Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

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Encontros, desencontros, reencontros

31 de agosto de 2018, às 17:13h por Samarone Lima

A proposta de um trabalho em Fortaleza me tirou de Olinda por dois meses, e cá estou. Pela primeira vez, desde que saí de perto da minha família, naquele inesquecível verão de 1987, voltei para ficar uma longa temporada na cidade que habitei e que me habitou, dos 10 aos 18 anos.

Estranha ironia, esta. Nunca fiquei tanto tempo aqui, onde vive minha mãe, meus irmãos, primos, quase a totalidade dos tios, os amigos do Monte Castelo, mas quase não tenho tempo de estar com eles. É como se estivesse, mas em outro tempo e espaço.

E foi em meio a esses dias corridos, que reencontrei a amiga. Uma criatura muito especial, que conheci quando tinha 14 anos, no máximo, e não sabia quase nada do mundo feminino, e me ensinou tantas coisas, no pouco tempo de convivência, quando tudo era ainda novo e pronto para as descobertas.

Sempre que vinha a Fortaleza nos encontrávamos, mas em encontros mais curtos, diante da falta de tempo dela, em suas muitas demandas de trabalho. Calhou de ter terminado uma demanda mais cedo, também fiquei livre num início de noite, ela mandou mensagem, também estava livre, e nos encontramos.

Um pouco mais jovem que eu, segue bela, mas eu já vinha percebendo uns baques da vida, como se a passagem do tempo estivesse a lhe estirar uma toalha branca à mesa para começar alguns balanços. Da última vez que nos encontramos, ela acusava dores no corpo algo que os médicos não sabiam ainda identificar. Algo autoimune, sabe-se lá.

Mas desta vez, ela não falou de dores físicas, dos males que os remédios às vezes acalmam.

Precisava falar de sua vida. Teve praticamente o mesmo companheiro, casou, teve filhos, seguiu na profissão que escolheu, vive bem, não é dada a arroubos. Há sempre uma elegância em seus gestos, em sua forma delicada de falar. Então conversamos longamente, mais do que pensávamos. Falei também de mim, dos meus desencontros, fracassos, recomeços, agora mesmo, neste trabalho aqui, estou no meio de mais um recomeço, e tenho lá já muitos cabelos brancos.

E quanto mais ela falava do que gostaria de ter feito e de fazer, fui percebendo algo estranho e que me deixou um pouco zonzo. À minha amiga faltava umas boas derrotas, alguns fracassos de chorar na calçada, perdas que deixassem marcas na pele, nos ossos, no chão da memória. Muita coisa acabou se perdendo porque as águas nunca ficaram muito turvas, a voz não se alterou (ou não disse algo que precisava sair naquele momento),  a certa altura me ocorreu que minha amiga não teve o sortilégio de dar um safanão no que não era seu, de sair no meio de um filme ruim, de mandar às favas alguma coisa que já não encantava suas esquinas.

O efeito da conversa, em mim, foi este inventário de perdas, de alguns flagelos, acontecimentos que mais lembravam desastres naturais, porque na vida, tudo acontece porque estamos vivos e fazemos parte de tudo. Minha memória foi se aguçando, fui lembrando dessas revoadas que me sacudiram por inteiro, as vezes que eu só fiz me prometer que seguiria, mesmo sem saber se haveria porto, lugar para chegar, ponto de apoio, quando tudo era abismo.

E foi chegar em casa, aqui no apartamento perto da Praia de Iracema, onde estou, ainda com a lembrança viva da longa conversa, que vi a mensagem de um amigo ao celular, um amigo desses raceados com o desalento, capaz de andar léguas sem dar um gemido, mas sempre com palavras novas para inaugurar alguma estação da amizade. E ele dizia de algo que era “muito estranho”, naquela noite de sua alma, cheia de indagações e murmúrios.

“… é muito estranho, querido, que não tenho do que reclamar. Contudo, não há contentamento em nada. Não passo por dificuldades, mas não tenho facilidade com nada, cara.

Tenho feito muita coisa, mas acho que não tenho feito nada.

Ao mesmo tempo, não sinto vontade de fazer mais nada. Eu gostaria de mais ação, você está entendendo? Algo que pudesse justificar a pessoa que sou. Mas também… para que tanta ação? Para que tantos planos?

Não sei. Estou meio pensativo. Talvez eu tenha que voltar a escrever. Talvez seja isso.

Depois de um período em silêncio, onde ele parecia estar meditando sobre seus desalentos, o amigo retornou.

Mas quando eu falo ação, que eu gostaria de mais, é … menos atuação, está me entendendo?

Que eu pudesse agir, de forma contínua, plena, segura, sem me preocupar com o outro momento, sem me preocupar com… Quando acaba esta merda, para começar outra merda? La merd. Não la mer, o mar. La merd , de mediocridade.

Depois das duas conversas, fui à praia, tomei duas cervejas, fiz minhas anotações costumeiras, algum esboço de poema novo e, como sempre, não cheguei a nenhuma alguma. Tenho descoberto, nessas andanças pela vida, que sou péssimo em tirar conclusões. Elas geralmente não servem para muita coisa. Melhor mesmo é sentir tudo sem conclusões.

É como andar descalço pela praia. A praia, ela mesma, não tira nenhuma conclusão.

Postado em Crônicas | 3 Comentários »

3 Comentários

  1. Selma Nunes Disse:

    Sem conclusões conclusivas, penso que estamos num vácuo, num esboço de vida. Querendo mais, como é da natureza da nossa alma, mas flutuando a deriva, sem esperar, necessariamente, por um porto. E, entre um vento e outro, vivemos alentados pelos nossos desejos.

  2. samarone Disse:

    A Selma querida, poetizando nossas derivas…

  3. Arabela Disse:

    “Mas quando eu falo ação, que eu gostaria de mais, é … menos atuação”. Identificações. Queria mesmo era que Drummond me mandasse o anjo torto dele. Apontar o norte. “Ser gauche na vida.” Abraços Sama.

Conversinhas

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