Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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O Pecado Capital…

14 de maio de 2018, às 14:46h por Samarone Lima

 

teresa com o quadro

Quando Teresa Costa Rêgo disse que iria que fazer seu aniversário no Sebo Casa Azul, deste que vos escreve, tomei um susto, mas ao mesmo tempo achei ótimo. Uma das maiores artistas plásticas do Brasil, moradora ilustre da Rua do Amparo, chamar seus amigos para celebrar seus 89 anos neste modesto espaço, foi algo que tocou este velho marujo.

A data era 28 de abril, e me remeteu a abril de 2017, quando o velho amigo, Inácio França, iria visitá-la, pra entregar o romance/novela “Teresas”, que acabara de sair da gráfica, pela editora Confraria do Vento.

“França, quero ir para esse encontro para conhecer Teresa”, disse. Ele me incluiu na visita, que tinha, além dele, sua mulher, Geórgia, e meu quase-afilhado, Bruno.

Já no primeiro encontro ficamos amigos, a conversa rapidamente foi acompanhada de um bom vinho. Como a rua 13 de maio é uma extensão da rua do Amparo (e vice-versa), fui algumas vezes visitá-la, até que ela se mudou para um apartamento à beira da praia, em Bairro Novo.

Acertamos os detalhes para o aniversário, que contaria com mais duas novidades – o relançamento dos livros “Teresa Costa Rêgo – uma mulher em três tempos”, de Bruno Albertim (CEPE), e o próprio “Teresas”, do já citado Inácio França, pai do meu quase afilhado, Bruno França, também já citado.

Vinhos, vatapá, flores, tudo sendo acertado para a festa, até que Teresa, num átimo, disse que queria um quadro seu para a noite do aniversário. Emerson, que trabalha com ela há algum tempo, estava por perto, e ficou pálido quando ela disse o nome do quadro.

“O Pecado Capital”.

Só no dia de pegarmos o quadro, na casa dela, ele  me perguntou se eu “aguentava peso”. Eu disse que aguentava, mas quando chegamos à casa/ateliê dela, senti o baque.

É um quadro belíssimo, forte, grande e, sobretudo, pesadíssimo.

“Quando dona Teresa me disse que era esse quadro, chega me deu uma dor”, disse ele.

Quando tiramos o quadro da parede, me deu uma dor e pensei em desistir, mas seria um acovardamento precoce. Respirei fundo, juntei todas as forças e saímos, para a rua do Amparo. . Não sei quanto vale o quadro, mas como eram dois barbudos saindo de sua casa com uma de suas mais importantes pinturas, não sei como não avisaram à Polícia, um caso de roubo de quadro em plena tarde de Olinda.

Nos Quarto Cantos demos a primeira parada. Deveria ter trazido um par de luvas, pensei. Devia ter vindo de tênis, pensei. Descansamos. A segunda pausa foi na rua da Boa Hora. Foi realmente uma ótima hora, quando paramos por mais alguns minutos. Respiramos fundo e demos o derradeiro gás, até o número 121 da rua 13 de maio. Mais um quarteirão, eu teria fingido uma cãimbra e pediria substituição. Emerson arrumou tudo e penduramos o quadro na parede.

O aniversário foi lindo e amoroso. Teresa recebeu muitos amigos de Olinda, estava feliz da vida, participou de uma mesa com os autores, meu amigo Jorge trouxe seu violão. Ibraim, que chegou com Cecília, foi buscar seu trompete em casa, e os dois fizeram vários improvisos.

“Vou deixar o quadro aqui mais alguns dias”, disse a aniversariante, pouco antes de sair.

Os poucos dias aqui foram o suficiente para virar um lugar de visitação. Todo mundo que vinha ao Sebo, eu fazia um passeio pela casa, somente para mostrar o quadro. Todo mundo ficava chapado com a beleza. Todo mundo tirava foto. Até Sidney Rocha, que detesta paisagens, detesta hotéis, detesta fotos, detesta que eu faça a lista das coisas que ele detesta, fez questão de tirar uma foto comigo, junto ao quadro. E ele, que detesta sorrir para fotos, está dando uma gargalhada.

Mas chegou o dia fatal – a volta.

Emerson chegou desolado, com aquela cara de quem vai carregar um piano (acho que o peso é o mesmo). Separei minhas luvas de jardinagem, dei uma a ele, botei um tênis (carregar quadro de Teresa Costa Rêgo usando havaianas é bem desagradável) e fizemos o caminho de volta, novamente com três paradas.

Chegamos de volta exaustos e suados, penduramos na parede e respiramos aliviados.

Olhando bem, está comprovado cientificamente que Teresa não é muito boa do juízo, para deixar um quadro desse andando pelas ruas de Olinda. Depois, passou uma semana aqui em casa, que não é, nem de longe, a casa mais segura da cidade.

O que importa mesmo é que foi uma noite maravilhosa, aquela do dia 28 de abril.  A celebração dos 89 anos de uma mulher instigante, carismática, cheia de vida, de sonhos, que já está pensando em uma nova série de pinturas.

Mas cuidado com os pecados. O Pecado Capital pesa muito…

sama defronte à casa azul emerson descansando defronte à casa de teresa sama e sidney 2

 

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