Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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As coisas que bastam

31 de janeiro de 2018, às 21:30h por Samarone Lima

Há uns três meses, o corretor da casa onde moro, aqui em Olinda, passou a me ligar. O assunto eu já imaginava – alugar a casa para o Carnaval. Na casa, funciona o Sebo Casa Azul. Deve ter uns dois mil livros. Fora minhas fotografias nas paredes, os lugares mais aconchegantes, os espaços que dão mais alegria de ficar. Toda casa tem seus mistérios e segredos.

Veio umas três vezes, com umas propostas financeiras meio indecentes. Alugar a casa para um grupo que vinha não sei de onde, chegaria na sexta, saindo na quarta-feira de cinzas. Ou seja, eu sairia de casa na sexta-feira, ficaria em algum canto que nem imagino, e voltaria na quinta-feira, para ver o que sobrou.

“Basta tu colocar esses livros todos num quarto e liberar o restante”, dizia ele.

Eu escutava a conversa. Metade do dinheiro na conta, já no dia seguinte. A outra metade quando a turma chegasse. Uma ótima grana. E eu, liso feito um gambá, arrumando a casa aos poucos, ajeitando uma coisinha aqui, outra ali, o dinheiro miúdo, difícil de aparecer. Uma onça no meu bolso era animal em extinção.

Mas cada vez que ele vinha, eu ficava com o coração apertado. Pensava nos livros, na casa, na gatinha Isabelitta. Pensava nas plantas, nos livros do meu acervo pessoal, nas minhas pequenas coisas. Mas pensava, principalmente, em quem iria ficar num lugar que eu vinha cuidando com tanto zelo. Quinze, vinte pessoas? Vindos de onde? Filhos de grileiros de alguma parte deste país devastado? Agroboys, tocando o terror? Para mim, parecia inimaginável não saber esta origem. A origem, muitas vezes, diz tanto…

Chegou um dia em que fui direto ao assunto. Não iria alugar a casa. Ele arregalou os olhos. Falou do dinheiro. Eu pensei – já estou liso há tanto tempo, que uma hora isso vai passar. E não fechei negócio nenhum.

E súbito, me veio uma imensa alegria. Porra, nem tudo está à venda!

De lá pra cá, fui cuidando mais da casa, apareceu um dinheiro que eu não esperava, pude fazer pinturas, reparos, tirei uma parede de gesso da sala, e ela ficou enorme, bela, pintada de azul-céu. Isabelitta, muito agradecida, passou a dormir com mais tranquilidade.

Pois bem. O Carnaval está chegando. A cidade está a mil. Aos 48 anos do segundo tempo, vou estar em Olinda, na minha casa (o aluguel vai até 2019), e poderei ver todas as troças e loucuras passarem.

Uns amigos combinaram de ficar dois dias, para usar a casa como ponto de apoio. Água, chuveiro, banheiro, descanso no quintal, essas coisas. Nada de “Day Use”. Muito mais, uma pausa para descanso. Não sei como se diz isso em inglês, pausa para descanso. O professor Marçal resolve em trinta segundos. Outros já disseram que pretendem vir, e vão dar uma grana, para ajudar com um segurança e uma faxineira. Tudo simples.

Depois que o corretor foi embora, naquele afortunado dia, fiquei pensando em outra coisa. Como seria ridículo, depois de tantos carnavais zanzando pelas ruas de Olinda como um folião errante, simplesmente sair da festa, para os outros ocuparem a casa, na hora mais preciosa.

Minha cota de fazer besteiras na vida é bem extensa. Dá umas vinte laudas de word, com espaço 1, na letra Cambria.

Essa eu não fiz. Vou ao meu primeiro Carnaval aqui na 13 de Maio. Espero me divertir com as pessoas queridas por perto, na mais pura alegria.

Isso me basta. Ou, como diz um grande amigo, “isso é o suficiente”.

Postado em Crônicas | 5 Comentários »

5 Comentários

  1. Antonio Gueiros Disse:

    Lembrei do poema Decir que no, de Benedetti. Depois dá uma sacada.

    https://www.poemas-del-alma.com/mario-benedetti-decir-que-no.htm

  2. Zeca Disse:

    Porra, nem tudo está à venda. Isabelitta e os livros agradecem. E os amigos, claro.

  3. samarone Disse:

    Antonio, este poeta é fantástico!

  4. Pedro Disse:

    Tanto para dizer. Nada a dizer.

  5. Alexandre Cavalcanti Disse:

    Um NÃO muitas vezes serve para tantos SIM na vida. Não é mesmo, Sama?

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