Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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A despedida de Mirula

16 de julho de 2018, às 12:42h por Samarone Lima

Creio que uma pessoa, para dizer que fez parte de um lugar, tem que viver as dores e alegrias de onde escolheu para viver.

Quando morei no Poço da Panela, aqui no Recife ao lado, só comecei mesmo a fazer parte da comunidade (e conhecer e reconhecer todo mundo pelos nomes e apelidos) quando passei a jogar as peladas dominicais no famoso escrete Caducos F.C. – comandado pelo gigante Batman, lateral direito com cruzamentos incertos, além de Peitão, Ninho Papeira, Cioba,Camorim etc. Ao final da pelada, claro, algumas cervas e os comentários sobre lances, o incessante roubo dos juízes etc.

Meu primeiro enterro com a comunidade foi o de Barrabás, grande figura, que tinha preenchido nosso Obituário, na famosa Venda de Seu Vital, quinze dias antes. Foi o enterro mais louco e alegre da minha vida.

Ele deixou escrito, em seu obitúario, os seguinte ítens:

Bebida: Pitú.

Comida/Tira-gosto: Patinho.

Música: “Eu bebo sim/Estou vivendo/Tem gente que não bebe está morrendo, eu bebo sim. Discurso: Deveria ser proferido pelo velho e bom Walter Lima, que não teve condições;

Lápide: Confesso que bebi (mas Maurício Silva, que estava no evento, escreveu “Saudações Etílicas”.

Na quinta-feira passada chegou a notícia – “Mirula morreu”.

Eu tinha completado um ano e três meses em Olinda, e todos os que eu conhecia, estavam rigorosamente vivos. De vez em quando, tomando uma cerva em Peneira, conversava muy rapidamente com ele, que sempre dava um plantão no bar mais conhecido dos Quatro Cantos.

Ele foi um dos fundadores de Elefante, uma clube carnavalesco que nos deu um hino inesquecível – “Ao som dos clarins de momo/O povo aclama com todo amor”…

Perdi o bar de Peneira, na sexta. Dizem que o bicho pegou, com direito até a forró, o famoso “beber o morto”. Mas tinha sarau no meu Sebo Casa Azul, e tenho minhas obrigações sebísticas.

Quando fechei tudo, quase duas da manhã, fui lá, mas Peneira estava já pegando o beco, tinha fechado.

Sábado fui lá em Peneira, nos Quatro Cantos. Parecia que quem ficou bebendo na sexta, continuava no sábado, sem sair do lugar. Uma mesa cheia de frutas e um conhaque de primeira, oferta de Peneira, dava as boas-vindas. Na casa de Mirula, o velório estava findando, e os músicos já puxavam o hino de Elefante.

O cortejo, claro, saiu acompanhado de uma orquestra de frevo. Em todas as ruas de Olinda, aplausos, crianças dançando. Lá pelas tantas, surgiu a ideia (entre os amigos), de deixar uma orquestra paga no próprio enterro, para o velório não ser aquela morgação que geralmente é. “Mas tem que deixar umas cervejas pagas, para dar quórum”, alguém observou, creio que Paulo, do Barrio, ou foi Tatá, não lembro, eu já estava com uma Brahma latão.

Lá pelas 11h07 chega Júlio Vilanova, contrariado, porque dormiu tarde e perdeu a concentração. Atravessei Olinda como nunca. Um morto a iluminar os caminhos. E um clima de alegria, de festa, de despedida. Ele, Mirula, fez sua parte, e agora partia em paz.

No cemitério do Guadalupe, havia um velório triste, sofrido, já reservado, ao lado do espaço de Mirula.

Mirula chegou esculhambando tudo, com a orquestra, os amigos, os que sabiam de suas histórias. “Ele adorava um pirão”, comentou Paulo. Ao chegar, alguém foi para junto do caixão e falou baixinho um: “Mirula, corno…”

O pessoal do enterro ao lado ficou passado com aquela animação.

Circulou um forte boato, entre o velório e o enterro, à boca miúda, que Peneira estava com uma lista de possíveis novos embarques.

“Peneira, sou muito novo em Olinda, estou fora, né?”, perguntei.

“Fora nada. Você mal chegou e já está dando trabalho”, respondeu.

O caixão enganchou para entrar, mas foi acolhido na tumba da família com palmas e alegria.

Eis um enterro precioso. A vida é celebrada, a morte festejada. Faz parte. Dessa, não sairemos vivos.

Viva Elefante, viva Mirula, viva Olinda.

Vai o link do hino de Elefante, na voz poderosa de Claudionor Germano. https://www.youtube.com/watch?v=seSbvN6V4FQ

Postado em Crônicas | 2 Comentários »

2 Comentários

  1. George Guedes Disse:

    Texto primoroso para um enterro precioso, Samarone.
    Dessa, não sairemos vivos! kkkkkkkkkkkkkkk

  2. Pedro Disse:

    Rapaz, que texto bom!! Que história boa!

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