Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias | Por Samarone Lima

Apresentação


Oficinas


Livros


Artigos recentes


Comentários Recentes


Aproximações


Destaque


Calendário

setembro 2018
D S T Q Q S S
« ago    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  

Arquivos


Usuários online

3 Usuários Online
Leitores:

1 Caranguejo
2 Escafandristas

Uma tarde com a tia

12 de setembro de 2018, às 12:31h por Samarone Lima

Acho que estou mudando. Pode ser a passagem do tempo, pode ser o fato de sempre ter mudado muito, ao longo da vida. Quando escrevo, agora, boto para tocar cada vez mais adágios, e descobri uns adágios barrocos que acalmam qualquer demônio. E o demônio fica quietinho, olhando os livros nas estantes, procurando alguma birra, mas me esquece por enquanto.

Desconfio que estou mudando, não sei se para melhor, se para pior, se é para um empate técnico. Pode ser a passagem dos ventos, mas o fato é que não tenho tempo, disponibilidade, energia, para ficar na frente de um computador dialogando (ou brigando) com o mundo. Sou cada vez mais dos livros, das gentes, dos encontros domésticos e corriqueiros. Continuo a ligar para meus amigos. Quero escutar a voz, o riso, alguma coisa que surge da reles conversa.

E nada mais precioso que o almoço dominical, aqui em Fortaleza, na casa da amada tia Teresa, que faz parte do meu universo de afetos, que já me rendeu tantas lindas cartas, poemas. E após o deleite da comida com os primos, suas mulheres, filhas, todos saíram para retomar seus afazeres, minha mãe foi dormir, e passei uma tarde inteira com a tia.

E conversamos sobre a vida, as estradas e atalhos que resultaram nela, a tia, e resultou em mim, sobrinho. A constelação de irmãos, tios, pais, todos espalhados entre as demandas da vida,em nossos emaranhados e arranjos emocionais, e a memória dos que já não estão.

A história de nossa gente. Os sonhos, fracassos, mortes, doenças, encontros, proibições, impasses, desesperos, fugas. O amor é mesmo uma coisa tremenda. Uma bisavó que ficou viúva aos 20 anos, de seu amor, que tinha 23, e teve que seguir com os filhos, com a vida. Os lutos, tão intensos, longos, o preto definindo o próprio destino, o da falta. Um tio na distante Aurora, homem de rara formação e tenacidade, que educou gerações, o tio Agostinho. Quanto mais a tia falava, mais os ferrolhos do passado perdiam a tenacidade.

Personalidades complexas, ciúmes, padecimentos. A vida tem tantos mistérios, destinos, atalhos, promessas, aleluias, e a gente pensa que sabe das coisas, que pode segurar algo com as mãos, com as promessas.

Quando minha mãe acordou, elogiou demais o colchão da tia, estava entardecendo, eu e a tia já estávamos completos de conversas, não havia mais falta do que lembrar, talvez se passássemos a inventar historias, o que também é saudável. Minha mãe entrou na conversa, e lá pelas tantas, a tia disse algo que é mais um dos segredos que ela sempre tem na alma:

“Depois de velha, Ermira, eu aprendi que a gente precisa ter coragem para dizer não. Isso eu aprendi”.

Foi o derradeiro presente da tarde. Eu, com quase 50, acho que estou mudado. A tia, à beira dos 70, está em plena revolução.

Postado em Crônicas | 2 Comentários »

2 Comentários

  1. Roberto Disse:

    Amigo querido de longas datas, tenha um crio

  2. Pedro Disse:

    Que lindo…

Conversinhas

Nota: A moderação de comentários está ativada e isto pode retardar a publicação do seu comentário. Por favor, não envie o seu comentário novamente.