Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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O monge poeta ou o poeta monge.

9 de janeiro de 2018, às 16:19h por Samarone Lima

Estava no bar de Peneira, nos Quatro Cantos, aquele vento perpendicular atravessando o salão, tomava minhas habituais notas, amparado por uma mesa que dava com a vista para a Ladeira da Misericórdia, quando levantei a vista e me deparei com um sujeito com um rosto ainda não visto, nas minhas andanças por Olinda. Ele soltou a pergunta intimidadora:

“Você é poeta, não é?”

Antes eu ficava em dilemas emocionais, mas melhorei.

“Sou sim”.

“Como é teu nome?”

“Samarone”.

“Ah, li um livro teu”.

Bem, começou por aí, conversamos um pouco de mesa para mesa, até que me aproximei, estendi a mão e ele me disse o nome – Tito.

Estava bebericando uma cerveja. Disse que também era poeta e tinha publicado um livro, pela editora edith (assim mesmo, com minúsculas). Depois disse que era monge.

“E monge bebe?” – perguntei.

“Hoje tenho permissão para sair”, foi tudo o que ele disse, respondendo parcialmente ao meu comentário nada a ver.

Conversamos mais um pouco, ele demonstrou uma imensa paixão pela poesia, depois segui minhas perambulações habituais.

No dia seguinte, tinha um livro que alguém deixou no sebo (isso tem acontecido sempre). Passei a mão em cima, limpei, e vi o título – “Digitais do Caos”, de Tito Leite. Olhei a foto na orelha e confirmei – era ele, o monge.

Fui ler. Muita coisa boa. Bons ventos poéticos, soprando no mosteiro onde ele está abrigado.

Vejamos o poema “Jardim da existência”.

“A existência tem decotes de Eva.

Uma obra original

precede o veneno.

Amo todos os sentimentos

que burlam a minha fé.

Sou um mistério desnaturado

a esmo no silêncio

dos minérios”.

Estou lendo devagar, tomando notas. O monge e poeta tem umas coisas novas e instigantes, vale à pena ter o livro por perto.

Convidei-o para o projeto “Poetas de Sexta”, aqui no Sebo Casa Azul, mas ele só recebe o passe-livre aos sábados. Quem fornece o passe é o Abade. E se trocar o sábado pela sexta-feira, foi o que pensei, mas é melhor ficar quieto, só a palavra Abade já deixa o cara preocupado.

“Uso sapatos

de chumbo para o vento

não me roubar”.

Tem um bocado de coisa boa, densa, umas arriscadas diferentes.

“A alma de um artista

tem partituras de lâmpadas”.

Depois fui olhar a orelha do livro. Tem poucas informações. Aparece quatro vezes a palavra “Filosofia”. Parece que ele gosta da coisa. Preciso apresentá-lo a outro santo Monge, o professor Zeca, o J.C.Marçal, ou Kiko, depende do lugar e do entorno.

Logo na abertura do livro, na parte “Enciclopédia do Caos”, há uma citação de Martin Heidegger, que Zeca lê desde os tenros sete anos:

“Por que simplesmente o ente e não antes o nada?”

Uma pergunta que levarei a eternidade inteira para entender, muito pior para responder. Zeca teria iluminações, falaria duas horas e meia explicando a hermenêutica da pergunta, se é que existe isso.

Ele cita também Baudelaire. Bingo. Os dois vão filosofar até Peneira dormir e acordar dezenas de vezes.

Descubro que o poeta-monge nasceu em Aurora,mesma cidade que o meu pai, José Vicente.

Essas coisas da vida.

Vai um trecho de “Desregramento do ser”:

“A beleza de um sentimento corresponde

ao seu risco.

Insurgem ecos de uma explosão paradisíaca:

a minha inquietude quer sê-la.

Sou como Empédocles,

sigo o que acredito

até a cratera de um vulcão”.

O cabra se garante.

Vamos ver se sábado que vem ela recebe o passe livre novamente. Vou levar Zeca, para os dois filosofarem até o anoitecer.

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