Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Pequena história de uma casa azul

12 de março de 2018, às 10:10h por Samarone Lima

A coisa mais improvável para mim, naquele início de março de 2017, era sequer pensar em alugar uma casa em Olinda. Eu era um sujeito latinoamericano sem dinheiro no bolso ou no banco, coberto de dívidas e problemas em diversas escalas Richter. Tudo desabava. Lembrava mais os personagens de Oswaldo Soriano, em seu impagável Triste, solitário e final. 

Então aconteceu o mistério, o milagre, e o recomeço de uma vida que estava arrebentada, de norte a sul.

Vamos pelo fim. Hoje, dia 12 de março de 2018, completo um ano morando nesta linda casa, que abriga o meu Sebo Casa Azul.

Vamos voltar no tempo.

A história começou com uma taróloga, a querida Eunice Mota, que faz parte do grupo de estudos do Budismo e outras paradas da vida. Ela já tinha oferecido colocar um tarô, mas calhou de marcarmos para uma segunda-feira, seis de março de 2017.

As cartas não mentem jamais. Apareceu mudança, mudança radical, não ficaria nem nada, somente os vestígios, coisas que a memória acolhe e transforma. Ao final daquela tarde/noite misteriosa, eu podia fazer cinco perguntas e puxar uma carta para cada. Eu queria fazer umas 20, mas estranhamente, perguntei pela casa, já que eu sonhava em ter um sebo. Bingo! Estava na hora justa, hora de se mexer, meu filho, deve ter dito a amada Eunice Mota, naquele venturoso entardecer.

Vamos cronometrando.

No dia 7 de manhã (terça, dia do Fuzileiro Naval e da Advocacia Pública), liguei para Chivi, amiga argentina que tinha morado em Ouro Preto e estava pensando em alugar uma casa em Olinda. Ela atendeu. Perguntei se ela sabia de alguma casa para alugar.

“Ah Samarone, sabe acabei de sair de uma casa azul, mas ela é muito grande para mim, e meio fora de mão, porque quero abrir minha padaria integral sustentável, se você quiser, te dou o contato do corretor”.

De tudo o que ela falou, guardei um trecho: “uma casa azul”.

Liguei para o corretor, Paulo, que marcou comigo para o dia seguinte, quarta-feira, dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher.  Ele deu o endereço: rua 13 de maio, 121. Um pedaço de papel, anotado às pressas, estava mudando a minha vida. A soma dos números dava oito, e achei bom presságio.

Tenho minhas mandingas e conexões as mais diversas.  O fato é que saí da rua da Aurora, peguei o ônibus, desci no Carmo, e quando fui entrando na cidade, fiz minhas orações, pedi licença para entrar, que vinha com as forças da bondade, queria apenas me reencontrar, estava por aí a procurar, rir pra não chorar.

O corretor já me esperava. Gente boníssima. Entramos pela lateral, ele foi me mostrando tudo, a casa era imensa, arejada, toda arrumadinha, tinha ficado um tempo para vender e não vendeu, tinha sido alugada no Carnaval que passou. Foi vendo devagar e me emocionando, olhando cada pedacinho e tremendo por dentro, de emoção. Depois de mostrar tudo ele disse “vamos ver lá embaixo?”

Tive um susto. Ainda tinha um quintal quase do tamanho do Arruda, com dois pés de fruta-pão e uma mangueira.

Mas eu temia duas coisas: o preço do aluguel e a famosa frase “mas tem uma pessoa na frente”. O valor do aluguel era bem razoável e não tinha ninguém na frente. Ficamos conversando umas águas, eu e o Paulo. O pai dele tinha sido jornalista, a conversa ficou boa, até que ele ligou para a dona da casa, Lady. E tome reza.

“Dona Lady, tem um rapaz aqui que gostou da casa e…”

Eles conversaram um pouco, acionei todos os santos e guias, lembrei de Oxalá, todo mundo foi convocado.

“Ela está perguntando pelo seu nome”.

Eu disse que era Samarone, ele retransmitiu a informação e repetiu algo que me encheu de animação: “Ah, a senhora conhece ele?”

Coisas da vida. Dona Vardeleide fora casada com Chico Arruda, amigo tricolor das bandas de Olinda, morto há uns dois anos.

Nos encontramos à tarde. Leide é uma mulher muito simples, gentil, disse os documentos que precisava, ela mesmo preparava o contrato, eu não podia dizer o quanto estava liso, e saí com a missão de mandar os documentos, achar um fiador e, principalmente, levantar o primeiro mês de aluguel, sabe-se lá de onde.

Meu chefe na época, o sr. Inácio França, topou ser meu fiador. Pensem num homem corajoso.

Na sexta-feira, Sidney Rocha me ligou, perguntando pelo ensaio que eu tinha prometido fazer para um projeto dele, eu nem lembrava, nos encontramos, tomamos um café, ele disse “vamos ali, que tenho que te dar os R$ 1.000,00 que acertamos”, eu quase choro. Era o que faltava para o aluguel.

Na sexta-feira o corretor avisou que estava tudo certo, e uma das mais lindas frases da língua portuguesa:

“Amanhã de manhã ela vai levar o contrato e a chave da casa”.

Sábado, 11 de março, umas 10h33, o corretor chegou, ficamos conversando, eu olhando para a casa e dizendo por dentro “isso é um milagre”. Dona Leide chegou, mansa como sempre, tirou os contratos, assinamos, entreguei o primeiro aluguel, ela me entregou as chaves, e entrei na casa, agora como morador, até o dia 14 de setembro de 2019.

Entrei e fiquei namorando a casa umas horas. Andei, fiz minhas orações, agradeci, volti à rua da Aurora para começar a organizar a mudança.

No domingo, 12 de março, dia do Bibliotecário e aniversário de Olinda, cheguei com uma rede e uma muda de roupas, fui comprar produtos de limpeza, vassoura, rodo e comecei a limpar a casa. Olinda estava em festa, com muitos maracatus celebrando o aniversário da cidade.

Três ou quatro dias depois da minha chegada, uma gatinha linda, que eu sempre fazia carinho quando passava, entrou sorrateiramente e chegou ao meu quarto. Subiu à mesa, depois deitou em cima do teclado do notebook, até que veio para o meu colo e ficou. E nunca mais saiu.

Batizei-a de Isabelitta. Está aqui ao lado, dormindo. Ela foi um desses presentes que a vida dá, quando a gente verga com um sopro, mas resiste a qualquer lâmina, como diz o poeta.

Teria que escrever uma crônica imensa, com dezenas de nomes de pessoas que me ajudaram, nos dias e semanas seguintes, de diversas formas. No dia 7 de abril de 2017, graças a essa gente toda, abri o Sebo Casa Azul.

Isso merece outra crônica, que escreverei em breve.

Quanto aos personagens citados: Eunice segue firme com seu Tarô (que recomendo) e em nosso grupo de estudos, Inácio não foi importunado por eventuais atrasos de aluguel (só um mês atrasei alguns dias) e deixou de ser meu chefe no final do ano passado. Sidney Rocha perdoou o ensaio nunca concluído e vem sempre aqui, conversar nossas águas. Chivi abriu uma charmosa padaria integral sustentável, na rua 13 de Maio, sempre cheia de gente bacana e comida boa. Dona Leide, com sua gentileza de sempre, nunca me reclamou de nada.

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