Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Viagem terrível

27 de julho de 2018, às 15:13h por Samarone Lima

Viajo desde o primeiro ano de vida, quando passei os primeiros 12 meses morando com minha avó Zeneuda, no Crato, enquanto meus pais e meus dois irmãos mais velhos moravam em Brejo Santo, a 82 quilômetros.

Não sei de quem foi a ideia, mas justo quando completei um ano no Crato, minha avó quebrou o braço e tive que mudar a vida – agora em Brejo Santo.

Não sei se foi a primeira, deve ter sido. Depois fomos morar em Imperatriz, no Maranhão, e todo ano a gente viajava para o Crato, no Fusca do meu pai. Dava 1.157 quilômetros, só a ida, fora a volta.

Não vou fazer um inventário das minhas viagens, já que moramos também em Pentecostes (CE), Fortaleza, depois me mudei para o Recife, morei no Cabo de Santo Agostinho, depois São Paulo, depois Recife de Novo, depois Cabo de novo, depois Recife de novo e agora moro em Olinda. Em todo canto que morei, sempre viajei.

Sempre viajou com uma mochila pequena a tira-colo, onde levo no mínimo dois bons livros, canetas, meu diário e algo para mastigar.

Grande parte de qualquer viagem minha eu passo lendo, ou tomando notas.  Se estiver acompanhado, curtindo a pessoa, mas sempre arranjando tempo para ler e escrever.

Então veio o desastre. Foi na viagem que fiz há pouco mais de 24h, saindo do terrível e distante TIP, que é o nome da rodoviária do Recife, em direção ao Fortaleza.

Comprei passagem no ônibus Executivo, o mais barato, já que minhas rendas ainda não permitem o conforto dos ônibus leito.

Quando o ônibus chegou, achei que tinha algo errado. Era aquele de dois andares, novinho. Descobri que a parte de cima era destinada aos executivos, a de baixo era para os eleitos para o leito.

Tudo bem, ma acomodei, eram 17h30, o ônibus foi saindo, rumo a Fortaleza, 12 horas de estrada, já conheço cada pedaço, de tantas vezes que fiz este caminho, desde 1987, quando saí de casa.

Eram 18h30 para 19h, quando a hecatombe aconteceu. O motorista depois da parada em Caruaru, onde entrou gente pacas, resolveu apagar as luzes internas. Tudo bem, eu me dou bem com aquela luzinha do teto, resolve bem, estava fazendo uma penca de anotacões em meu caderno, e eis que… a luzinha do teto não acendia.

Bateu o aperreio. Desci, fiquei procurando o motorista, mas só tinha o banheiro. O ônibus era tão moderno, que a parte destinada ao motorista é totalmente independente. Só quando ele para o veículo e desce, é que pode abrir a porta – de fora para dentro. Fiquei imaginando como seria se alguém passasse mal.

A desgraça, a grande desgraça da escuridão durante a viagem, foi que a parada seguinte aconteceu, pelos meus cálculos, três horas depois.

O que fiz, neste intervalo?

Esculhambei a empresa mil vezes, olhei a passagem, peguei o caderno de registro de ocorrências do ônibus, tentei ligar para o 0800, para reclamar da Expresso Guanabara e lamentei terrivelmente não ter desenvolvido, como outros animais, a capacidade de ver no escuro. Na verdade, não é nem de ver no escuro, mas de ler.

Só quando o ônibus parou, foi que pude reclamar com o principal acusado, até aquele instante – o motorista.

“Ah, meu amigo, isso é um problema que já veio da fábrica. Esses ônibus novos, da Mercedes, já saem da fábrica assim. Se apagar a luz do corredor, apaga tudo. Está chovendo reclamação, e a gente não sabe mais o que fazer”, respondeu.

Fiquei amuado. Aproveitei a parada e botei as anotacões do meu diário em dia, já que, em algum momento estranho, eu teria que voltar para aquele estranho veículo da escuridão.

Somente na parada seguinte, já mais tarde, acho que uma e pouca da manhã, após uma nova parada, pedi gentilmente que liberasse pelo menos um pouco de luz, para este jovem cearense errante, que jamais passara por tamanho suplício, em sua já extensa folha corrida de viagens.

Creio que ele se compadeceu, porque a luz voltou, pelo menos por mais duas horas.

Oh, que satisfacão linda, que coisa admirável, a compreensão dos homens – aliás, de um homem, o motorista.

Li com afoiteza, tomei notas brutais, correndo contra o tempo. Aquela sensação terrível de que a escuridão poderia chegar a qualquer momento não era nada saudável.

O fato é que a hora fatal chegou. De qualquer maneira, eu estava exausto com aquela coisa toda, e só me restou mesmo dormir.

Estranho mesmo foi ninguém ter movido uma palha para reclamar a ausência de luz durante uma viagem de 12 horas. Lá pelas tantas, apareceu uma moça do andar de baixo (os do leito) e pensei que iria aderir à minha campanha pró-luz.

“Você sabe como faço para falar com o motorista?~”, perguntou ela.

“Você também quer resolver o problema da luz para leitura”, respondi.

“Quero pegar um lençol, está muito frio”, respondeu.

A Expresso Guanabara e a Mercedes Benz me devem explicações.

Enquanto elas não vêm, já decidi que não viajo mais nesta empresa sem uma boa lanterna na mochila.

 

Postado em Crônicas | 10 Comentários »

10 Comentários

  1. Antonio Gueiros Disse:

    Sama, tua crônica evoca uma alegoria massa sobre o ato de criação. A necessidade urgente de contar uma história, de produzir, escrever, registrar, mas que é interditada por escuridões que se nos impõem. Sem falar na ameaça da escuridão definitiva, da qual tentamos nos esquivar com uma pequena lâmpada de um assento de um ônibus em direção a forteleza, com nossas lanternas.

  2. Antonio Gueiros Disse:

    Não é a toa que a companhia se chama expresso. :)

  3. Antonio Gueiros Disse:

    À toa*

  4. samarone Disse:

    É isso. De alguma forma, é isso mesmo.
    Um abração,
    sama

  5. Pedro Disse:

    Sama, existem umas pequenas lanternas que são próprias para iluminar livros quando se está no escuro. Sei que venda na loja “Multicoisas” no shopping Rio Mar. Está entre 20 e 30 reais. Não é macaco gordo, mas quebra um galho bom!

  6. samarone Disse:

    Estou em Fortaleza e me deram a dica. No centro, vendem essas lanterninhas que a R$ 10,00. vou comprar logo que der.

    Abração.

  7. Rosa Disse:

    E tem a do celular também, que no desespero, pá, dá pra quebrar um galho ;)

  8. Pedro Disse:

    Sama, fui ontem vez o Sarau!! Tu estavas onde?

  9. samarone Disse:

    Pedro, estava não, por motivo de viagem.
    Espero que tenha gostado…

  10. Pedro Disse:

    A casa é muito boa e o pessoal também!

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