Pedro Disse:

    Este espaço faz falta.

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